Exames de ultrassom na gravidez e dietas saudáveis podem prevenir a hipertensão infantil

O mesmo exame que mata a curiosidade dos pais em saber se o bebê é menino ou menina, ainda na gestação, pode ajudar a família a tratar de forma rápida e eficiente a hipertensão infantil.

Médicos orientam que a pressão da criança seja medida em todas as consultas com o pediatra
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Médicos orientam que a pressão da criança seja medida em todas as consultas com o pediatra
Sim, a famosa “pressão alta” não é problema só de idoso. E quando afeta a população com menos de 14 anos pode diminuir, e muito, a qualidade de vida da criança. Não tratada de forma precoce, a doença pode resultar em acidente vascular cerebral (AVC ou derrame) ou a infecções urinárias sérias, que levam à falência dos rins.

“Em grande parte dos casos, a origem da hipertensão infantil é uma má-formação do sistema urinário, que pode ser identificada ainda na gravidez por meio do ultrassom”, afirma a chefe do Departamento de Nefrologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo, Vera Koch. Ela ainda acrescenta na lista de fatores de risco para o desenvolvimento da pressão alta em crianças a alimentação inadequada e a obesidade.

Durante cinco anos, a equipe de Koch analisou todos os bebês que nasceram no Hospital das Clínicas paulista. “Foram milhares de crianças. Do total, 1% delas apresentou problemas congênitos do sistema urinário e, desta parcela, 17% já saíram da maternidade tomando medicamentos para controlar a pressão alta”, completou a especialista.

A “obrigação” de dar medicamentos de controle da hipertensão para um em cada seis nascidos com problemas no sistema urinário, além do acompanhamento médico contínuo, são as únicas maneiras de evitar as sequelas graves da pressão alta em crianças.

No entanto, o diagnóstico tardio ainda é realidade brasileira, agravado pelo “silêncio” característico da hipertensão. Nem sempre os sintomas da pressão desregulada são claros em crianças (febre e infecção urinária constante são os principais indícios) e o descompasso pode ser descoberto só depois do AVC infantil ou da necessidade de transplante de rins.

Transplante e derrame

Só este ano, no Estado de São Paulo, 40 meninos e meninas entre 1 e 17 anos precisaram da doação de um rim para sobreviver, segundo a Central de Transplante da Secretaria de Estado da Saúde. O total de transplantes de rim em pacientes infantis representa quase o dobro da soma de cirurgias do tipo realizadas em crianças. Foram 22 transplantes de coração, pulmão, fígado e pâncreas feitos nesta faixa-etária.

A hipertensão não tratada impulsiona não apenas os transplantes renais em crianças (os rins não conseguem processar as proteínas e gorduras do corpo e ficam sobrecarregados) como também potencializa o risco de AVC (por deixar o sangue mais espesso e suscetível a obstruir veias e artérias cerebrais).

Segundo o neurocirurgião infantil Paulo Breines, que atua no Hospital Infantil Darcy Vargas, muitas vezes depois da entrada no pronto-socorro com quadro de derrame cerebral, os exames detectam uma má formação congênita na criança que culminou no acidente vascular cerebral.

O fator obesidade

Mas não é somente a má-formação do sistema urinário infantil que pode estar por trás da hipertensão precoce. As crianças estão mais obesas e os quilos extras também aproximam a pressão alta da infância.

A obesidade e o sobrepeso já fazem parte da rotina de 30% das crianças e adolescentes (segundo levantamentos recentes feitos pela Universidade de São Paulo, Universidade Federal de São Paulo, Universidade Estadual de Campinas). Atualmente, a média nacional de meninos e meninas hipertensos é de 2,5% da população infantil.

Consulta pediátrica

Na avaliação da nefrologista do Hospital das Clínicas, Vera Koch, tanto a obesidade quanto a má formação do sistema urinário fazem com que o hábito de medir a pressão das crianças seja regra das consultas com o pediatra. “Criança tem de medir a pressão sempre que vai ao médico. Só o profissional pode avaliar se a medida está de acordo com a idade. Para cada faixa-etária ou biótipo da criança existe uma medida adequada”, afirma a médica. “Por isso não adianta medir em casa e nem acreditar que o 12 por 8 (pressão indicada para adultos) é o correto”.

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