Duas pesquisas norte-americanas estabeleceram ligação entre o movimento das mãos e o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade

Nas mãos: controle motor está ligado à gravidade do transtorno do déficit de atenção e hiperatividade
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Nas mãos: controle motor está ligado à gravidade do transtorno do déficit de atenção e hiperatividade
Segundo duas novas pesquisas norte-americanas, medir o controle dos movimentos das mãos de crianças que sofrem de TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade – pode revelar pistas das diferenças cerebrais dos portadores da doença.

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Em uma parceria, cientistas do Centro Médico do Hospital Infantil de Cincinnati e do Instituto Kennedy Krieger de Baltimore realizaram experimentos com jovens diagnosticados com TDAH. Os participantes realizaram movimentos sequenciais de bater os dedos. Os jovens com TDAH tiveram mais que o dobro de movimentos extras não intencionais em relação a outras crianças, de acordo com uma das medidas utilizadas.

A equipe de pesquisa também utilizou um dispositivo emissor de pulsações magnéticas para medir a inibição cortical – o “sistema de freios” do cérebro – das crianças com TDAH. As mesmas apresentaram propensão 40% inferior do que as outras crianças a inibir os movimentos resultantes com as mãos.

“Agora temos uma medida quantitativa real de um problema com o comportamento de controle destas crianças”, disse Stewart Mostofsky, autor do estudo com base no movimento de dedos e diretor de Laboratório de Pesquisa Neurocognitiva e de Imagem do Instituto Kennedy Krieger.

“De um ponto de vista clínico, a questão crítica é que estas crianças realmente apresentam diferenças em relação a estes aspectos do controle motor normal”, disse Mostofsky, observando que estas variações podem afetar a escrita, o uso de teclados e outras habilidades motoras mais refinadas. “Temos de reconhecer essa questão e levá-la em conta ao considerar como trabalhar com crianças com TDAH”, ele complementou.

TDAH e controle motor

O TDAH é um problema de desenvolvimento – caracterizado por falta de atenção, impulsividade e/ou hiperatividade – que afeta cerca de 8% das crianças americanas. De acordo com estudos recentes, dois terços destas crianças também lutam contra outros problemas mentais e de desenvolvimento, como a ansiedade e a incapacidade de aprendizado.

O estudo de Mostofsky examinou 50 crianças destras entre 8 e os 13 anos de idade, incluindo 25 com TDAH e 25 sem a doença. Os participantes tiveram de bater cada um dos dedos em sequência sobre o dedão da mesma mão, alternando a mão esquerda e a direita. Um vídeo e um dispositivo de posicionamento dos dedos mediram o “fluxo excessivo de movimentos em espelho”, definido como movimentos não intencionais e desnecessários ocorrentes nos mesmos músculos do outro lado do corpo durante a atividade de bater os dedos.

A atividade foi realizada pelas meninas e meninos de cada grupo, mas os meninos com TDAH apresentaram quase quatro vezes mais “movimentos excessivos em espelho” do que os garotos que não sofriam do transtorno. Notavelmente, as crianças com o maior número destes movimentos também tinham recebido relatórios mais severos de hiperatividade e impulsividade por parte dos pais.

“Diversos estudos mostram que crianças com TDAH têm problemas de controle motor que correspondem ao comportamento das mesmas. Estes movimentos de fluxo excessivo não são voluntários ou conscientes, mas refletem um problema relacionado à inibição. A compreensão do embasamento psicológico do controle motor nos oferece pistas importantes sobre o TDAH”, disse Mostofsky.

No segundo estudo, foi utilizada a estimulação magnética transcraniana (EMT) para aplicar pulsações magnéticas brandas na região cerebral de controle motor responsável pela atividade muscular das mãos das crianças. Os pesquisadores mediram os espasmos musculares e monitoraram a atividade cerebral resultante, chamada de estimulação cortical em intervalos curtos.

Além de apresentarem mais dificuldade de inibir o movimento muscular, as crianças com TDAH também apresentaram menor inibição correlacionada a sintomas mais graves. As descobertas sugerem que a redução da estimulação cortical em intervalos curtos pode ser um componente fundamental do TDAH, disseram os pesquisadores.

Os dois estudos, financiados pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, foram publicados na edição de fevereiro do periódico “Neurology”.

Relevância em questão

“Pais demonstram frustração ao se perguntarem por que ninguém pode lhes dizer a razão pela qual seus filhos agem dessa maneira”, disse o médico Donald Gilbert, diretor da Biblioteca TMS do Centro Médico do Hospital Infantil de Cincinnati. “Isso me permitiu avançar do padrão atual para uma medida real confiável e respeitável do cérebro”, disse ele.

Mas alguns especialistas em TDAH questionam a usabilidade das descobertas destes estudos. Andrew Adesman, chefe de pediatria comportamental e de desenvolvimento do Hospital Infantil Schneider de New Hyde Park, em Nova York, disse que a pesquisa não é de “relevância imediata e direta para médicos ou pacientes”.

“A partir de uma perspectiva clínica, os movimentos de fluxo excessivo são irrelevantes para o diagnóstico do TDAH. Os autores do estudo podem ter exagerado no que identificaram como possíveis implicações científicas. Estes estudos não têm profundidade. Eles não apresentam um salto quântico em termos científicos”, disse ele.

Mas segundo Craig Surman, psiquiatra especializado em tratamentos de TDAH do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, o mapeamento das diferenças cerebrais ocorridas com o TDAH pode ajudar a compreender melhor o problema e ajudar quem é afetado. “Manter-se sob controle não é muito uma decisão deles. Eles dependem dos caprichos de um tipo de sistema relaxado. Isso é uma metáfora que ilustra como as pessoas com TDAH conduzem suas vidas”, disse Surman.

Gilbert, autor do estudo, admitiu que a pesquisa não tem aplicação clínica imediata. “É um desafio, pois dessa forma é difícil conseguir verbas para estudos já em andamento”, disse ele.

(Tradução: Claudia Batista Arantes)

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