Avós podem quebrar algumas regras que valem na casa dos pais, mas não devem desautorizá-los ou driblar proibições explícitas

Carmem Malzone auxilia na educação dos netos Victor e Renata. Ela e a filha são afinadas quanto às regras de disciplina da casa
Guilherme Lara Campos/Fotoarena
Carmem Malzone auxilia na educação dos netos Victor e Renata. Ela e a filha são afinadas quanto às regras de disciplina da casa
Aquele estereótipo da avó velhinha, de cabelos brancos, óculos na ponta do nariz e fazendo crochê deu lugar a uma mulher dinâmica e ativa, que trabalha, pratica exercícios e ainda auxilia os filhos na tarefa de cuidar dos netos. Com maior perspectiva de vida, o perfil das avós realmente mudou, e muitas delas são solicitadas para ficar com os netos enquanto os pais trabalham, tendo uma relação ainda mais estreita com as crianças, interferindo diretamente na educação e no desenvolvimento delas.

Mas como as avós podem alinhar com os filhos a melhor maneira de agir em prol da educação dos netos? A psicoterapeuta Lidia Rosenberg Aratangy diz que é importante que, desde cedo, pais e avós cheguem a um acordo sobre as “leis” que farão parte da rotina das crianças. “Existem regras e leis. As regras podem ser mudadas de uma casa para outra, mas as leis devem ser respeitadas sempre”, afirma Lidia, co-autora do “Livro dos Avós – Na Casa dos Pais é Sempre Domingo?”, escrito com o pediatra Leonardo Posternak (Primavera Editorial).

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Sendo assim, a avó pode encontrar o próprio meio de agir quando estiver com o neto em casa, mas desde que as “leis” combinadas previamente sejam cumpridas. Por exemplo: se na casa da avó é permitido dormir um pouco mais tarde que o convencional, não há problema, desde que o neto acorde no horário certo para ir para a escola. Isso se traduz para a criança da seguinte forma: “a hora de dormir é regra, mas não perder a aula é lei”. Desta maneira, a psicoterapeuta explica que o alinhamento entre pais e avós deve existir, mas não precisa ser rigorosamente igual. “O ponto de partida e chegada devem ser os mesmos, mas o caminho pode ser diferente. Isso é importante até mesmo para ensinar a criança a ter flexibilidade na vida e a respeitar as diferenças”, diz Lidia.

O problema geralmente acontece quando não há esse alinhamento. Em anos de consultório, a psicoterapeuta de crianças e adolescentes Ana Olmos (SP) observou que uma das situações mais frequentes é a constante desqualificação dos pais da criança por parte dos avós. “É comum ouvir uma avó dizendo que o neto só consegue parar de chorar no colo dela. Isso inocula na mãe uma sensação de incompetência, de fracasso mesmo”, afirma Ana.

Em outros casos, avós que trabalharam muito no passado e não conseguiram cuidar dos filhos como queriam, hoje, com mais horário livre, intencionam recuperar o tempo perdido assumindo o papel de mãe. Em ambas as situações, a terapeuta aconselha que os pais tenham uma conversa firme e amorosa com os avós para resolver a questão o quanto antes. “É preciso deixar claro que ela é a avó, mas que desqualificar e desautorizar os pais na frente das crianças não pode acontecer de jeito nenhum. É dizer um não mesmo, simples assim, sem medo de magoar”, comenta Ana Olmos.

Pais educam e avós estragam?
Para o pediatra Fábio Ancona Lopez, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e autor do livro “Avós e Netos - Uma Forma Especial de Amar – Manual de Convivência” (Editora Manole), o ditado que diz que os pais educam e os avós estragam os netos ficou no passado. No entanto, ele lembra que, apesar da colaboração na educação das crianças, elas ainda são avós – e às vezes cumprem o “papel” de mimar. “Mas mimar não é estragar e, sim, ter mais disponibilidade para agradar e mais tempo para curtir os bons momentos com os netos”, ressalta.

Ancona diz também que a ajuda dos avós vai além da parte educacional. A experiência dos mais velhos é bastante importante para auxiliar e tranquilizar os pais nos primeiros cuidados com o bebê. O problema, segundo ele, é que algumas avós ainda apresentam resistência para acompanhar algumas posturas que hoje são diferentes. “Houve muita mudança na conduta pediátrica, por exemplo. Muitas avós têm dificuldade de aceitar que os bebês devem ter aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida”, explica.

Para minimizar o desconforto, ele afirma que as avós devem se informar sobre os procedimentos mais atuais e até mesmo acompanhar a mãe às consultas do bebê ao pediatra. Assim, ela poderá ouvir do médico as recomendações sobre preparo de alimentos e outros cuidados que hoje são diferentes do jeito que ela fazia antigamente.

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Como avô, o pediatra diz, ainda, que cuidar dos netos é uma via de mão dupla. Além de ajudar os pais nos cuidados com as crianças, os pequenos podem contribuir para colocar mais vivacidade na rotina dos idosos. “Ao ficar com os netos, os avós têm de sair da postura de velho, têm de ir ao parque, brincar, aprender a colocar um DVD, assistir a desenhos. Sem dúvida, esta é uma contribuição fantástica para a saúde física e mental destes avós”, diz.

