Entre os dois e cinco anos, crianças passam por fase crítica e esperneiam. Mas existem técnicas capazes de tornar a tarefa mais fácil

Uma solução é conversar com os filhos e explicar a situação, sem nervosismo
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Uma solução é conversar com os filhos e explicar a situação, sem nervosismo
Na hora do desespero qualquer solução parece válida, de misturar o remédio à comida até fazer chantagem. No entanto, nem sempre os pais fazem a melhor escolha quando as crianças não querem tomar um medicamento prescrito. Deixar o nervosismo e a ansiedade à mostra, por exemplo, não é a melhor saída.

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A advogada Adriana Scarpelli, de 35 anos, soube isso logo de cara: desde a primeira vez em que o filho João precisou tomar um remédio, ela percebeu a influência da reação dos pais na resistência infantil. “Comecei a deixar o estresse inicial de lado e passei a apresentar o remédio para ele com uma atitude mais positiva”, conta. Mas nem sempre esse tipo de atitude basta.
Hoje João está com dois anos de idade e Adriana acredita que sua tática mais efetiva foi conversar. Mas até aí, ela percorreu um longo caminho, usando técnicas bastante efetivas. Como dar suco para João usando uma seringa, para que ele associasse o objeto a algo gostoso e natural e não o rejeitasse quando estivesse cheio com o remédio.

Para o pediatra Cláudio Schvartsman, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo a fase crítica fica entre os dois e cinco anos, aproximadamente. “É a fase em que ela ainda não consegue entender bem o que está acontecendo, mas já tem energia suficiente para evitar e atrapalhar os pais”, afirma. Depois disso a tendência é ficar mais fácil, pois a criança passa a entender melhor a razão dos medicamentos.

Nem sempre é bom, mas é necessário

A pediatra Lenira Maria Esmanhotto Facin, do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, reconhece a dificuldade de a criança aceitar um remédio. Mas, para ela, o primeiro passo é sempre mostrar o quanto aquilo é necessário. “Os pais devem passar aos filhos o conceito de que nem tudo na vida é agradável, mas muitas vezes é preciso”. Mentir e demonstrar que o medicamento é gostoso, caso ele não o seja, nem pensar.

Cláudio sugere aos pais experimentar o remédio, caso seja líquido, antes de dá-lo à criança. “Para saber como é o desafio: se é bom, ruim, péssimo, médio. Se for péssimo, os pais podem misturar com groselha para disfarçar o sabor”, diz. Embora diga que o ideal é não misturar o remédio com nada, o pediatra não vê problema em fazer uma concessão. Mas misturas com leite ou outros alimentos não são indicadas.
Lenira concorda. A criança pode não gostar de determinado alimento se ele for sempre misturado ao remédio, sem saber que aquele sabor, na verdade, é do medicamento.

Além disso, ela indica o uso da seringa, principalmente quando a criança ainda é bem pequenininha – foi o caso de Adriana com João. Outra tática é segurar a colherinha com o remédio líquido no céu da boca da criança, até que ela o engula. “Não é possível cuspir o medicamento dessa maneira”.

Comprimidos esmiuçados

No caso da receita prescrever remédios em comprimidos, caso bem raro para medicamentos pediátricos, a pediatra Alessandra Cavalcante, do Hospital São Luiz, sugere diluí-los em algum líquido.

Mesmo quando os comprimidos não têm gosto desagradável pode ser difícil fazer uma criança aceitá-los. Quando João, filho de Adriana, passou por um tratamento homeopático, ela teve de ser criativa mais uma vez. “Os glóbulos demoram a derreter e ele cuspia tudo antes de tomá-los. Até que resolvi esmagá-los e dar o remédio em mini-pedacinhos”, diz.

Chantagear os filhos na hora de tomar remédio nem sempre é a melhor saída
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Chantagear os filhos na hora de tomar remédio nem sempre é a melhor saída
O que não fazer

Outra atitude comum dos pais é tentar barganhar com o filho: “podemos ver aquele filme que você gosta se tomar este remedinho”. Porém, há controvérsias sobre as consequências deste tipo de atitude, embora ele seja frequente.

A pediatra Alessandra não vê problemas. “Quando a criança está doente, é válido sim tentar uma troca”. Mas só quando há data para deixar de usar o remédio, eliminando os casos de tratamento de doenças crônicas. A médica Lenira prefere evitar. “Assim como os alimentos, os remédios são necessidades da vida e a criança deve saber disso”, diz.

Dar o remédio na base da ameaça, nem pensar. Nessas horas, a naturalidade é uma grande aliada. “É preciso enfrentar a situação de maneira tranquila, pois a atitude é o verdadeiro espelho da criança”, diz Lenira. E não custa nada ter um copo de água ou suco por perto na hora do remédio, para poder tirar o gosto ruim da boca depois.

Desafios à parte, procurar o pediatra caso algo saia do comum – como o aparecimento de uma reação adversa ou inesperada – é necessário.

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