Americana expõe dieta da filha de sete anos em revista e levanta o debate sobre a melhor maneira de fazer uma criança perder peso

Dara-Lynn Weiss e a filha, Bea: artigo polêmico na Vogue americana
Reprodução Vogue
Dara-Lynn Weiss e a filha, Bea: artigo polêmico na Vogue americana
A produtora Dara-Lynn Weiss se viu em meio a um turbilhão de críticas, e algumas manifestações de apoio, após assinar um artigo na edição de abril da revista Vogue americana contando como conseguiu fazer a filha de sete anos, Bea, perder quase oito quilos.

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Além da diminuição da quantidade de comida ingerida pela menina, a dieta consistia em algumas punições feitas publicamente – como arrancar um copo de chocolate quente das mãos da filha diante de outras pessoas. A americana, que deve escrever um livro sobre sua experiência, alega que a perda de peso foi um pedido do pediatra da filha.

“É possível ter um emagrecimento saudável sem a necessidade de humilhação ou punições públicas. O objetivo não é apenas um número na balança, e sim ter mais saúde, tanto física quanto emocional. A perda de peso apenas é um objetivo pobre e, muitas vezes, perverso com a criança”, alerta o diretor de psiquiatria e transtornos alimentares da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade (ABESO), Adriano Segal.

De acordo com a ABESO, mais de 2 milhões de crianças brasileiras de cinco a nove anos apresentam algum grau de obesidade. Diante de números altos como este, não resta dúvidas que crianças com sobrepeso ou obesidade precisam ter uma vida mais saudável. Encontrar a melhor forma de ajudar a criança é o desafio.

Alimentos saudáveis devem fazer parte do dia a dia da família, não só da criança
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Alimentos saudáveis devem fazer parte do dia a dia da família, não só da criança
Núcleo familiar

Uma das primeiras atitudes para ajudar uma criança a perder peso é observar a dinâmica familiar. A responsabilidade pelo excesso de peso nem sempre está apenas na criança. Não é uma meta real querer que os filhos comam salada de fruta enquanto os pais e irmãos abocanham uma barra de chocolate ou um enorme sorvete. Para funcionar, a mudança de comportamento deve atingir a família e não apenas um de seus membros.

“Não raro, a criança tem pais obesos incapazes de enxergar sua própria doença. A família precisa admitir que está obesa ou que tem comportamento obeso como um todo para que a reeducação alimentar funcione”, ensina Léa Lederer Diamant, especialista em endocrinologia, metabologia e endocrinologia pediátrica do hospital Albert Einstein.

É importante, segundo especialistas, ficar claro que o processo de perda de peso para criança é diferente da tradicional dieta feita por adultos. “Não gosto da palavra ‘dieta’ porque significa restrição, castigo. O caráter punitivo da expressão tira a função educativa que a orientação nutricional deve ter”, explica o pediatra Mauro Fisberg, nutrólogo e professor do departamento de pediatria da Escola Paulista de Medicina.

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Enquanto a restrição de alimentos pode funcionar para o adulto, uma criança em fase de crescimento deve ter um tratamento diferente. Segundo Léa, a principal atitude seria retirar alguns alimentos da rotina da criança, como açúcar e farinha branca. Apesar de tentador, proibir carboidratos, por exemplo, não é a solução ideal. “Alguns estudos mostram que a criança engorda mais pelo que bebe do que pelo que come. Uma das atitudes positivas seria trocar os sucos de caixinha e achocolatados por água ou suco natural. É responsabilidade dos pais disciplinar a alimentação dos filhos”.

Outra aliada importante no combate à obesidade infantil é a prática de atividades físicas . A análise caso a caso é a mais indicada, mas Mauro explica que se mexer é essencial, seja como prática esportiva ou apenas recreativa. “Os pais precisam encontrar tempo para essa criança se exercitar. Não pode ter desculpas”.

Cicatrizes emocionais

Em conjunto com o trabalho nutricional, pais e profissionais devem se preocupar com a saúde emocional das crianças. A atitude da americana Dara-Lynn Weiss é um exemplo a não ser seguido, de acordo com a psicóloga pediátrica especialista em obesidade infantil Cláudia Madeira Pereira.

“Estudos e práticas clínicas são unânimes ao afirmar que expor crianças com excesso de peso a situações humilhantes pode ter consequências negativas para o bem-estar psicológico delas. Problemas de comportamento, baixa autoestima, depressão , ansiedade, perturbações alimentares como anorexia ou bulimia e tentativas de suicídios estão entre os problemas que podem ser enfrentados no futuro”, diz Cláudia.

Abordar o problema de forma inadequada também pode estar contribuindo para torná-lo ainda mais sério. Luzia Winandy, psicóloga especialista em psicoterapia psicanalítica pela Universidade de São Paulo (USP), afirma que justamente por se sentirem pressionadas ou humilhadas as crianças podem descontar suas frustrações na comida. “O excesso de peso pode trazer problemas de saúde graves, mas a família tem a obrigação de tratar este assunto com respeito e afeto. A criança precisa se sentir apoiada e incentivada”.

“O bullying que o obeso sofre comumente começa dentro de casa. As mesmas pessoas que xingam ou apontam falhas que façam a criança se sentir inferiorizada não enxergam que também são obesas ou apresentam comportamento obeso. Precisamos refletir sobre isso no núcleo familiar”, alerta Mauro.

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