Mãe e filha, ambas chamadas Carmem, são parceiras na educação das crianças
Guilherme Lara Campos/Fotoarena
Mãe e filha, ambas chamadas Carmem, são parceiras na educação das crianças
Avó pra toda obra
Aos 62 anos, Carmen Carbone é aquela avó que está presente praticamente 24 horas por dia ao lado dos netos Victor, de 9 anos, e Renata, de 4. É ela quem ajuda na lição, vai às reuniões da escola, busca e leva ao colégio, dá bronca quando a criançada apronta, leva ao pediatra e controla a alimentação dos pequenos. “É meu braço direito”, diz a filha Carmen Malzone Carbone, de 38 anos.

Separada e com uma rotina de trabalho bastante intensa, a fonoaudióloga Carmen conta com a mãe para ajudá-la nos cuidados e na educação dos filhos desde que eles eram bebês, já que, como profissional autônoma, não teve direito à licença-maternidade e precisou retornar ao trabalho 40 dias após o parto.

Muito amigas – e até com o mesmo nome –, dona Carmen e a filha estão superafinadas quanto às regras de disciplina. Durante a semana, a avó até assume um pouco o papel de mãe, sendo rígida quando precisa. “Como avó, curto muito ficar com meus netos. E como ‘meia-mãe’, curto ajudar a educar, principalmente por ser muito rigorosa com modos e educação. Tento mostrar que aquilo que parece ser uma pegação no pé é, na realidade, um preparo para a vida adulta e profissional”, diz dona Carmen.

Os momentos de dona Carmen ser exclusivamente avó acontecem somente aos finais de semana, quando ela adora ir para a cozinha preparar guloseimas para agradar os netos. “Às vezes acho que minha mãe sai perdendo, pois não é aquela avó que mima, a avó só do passeio. Sem contar que ela cozinha muito bem, e as crianças preferem a comida dela do que a minha”, conta Carmen Malzone.

Linha dura
Com a vovó Lúcia Rizzo Ruivo, a pequena Luisa, de 6 anos, sabe que não tem moleza. Sob os cuidados dela desde os quatro meses, quando a mãe, a fonoaudióloga Juliana Ruivo, precisou retomar a rotina de trabalho, sabe respeitar direitinho as regras da casa da avó. “Minha mãe acaba sendo uma extensão minha: é rígida quando necessário e boazinha quando a Luisa merece”, conta Juliana.

Apesar da grande ajuda da avó, Juliana acredita que a responsabilidade pela educação dos filhos é mesmo dos pais, mas que os avós podem contribuir positivamente quando estão alinhados na maneira de agir com as crianças. “Só acho ruim quando os avós permitem algo que os pais já proibiram. Uma vez, tive dificuldade com minha sogra, quando fui tirar a mamadeira da Luisa, pois ela dava escondido na casa dela. Sentamos, conversamos e tudo se resolveu”, afirma Juliana.

Superprotetora
Enquanto trabalha, a auxiliar administrativa Aline Lúcia Bento, de 24 anos, deixa o pequeno Bernardo Henrique Silva, de 3 anos, sob os cuidados da mãe, a dona de casa Vilma Bento, que é louca pelo neto.

Por morarem todos na mesma casa, Aline diz que a mãe acaba interferindo mais do que deveria na educação do filho. Ela conta que o menino costuma fazer muita birra e, quando quer impor disciplina ao garoto, sua mãe sempre é contra e prefere atender aos desejos de Bernardo. “Ela sempre acaba fazendo a vontade dele. Se dou uma bronca e o deixo de castigo, no cantinho da disciplina, ela sempre fica do lado dele”, reclama Aline.

Dona Vilma, no entanto, não se considera uma avó superprotetora e diz que age em prol do neto. “Posso contribuir com a minha experiência, pois tenho três filhas e já passei por diversas situações”, conta Vilma.

Para tentar resolver o conflito, Aline diz que já conversou bastante com a mãe e pediu que dona Vilma parasse de interferir quando ela estiver corrigindo Bernardo. “Sinto como se ela tirasse a minha autoridade. Mas acho que, com a conversa, ela entendeu”. No entanto, apesar dos desacordos em relação à educação do filho, Aline também reconhece que ele é muito bem cuidado e que a convivência com a avó tem muitos pontos positivos. “Ela passa muita coisa boa, como carinho e amor pelo próximo”, diz.

Dicas para as avós:
- Procure se informar sobre as mudanças da nova geração. Nem sempre o que “deu certo” naquela época é o mais indicado agora.
- Procure participar da vida do neto, mas só opine se a filha ou filho pedir o seu conselho.
- Jamais desautorize o seu filho ou filha na frente do neto.
- Cuidado também com a alimentação das crianças. Lembre-se que entupir a criança de comida não vai fazê-la mais saudável.
- Cuidado ao oferecer doces e guloseimas para agradar os netos. Procure oferecer alimentos saudáveis e incentivar a prática de exercícios.

Dicas para as mães:
- Procure envolver a avó desde cedo com a rotina do bebê e, se possível, leve-a ao pediatra para ouvir as indicações médicas.
- Peça conselhos e utilize a experiência dela a favor do bem-estar do seu filho.
- Antes de deixar o filho com a avó, conversem sobre a linha de educação, disciplina, alimentação e cuidados que gostariam de adotar.
- Avó não é babá de luxo. Não a trate impondo uma lista de regras e deveres a cumprir.
- Na casa da avó, as regras dela são as que valem e devem ser seguidas.
- Lembre-se que o modo como se trata os pais serve também de modelo para o seu filho.

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