Para pesquisadora do desenvolvimento infantil, eles são mais capazes – e ganham traquejo social bem mais cedo – do que pensamos

Bebês podem fazer cálculos simples e têm mais noções de moral do que imaginamos
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Bebês podem fazer cálculos simples e têm mais noções de moral do que imaginamos
A pesquisadora Karen Wynn, formada em Psicologia e doutorada em Ciência Cognitiva, dedica-se a decifrar a mente dos bebês desde 1990. Na difícil tarefa de descobrir não só o que, mas também como os pequenos pensam, ela conta com a colaboração do marido, o professor de Psicologia Paul Bloom, com quem tem dois filhos - Max, de 14 anos, e Zachary, de 11.

Karen dirige o Infant Cognition Center, na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, e estuda crianças de 3 a 24 meses com o objetivo de esclarecer como elas desenvolvem o raciocínio. Em pesquisas recentes, bebês com idade média de 6 meses foram submetidos a testes que procuram avaliar seu senso moral.

O experimento é simples: o bebê assiste a um teatro de fantoches ou a uma animação (veja vídeo abaixo) . Uma delas mostra um personagem tentando subir um morro. Um segundo personagem aparece para ajudá-lo. Um terceiro, para atrapalhá-lo. Ao final, são oferecidos ao bebê os três fantoches. Mais de 80% deles escolhem o personagem que ajuda o outro - alguns chegam mesmo a bater no personagem "malvado".

Se imaginávamos que as crianças se integram aos complexos ritos sociais humanos bem mais tarde, o número abala - se não derruba por completo - esta velha ideia. Bebês não nascem como uma "folha em branco", nem como um ser que vai "aprender" bem mais tarde a agir dentro de convenções sociais. Conversamos com Karen sobre suas pesquisas e o significado delas.

iG: Há quanto tempo você pesquisa a moral dos bebês?
Karen Wynn: Pesquisamos o desenvolvimento infantil desde 1990, a princípio na Universidade do Arizona. Viemos para Yale em 1999. Os estudos sobre os julgamentos morais e sociais dos bebês começaram há oito anos.

iG: Mais de 80% dos bebês escolhem o personagem "bonzinho", aquele que ajuda o outro. O que esta escolha significa?
Karen Wynn: Acreditamos que isso significa que os bebês preferem aqueles que agem positivamente, em vez de pessoas que são indiferentes ou negativas.

iG: Na pesquisa sobre as noções morais dos bebês, qual a descoberta mais inesperada que vocês fizeram?
Karen Wynn: Descobrir que mesmo aos 3 meses de idade os bebês preferem os personagens mais "bonzinhos" foi surpreendente para mim. Isso sugere que nossa habilidade de compreender as implicações sociais de nossas ações - ou seja, que uma ação positiva ou negativa tem consequências para os os outros - é um aspecto essencial de nossa compreensão sobre o mundo social, e está lá desde muito cedo.

null iG: Em todos estes anos pesquisando sobre o desenvolvimento infantil, qual a descoberta mais significativa para você?
Karen Wynn: Em 1992, descobri que bebês de 5 meses podiam calcular os resultados de adições e subtrações simples de objetos. Essa foi uma mudança substancial da ideia que tínhamos então e ajudou radicalmente a mudar a visão geral sobre a complexidade e riqueza do pensamento lógico infantil. Acredito que nossas descobertas recentes, que mostram essa capacidade de julgamentos sociais dos bebês, são igualmente significativas ao destacar a riqueza emocional e a complexidade da mente infantil.

iG: Seus filhos inspiraram, de alguma forma, as suas pesquisas?
Karen Wynn: Ao observá-los quando eram pequenos, as reações e expressões deles me sugeriam que havia nos bebês uma psicologia interior mais complexa e mais cheia de nuances do que se acreditava à época. Então, de forma geral, eles acabaram influenciando as direções do nosso trabalho, sim.

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