Pais devem ficar atentos aos sinais de perigo. Ortopedistas ensinam a prevenir rompimentos nos ligamentos do joelho

Futebol não é mais território exclusivamente masculino. As mulheres têm invadido os campos e as quadras para praticar o mesmo esporte de pais, irmãos, maridos, filhos e amigos. O interesse pela prática esportiva que é paixão nacional começa na infância. Turmas mistas e exclusivamente femininas são mais comuns e numerosas em escolinhas e clubes de todo o País.

O crescimento do interesse das meninas gera preocupação para ortopedistas brasileiros e merece atenção das mães. A explicação da cautela é simples: o número de crianças do sexo feminino com idade entre 8 e 10 anos que chega aos consultórios com lesões no joelho por causa do futebol cresce a cada dia. “O joelho feminino é diferente.  As articulações não estão adaptadas aos esportes mais violentos. No futebol, o que prejudica as meninas é a constante mudança de direção que o corpo precisa fazer”, comenta o ortopedista Gilberto Camanho.

Camanho lista outras situações comuns no futebol que podem prejudicar ainda mais a saúde das atletas mirins: pisos ruins ou campos desnivelados e calçados inadequados.

A preocupação dos médicos brasileiros é com possíveis rompimentos dos ligamentos do joelho, que são resolvidos sempre com cirurgias para substituir o tendão. Como as crianças estão em fase de crescimento, os ortopedistas temem prejuízos na vida adulta.

“Temos atendido casos de rompimentos semelhantes ao de atletas profissionais, mas essas crianças são mais vulneráveis nessa idade. A fase entre 8 e 10 anos é a que as meninas mais crescem”, ressalta Camanho.

A situação está se tornando tão comum que será alvo de debates entre especialistas brasileiros e estrangeiros durante o 42º Congresso Brasileiro de Ortopedia e Traumatologia, que acontece em Brasília até o próximo domingo (14).

Desconhecimento

Marina pratica chutes a gol para fortalecer os joelhos. Família desconhecia diferenças nas articulações de meninos e meninas
Fellipe Bryan Sampaio
Marina pratica chutes a gol para fortalecer os joelhos. Família desconhecia diferenças nas articulações de meninos e meninas
Se, para os especialistas o assunto gera preocupação, nas famílias ainda é desconhecido. Especialmente se a criança ainda não se machucou, as mães não sabem como protegê-las e nem como agir em caso de acidentes.

 Marina Rocha Coutinho, de 9 anos, começou a jogar futebol em uma escolinha de Brasília há pouco mais de dois meses. Empolgada com as aulas, ela conta que nunca se machucou, mesmo jogando com meninos. A mãe dela, Maria Inês Rocha, desconhecia os temores dos médicos.

“Você me trouxe uma preocupação agora. Pensava mais em possíveis quedas por causa do impacto com as outras crianças. Até porque o objetivo das aulas não é competição. É exercitar mesmo”, comenta. O professor de futsal da turma de Marina, Rodrigo Resende, conta que, nessa idade, as crianças precisam fazer exercícios lúdicos, que trabalhem a coordenação motora e psicomotricidade para fortalecer os músculos.

“Temos de cuidar mesmo das articulações das crianças. Para isso, elas fazem exercícios de corrida e chute a gol, por exemplo, que fortalece os joelhos”, diz. Helicácia Guedes Martinelli, mãe de Brenda, 9 anos, única colega de Marina no futebol.

Helicácia conta que também nunca teve preocupação com possíveis problemas nas articulações. “Eu também jogo futebol com um grupo de amigas e acho uma ótima atividade”, conta.

Brenda começou a jogar futebol há um mês, seguindo os passos da mãe. Professor incentiva exercícios para a musculatura antes do treino
Fellipe Bryan Sampaio
Brenda começou a jogar futebol há um mês, seguindo os passos da mãe. Professor incentiva exercícios para a musculatura antes do treino
De fato, Camanho diz que a intenção dos ortopedistas não é causar pânico nos pais, mas estimular a prevenção. Ele sugere que, antes de iniciar qualquer atividade física com os filhos, os pais levem as crianças para se consultar com um profissional da área. “A avaliação da constituição física da criança pode mostrar se há sinais de que ela pode sofrer lesões nos ligamentos e podemos propor soluções, como o fortalecimento dos músculos”, alerta.

O ortopedista infantil Caio Fernando Vicente também defende que o biotipo das crianças seja avaliado antes do início de qualquer atividade física. “Há crianças, por exemplo, que possuem um desvio no eixo do joelho, deixando a perna ou mais aberta ou mais fechada. Problemas de rótula por causa disso são comuns e podem ser evitados com exercícios de fortalecimento”, comenta.

Em outros esportes

Caio também considera a medida importante para evitar que, de repente, uma lesão mais grave faça com que a criança tenha de abandonar o esporte e “a modalidade perder um grande talento”. Renata Ribeiro, técnica do time de basquete feminino juvenil do Clube Vizinhança em Brasília, conta que as lesões em crianças e adolescentes nos mais variados esportes têm se tornado comum.

Renata acredita que muitos professores forçam demais as crianças, especialmente as mais talentosas e habilidosas. “Temos de pensar sempre na preparação do atleta para a vida. Recebemos meninas de 12 e 13 anos já com lesões graves, porque foram submetidas a um esforço que o corpo não estava preparado. É preciso conscientizar os pais também, para que eles fiscalizem também os trabalhos dos professores”, defende.

Letícia Freitas, 13 anos, Sarah dos Reis, 16, Serena Costa, 15, Taynara Macedo, 16 e Djamila de Jesus, 19, apesar da pouca idade, já sofrem com lesões. Djamila já fez uma cirurgia no joelho. Sarah convive com uma dor no tornozelo fruto de uma torção tratada de maneira equivocada e não pode machucá-lo de novo, senão vai direto para o centro cirúrgico. Letícia e Taynara também sofrem com dores nos joelhos. Serena também tem um desgaste nos joelhos e uma lesão no polegar da mãe direita. Não recebeu tratamento adequado quando se machucou. "Muitas vezes o atleta é colocado em risco por causa de um jogo", lamenta Djamila.

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