Odete Santos, engenheira civil, é mãe de Ricardo, 5, e vive em São Paulo, SP. Leia depoimento

Odete e o filho: para eles, a mudança da escola particular à pública foi traumática
Arquivo pessoal
Odete e o filho: para eles, a mudança da escola particular à pública foi traumática
"Este ano já seria diferente para o meu filho. Ele acabou o ensino infantil e teria que ingressar no primeiro ano do fundamental. Só não contava com uma mudança tão radical: fiquei desempregada, sem apoio financeiro, e tive então que matriculá-lo numa escola pública.

Sempre estudei em escola pública, só a faculdade foi particular. Não me lembro de quando eu era pequena, dos meus primeiros dias de aula na alfabetização, mas assim como eu, sinceramente, espero que meu filho esqueça essa experiência. As coisas que eu vi foram desesperadoras.

Em um primeiro contato, perguntei se poderia ver a escola e a resposta imediata foi negativa, alegando que estavam em reforma. Na segunda vez que estive lá, junto com meu filho, pedi novamente para ver a escola. Novamente me disseram que não, que eu poderia conhecer a escola em janeiro.

Não me lembro de, antigamente, a escola pública ser tão desorganizada. Parece que a gente não tem direito nenhum, qualquer forma de se manifestar. As aulas começaram dia 6 de fevereiro e o primeiro dia já foi traumático.

Logo que entramos na escola, era aquela multidão de pais e alunos de todas as idades. Não havia espaço físico para tanta gente. A diretora começou a fazer um discurso que ninguém ouvia. Subi com meu filho para a sala, sentamos, a professora conversou rapidamente. Chegou uma hora que falei que ia embora e ele gritou de desespero. Uma mãe desceu e falou que meu filho estava chorando de soluçar. Subi, conversei com ele e ele ficou bem.

Mas já nesse primeiro dia uma criança invocou com ele, fazia malcriação, jogava o material todo dele no chão. A impressão foi horrível: quando fui buscá-lo, um empurra-empurra na porta, uma voz dizendo “eu vou dar tiro em você”, crianças pequenas junto com as grandes. Ou seja, até alguém chegar, pode acontecer de tudo.

Não existe uma organização antes das aulas começarem. Havia uma pessoa na sala do meu filho, que parecia a professora auxiliar e quando perguntei ela me disse que não sabia o cargo que ocupava na classe, apenas estava lá porque a diretora havia pedido. Deram um crachá para meu filho pendurar no pescoço, coisa que não fazemos nem com um cachorro.

Mandei um caderno no segundo dia. A professora descobriu que ele já estava lendo. Achou bonitinho, falou que leu um livrinho. Mas achei que pedagogicamente estava indo muito devagar. Iam enrolar as crianças até chegar o material do governo.

Mandei um caderno no segundo dia. A professora descobriu que ele já estava lendo. Achou bonitinho, falou que leu um livrinho. Mas achei que pedagogicamente estava indo muito devagar. Iam enrolar as crianças até chegar o material do governo. Essa situação estava me angustiando muito e com a ajuda do pai dele, que resolveu arcar com os custos, transferi o Ricardo para uma escola particular.

Não conseguiria engolir aquilo lá por muito tempo. Algumas pessoas falaram para eu conversar mais seriamente com a diretora, pois diziam que era uma escola de referência no bairro. Eu preferi não ter esse desgaste, pois entendi que dificilmente conseguiria unir esforços, inclusive de outros pais, para mudar a situação. Se até então não tinham marcado sequer uma reunião para apresentar a escola, os professores, o planejamento, com certeza seria difícil ter acesso a outras conversas mais privadas.

Todo medo que eu tinha, todos meus receios, se concretizaram de uma maneira ainda pior do que eu esperava. Foi uma experiência péssima e triste, porque no final, é nosso dinheiro que está em jogo e é uma obrigação do estado e da prefeitura oferecer um ensino de qualidade para nossos filhos."

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