Futebol, artes marciais, tênis: se a doença está sendo controlada pelo médico, não precisa limitar seu filho à natação

Bárbara e o filho, Bruno: ele joga futebol, anda de bicicleta e nunca teve uma crise durante a realização de qualquer uma dessas atividades
Celso Pupo/Fotoarena
Bárbara e o filho, Bruno: ele joga futebol, anda de bicicleta e nunca teve uma crise durante a realização de qualquer uma dessas atividades
As crises respiratórias da criança com asma têm muitos gatilhos, desde o contato com objetos ou lugares empoeirados até uma mudança climática muito brusca. Porém, ao contrário do que muitos pensam, realizar esportes não é necessariamente um fator desencadeador de crises. Se a criança estiver recebendo tratamento e acompanhamento médico, a prática de atividades físicas só tem a contribuir para o bem-estar e a saúde.

Segundo o alergista Flávio Sano, doutor pela Unifesp e diretor médico da Sociedade Brasileira de Alergia e Imunopatologia (SBAI), a criança asmática, assim como o adulto, deve ser tratada como um indivíduo comum. “Embora 60% delas possam sofrer com os sintomas da asma ao realizarem esforços físicos, se a doença estiver controlada e a criança orientada de como proceder diante de alguma crise, ela pode e deve realizar esportes”, diz o especialista. E não precisa ser obrigatoriamente a natação.

“A natação realmente é uma atividade que ocasiona menos broncoespasmos e, consequentemente, menos crises asmáticas. Mas aquele que seguir as orientações do médico e tiver os medicamentos sempre à mão pode praticar qualquer esporte”, afirma Sano. O diferencial da natação é que ela é realizada em ambientes úmidos e, na maioria das vezes, aquecidos – o que protege os asmáticos. Mas isso não significa que esportes com corrida, como futebol ou basquete, estejam vetados da vida das crianças com asma.

Pela culatra

Por outro lado, a natação também pode não ser a melhor opção para a criança: piscinas com cloro em excesso também podem ser o estopim para uma crise, já que a substância pode irritar a mucosa respiratória. De acordo com Andres Enrique Meyer, diretor do Departamento de Atividade Física da Associação Brasileira de Asmáticos (ABRA-SP) e professor de Educação Física, o mais importante mesmo é a criança se exercitar praticando o esporte de que mais gosta: “O asmático que estiver bem tratado pode nadar, correr, andar descalço, fazer o que quiser. E os pais não precisam ter medo”. Mas a assessora Bárbara Bezerra, de 33 anos, teve.

Bruno brinca de bola com a mãe - asma controlada
Celso Pupo/Fotoarena
Bruno brinca de bola com a mãe - asma controlada


“Quando descobri que meu filho tinha asma, aos dois anos de idade, pensei que ele não poderia praticar qualquer esporte”, afirma ela. Com o incentivo do pediatra e acompanhamento medicamentoso, Bárbara percebeu que Bruno, hoje com oito anos, não precisava ter uma rotina tão diferente das outras crianças: “Hoje ele joga futebol, já fez natação, está bastante ligado ao esporte”. E nunca teve nenhuma crise desencadeada pela prática dele.

“Desde o princípio o médico me tranquilizou, dizendo que a prática de esportes era saudável e que iria tornar o organismo do Bruno mais forte”, afirma a mãe. “Então eu só restrinjo quando eu vejo que ele está com sintomas de que terá alguma crise.” Para Bárbara, os medicamentos – incluindo o broncodilatador, conhecido popularmente como “bombinha”, capaz de tirar rapidamente um asmático da crise – têm tornado as crises de Bruno cada vez mais espaçadas.

Autoestima e sociabilidade

Eliane Alfani, médica coordenadora da equipe de Pediatria e Pneumologia Infantil da Unidade Anália Franco do Hospital São Luiz, de São Paulo, também afirma que, embora a asma seja uma doença que restringe a capacidade pulmonar, com o acompanhamento e tratamento adequado ela deixa de se tornar um obstáculo aos que curtem praticar esportes. “A prática destas atividades torna as crianças mais confiantes e alegres, além de desenvolver a musculatura e aumentar a resistência, autoestima e sociabilidade”, afirma.

Segundo ela, cerca de 20% dos atletas olímpicos são asmáticos e isso não os impede de se tornarem medalhistas. Com o treinamento e a supervisão adequada, Alfani assegura que a asma não é um impedimento para o sucesso pessoal e alegria da criança. Andres Enrique Meyer concorda e afirma que a criança asmática terá todos os benefícios que o esporte pode proporcionar.

“A capacidade respiratória dela também irá melhorar e o número de crises poderá diminuir com um bom condicionamento físico”, afirma o especialista. Pais e filhos, no entanto, devem estar atentos aos fatores desencadeantes e aos sintomas que podem surgir durante a prática de esportes – não necessariamente pelo esporte em si, mas pelos acessórios ou circunstâncias que cercam a prática. Flávio Sano exemplifica: se a prática de judô ou caratê ocorre em um tatame empoeirado, para os asmáticos é aí que mora o perigo.

“Se uma crise for desencadeada, a criança pode começar a tossir, ter chiado no peito e começar a ter falta de ar de 5 a 8 minutos depois do início de uma prática esportiva. O quadro pode se agravar se ela não for socorrida”, afirma o especialista. Existe um segundo caso, em que os sintomas podem surgir de 6 a 12 horas depois do exercício físico. “A asma induzida por exercício se manifesta nestas duas fases, a imediata e a tardia”, explica. Mas com se ela estiver controlada e supervisionada, é só correr para o futebol – como faz Bruno.

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