Pesquisa: 28% das crianças brasileiras de até cinco anos estão acima do peso e 57% não consomem a quantidade correta de cálcio

Crianças comem menos nutrientes, estão mais obesas mas com falta de vitaminas importantes no organismo
Getty Images
Crianças comem menos nutrientes, estão mais obesas mas com falta de vitaminas importantes no organismo
Médicos, nutricionistas e pais têm começado a lidar com um tipo diferente de desnutrição, ligada à falta de nutrientes e não, necessariamente, de comida. Segundo a pesquisa Nutri Brasil, 22% das crianças brasileiras com até cinco anos estão com sobrepeso; mais 6% estão obesas. Para Cláudio Leone, professor do Departamento de Saúde Materno-Infantil da USP, tais dados são estarrecedores refletem as mudanças de hábito dos adultos.

Leone explica que o Brasil passa por um processo de transição nutricional, ou seja, as gerações mais novas transformaram sua maneira de se alimentar. “Obviamente essa transição da desnutrição para a obesidade vai cobrar um preço, seja no lado psicossocial ou como distúrbios metabólicos no organismo”, opina. Segundo o médico, não é só porque a mortalidade diminuiu que as novas gerações estão mais saudáveis.

Um bom exemplo disso é apontado pelo pediatra e membro do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Mauro Fisberg. “Quase 87% das crianças estão ingerindo mais sódio do que o recomendado”, diz. O sódio, presente em maior quantidade em salgadinhos e alimentos processados, pode causar doenças cardíacas e hipertensão.

Fisberg afirma, no entanto, que nem toda alimentação ruim vem dos alimentos processados e alerta para o uso de sal na preparação da comida. “Nós gostamos de alimento mais salgado, usamos o sal e o açúcar de mesa em um volume maior que o dos outros países”, completa.


Vitamina D e Cálcio

Além da deficiência em vitaminas E e A, as crianças de hoje também apresentam falta de Vitamina D e Cálcio. Segundo pesquisas norte-americanas, 57% das crianças entre quatro e seis anos ingerem uma quantidade de cálcio abaixo do necessário. O medico e professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, Richard Wood afirma que a falta de cálcio na infância pode prejudicar o crescimento e, a longo prazo, levar a osteoporose.

Tanto Woods quanto Fisberg apontam a preferência pelo refrigerante como principal razão da redução do cálcio na dieta das crianças. “Os refrigerantes, assim como o café, diminuem a quantidade dessa substância no corpo. Eles bloqueiam a ação do cálcio”, explica o norte-americano.

Já a vitamina D, responsável por potencializar a ação do cálcio no osso e ajudar no sistema imunológico, pode ser adquirida tanto com uma dieta equilibrada quanto pela exposição aos raios UV. “Uma pessoa com uma dieta pobre em vitamina D conseguirá se virar muito bem”, diz Wood. Isso porque esta vitamina pode ser produzida pelo próprio organismo quando em contato com o sol. Mas aí temos mais um problema. “As crianças não estão tomando tanto sol quanto deveriam, elas não fazem mais atividades na rua”, lamenta o norte-americano, lembrando que a nutrição infantil está diretamente ligada ao tipo de atividade que elas têm (ou não) na vida diária.

Como reverter?

Para Mauro Fisberg, a mudança no estilo de vida é a saída para a questão da obesidade infantil. “Nosso cotidiano é muito diferente do que nos gostaríamos de ter. E isso impacta as nossas futuras gerações”, afirma o médico.

“Os pais são os primeiros modelos de comportamento para a determinação de estilo de vida para as crianças”, relata. Ele diz que a família pode começar mudando os próprios hábitos como fazer refeições longas e compartilhadas, bem como fazer atividades físicas com as crianças. “Não precisa colocar a criança na natação duas vezes por semana desde pequena, ser ativo é correr, sair, passear, interagir com a criança. Nem sempre atividade é esporte”, afirma.

Cláudio Leone acha que o esforço tem que ser coletivo. “Todos os setores da sociedade devem estar envolvidos para o combate à obesidade”, diz. Ele acredita que esta geração de novos obesos pode reverter a situação com ajuda da educação alimentar, mas acha que tal reversão deve exigir bastante das crianças. “Durante muito tempo foi desejo do homem ter menos atividade, conseguir comida mais variada e mais rápido. Levou 50 anos para perceber que isso não faz bem”, termina.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.