Estudo canadense sugere que convivência com outras crianças na primeira infância diminui casos de doenças na idade pré-escolar

Crianças que frequentam creches demoram a adoecer
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Crianças que frequentam creches demoram a adoecer
Mesmo que as crianças pequenas provavelmente adoeçam com mais frequência quando começam a ir para uma creche – local repleto de tintas, bloquinhos de madeira e germes compartilhados – um novo estudo sugere uma possível recompensa futura: estas crianças sofrem um menor número de infecções a partir do jardim de infância.

Entretanto, os pesquisadores não creditam tal proteção ao período passado na creche.“Creches têm a reputação de serem ‘fábricas de germes’”, disse Sylvana Cote, da Universidade de Montreal em Quebec, em entrevista à Reuters Health. Esta má fama pode ser ao menos parcialmente justificada, disse ela.

Crianças que frequentam creches já demonstraram adoecer com mais frequência do que aquelas que ficam em casa. Estudos anteriores, porém, não haviam avaliado os possíveis efeitos em longo prazo do período passado em creches sobre a saúde das crianças.

Para analisar como a batalha dos germes é vencida com o passar do tempo, Cote e suas colegas identificaram mais de 1.200 famílias com um filho recém-nascido em Quebec e acompanharam as crianças até os 8 anos de idade.

Em média, as crianças tiveram três infecções respiratórias, duas de ouvido (otites) e uma gastrointestinal, a cada ano, embora os índices tenham variado enormemente. A equipe de pesquisa constatou que as crianças com menos de dois anos e meio de idade que passavam pelo menos 10 horas semanais em uma creche apresentaram aproximadamente 60% mais problemas respiratórios e infecções de ouvido do que as crianças que ficavam em casa.

Mas estas crianças aparentemente tiveram uma compensação para o sofrimento: elas apresentaram 21% menos problemas respiratórios e 43% menos infecções de ouvido durante os primeiros anos do ensino fundamental. Não foram observadas diferenças no número de infecções gastrointestinais, relataram os autores na publicação “Archives of Pediatrics and Adolescent Medicine”.

Além disso, as crianças que frequentaram uma creche com um grupo menor de crianças, ou ainda que começaram a frequentar uma creche maior depois dos dois anos e meio de idade, aparentemente não tiveram a mesma proteção nos anos seguintes. “É exatamente na fase em que as crianças começam a interagir com um número grande de colegas que o número de infecções aumenta”, observou Cote.

“Realmente é uma questão de tempo. Elas podem ter o mesmo número de infecções no total, mas nosso argumento é que é melhor passar por essas terríveis infecções mais cedo. Estar ausente da creche não traz as mesmas implicações que faltar às aulas no jardim de infância ou na pré-escola, quando as crianças já estão aprendendo a ler e a escrever”, ela complementou.

Os pesquisadores advertem que estudos complementares serão necessários para confirmar se a creche é ou não responsável pelo controle das infecções tardias e para identificar a possível existência de uma ligação entre os fatos. Cote sugere que o fato de adoecer pode ajudar a formar a imunidade da criança.

Enquanto o tema permanece em estudo, Cote acalma os temores comuns dos pais: “Os pais podem ficar despreocupados, pois as creches não levam a mais infecções em geral. Passar por estas infecções mais cedo pode, inclusive, ser melhor”.

(Tradução: Claudia Batista Arantes)

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