Culinária estimula crianças a comer melhor, aprender disciplinas tradicionais e compartilhar com a família o aprendizado

Substituir os livros por colheres de pau nem sempre foi uma opção das escolas. Mas colocar a mão na massa – literalmente – se tornou uma alternativa bastante utilizada para a educação das crianças. Mesmo na hora de aprender inglês ou ciências, a cozinha pode proporcionar mais às crianças do que os pais imaginam, ajudando até a criar gosto por aquela verdura que elas nunca quiseram experimentar.

Betty Kövesi Mathias, coordenadora e professora da Escola Wilma Kövesi de Cozinha e Gastronomia , em São Paulo, confirma que em seus cursos de culinária as crianças ficam mais curiosas em relação aos alimentos. “Quando eu pergunto quem gosta de espinafre, metade da sala diz que não, mas então fazemos um creme de espinafre e a maioria resolve experimentar. O fato de manipular a verdura faz com que elas percam um pouco do preconceito”, explica.

A nutricionista Viviane Nagano, do Colégio Magister, em São Paulo, concorda com Kövesi. “Antes de fazermos um bolo de cenoura com as crianças, plantamos, acompanhamos o crescimento e então colhemos. Tudo junto a elas”, explica. Segundo ela, acompanhar o processo completo estimula a criança a realmente experimentar aqueles alimentos usualmente rejeitados, mesmo que ela esteja no mini-maternal, com apenas três anos.

Há outros objetivos, além dos pratos, que podem ser alcançados ao colocar uma criança para mexer em uma cozinha, como os que estimulam as aulas de Horta e Culinária do Magister: “trabalhamos cores e números, e acaba sendo um processo pedagógico unido a um maior estímulo”, diz Viviane. Mas não são somente estes os benefícios da culinária para crianças.

Biologia com queijos, química com pães

Os ensinos infantil e fundamental atuais também estão promovendo a entrada de crianças nas cozinhas. Na Prima Escola Montessori, em São Paulo, as crianças do Ensino Fundamental II aproveitam a culinária para aprenderem mais sobre fungos. “Quando elas estão neste ponto de aprendizado fazemos tortas de champignon, patês com queijo roquefort, e ensinamos todo o conceito dos fungos até com mais interesse deles”, diz Teresinha Silva, coordenadora pedagógica da escola.

Segundo ela, os alunos do 6º ao 9º anos são envolvidos neste tipo de processo. “No módulo dos fungos, terminamos com uma mesa de degustação que une vários alunos para eles fazerem um relatório dos alimentos experimentados juntamente a outro grupo que está realizando um trabalho sobre alimentação saudável, então eles vão descobrir o quanto tem de gordura naquele prato”, exemplifica.

O mesmo acontece com as crianças que chegam ao módulo de fenômenos físicos e químicos. Neste momento, para aprenderem as transformações das substâncias, entrarão na cozinha para fazerem pães. Teresinha conta que, embora cozinhar pareça uma “grande farra” para os alunos, é o horário que eles têm para interagir também. “Enquanto ele está picando salsinha, não precisa falar com o colega somente sobre ciências, mas ideias e sugestões em torno do preparo dos pratos sempre acabam surgindo”, completa Silva.

Segundo ela, ensinar ciências dentro da cozinha coloca o aluno num ambiente que agrega mais sentido. “Ensinar sobre o reino das plantas é um assunto um tanto árido para eles, mas colocá-los na cozinha para falar do assunto acaba despertando ainda mais a necessidade de aprender”, conta. Ali o aluno irá perceber que é realmente importante aprender aquilo e, além de ser agradável, verá na prática o que anteriormente conhecia apenas nos livros.

Do inglês para a cozinha e vice-versa

O mesmo acontece na escola de inglês Kid’s Time, em São Paulo. Uma vez por mês, todas as aulas são planejadas em contato com o universo culinário, dependendo do foco de interesse. A proposta, segundo a diretora pedagógica Glória Varella, é ensinar todo o vocabulário em inglês presente na hora de fazer uma receita e, ainda, apresentar a culinária de outros países, como os Estados Unidos. “Além de palavras novas eles começam a aprender o costume de outro país também”, comenta.

De todas as turmas, Varella também conta que não há uma que não curta, dos menores (de três anos) aos já mais velhos (de 16). De bolos de banana a sanduíches de pasta de amendoim, cada faixa etária tem um objetivo com as aulas: “as crianças de cinco anos que estão aprendendo números em inglês, por exemplo, fazem cookies em formato de números”. No entanto, não chegam perto do fogo. “Se tiver alguma preparação que exija algo que possa ser perigoso, eles ficam longe”, afirma.

Da escola para casa

No Magister, as crianças sempre acabam levando o que é plantado para casa – e os pais contam que observam um maior interesse das crianças em experimentar o alimento cultivado. Já na escola de culinária de Kövesi, onde os alunos chegam gostando de cozinhar, eles acabam até inventando novos ingredientes para os pratos. “Uma vez estávamos fazendo um prato chamado ‘penne a pizzaiolo’ e o aluno me perguntou por que tínhamos que colocar orégano seco na massa. Depois daquele dia eu os deixo escolher as ervas que preferem da horta que tenho aqui na escola”, conta.

O ensino da culinária também incentiva, além dos muros das escolas, a convivência entre pais e filhos. “Muitas vezes as mães ligam aqui para pedirem a receita de algum prato. Várias crianças acabam levando este interesse”, diz Gloria Varella, da Kid’s Time.

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