Pais devem procurar academia alinhada à filosofia desejada para desenvolver habilidades dos filhos, sem violência

Matheus, 9 anos, pratica muay thai
Geraldo Bubniak/Fotoarena
Matheus, 9 anos, pratica muay thai
A popularização das modalidades marciais pela mídia – “Karatê Kid”, sucesso nos anos 80, ganhou refilmagem de boa bilheteria ano passado, estrelada por Jackie Chan e Jaden Smith – atinge em cheio uma garotada ávida por testar tanto a medida como os limites de sua força. A maioria prefere modalidades clássicas, como o karatê ou o judô. Mas Matheus, de 9 anos, escolheu uma luta mundialmente famosa por seu caráter aparentemente violento e agressivo: o muay thai, ou boxe tailandês.

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Para o menino, a prática está distante da conotação “sangrenta” muitas vezes atribuída à luta, cujo combate ocorre em um ringue similar ao do boxe tradicional. Aplicado e ciente de que nenhuma forma de arte marcial tem como propósito a violência, Matheus frequenta aulas três vezes por semana na Universidade da Luta, uma academia de MMA (Mixed Martial Arts, a mistura de artes marciais mais conhecida como vale-tudo) em Curitiba, um dos pólos da modalidade no Brasil.

“A maior motivação do meu filho foi ver os atletas de alto nível em combate. Eu o incentivei desde o primeiro momento”, conta a mãe Andreia Cristine Oro. “Além da estrutura saudável da academia, preocupei-me também com o plano de socorro disponível em casos de lesões. Não por considerar o muay thai mais violento, mas porque acidentes podem ocorrer em treinamentos de qualquer esporte”.

Para os professores da academia, as crianças não só compreendem e absorvem os ensinamentos, como respondem mais rapidamente aos treinamentos do que os adultos. “A criança fica mais disciplinada e focada na prática dos exercícios. Assim vai gastando energia e diminuindo a agressividade. O efeito é contrário.”, explica o professor Giulliano Emillio Del Vigna.

Juliana Maia Garcia, mãe de Pablo, percebe a mesma coisa no filho. O menino tem 7 anos e pratica capoeira. “A prática da capoeira proporciona um conhecimento muito abrangente: desenvolve ritmo, concentração, as crianças aprendem a respeitar uma hierarquia e entendem que aquele grupo funciona como uma família”, explica.

Para a psicóloga Vera Sugai, a educação motora de uma criança é fundamental na educação do ser humano. “Educação é motricidade. Os pequenos compreendem tudo primeiramente pelo gesto, pela imitação, pelo movimento do corpo. Uma criança não pode viver sentada o tempo inteiro. Ela precisa vivenciar experiências corporais tanto quanto vivencia experiências intelectuais. Corpo e mente se educam juntos”, explica.

Crianças lutadoras ou crianças guerreiras?

Seu filho é uma criança lutadora ou uma criança guerreira? Este é o questionamento essencial proposto pelo professor Walter Correa, do Departamento de Pedagogia do Movimento da Escola de Esportes e Educação Física da USP, quando o assunto é a prática de artes marciais pelas crianças. Entender os dois perfis é o ponto de partida para que a consciência na hora de decidir por essa ou por aquela luta, em qual academia ou escola matricular a criança e qual o profissional mais gabaritado.

“Uma criança lutadora é impulsionada pelo medo e insegurança dos pais, que projetam na luta a possibilidade da criança ser mais corajosa, valente, superando falhas que na verdade não correspondem à realidade do filho. Uma criança guerreira tem consciência e responsabilidade para crescer. É capaz de entender a arte como um ritual de passagem, que exige esforço e compromisso”, explica Walter.

Boxe chinês, capoeira, judô, kendô, aikidô, karatê, jiu-jitsu, muay thai, judô, kung fu, taikendô: independentemente do estilo, as artes marciais convergem ao pregar que toda luta é um caminho para o crescimento. Seguir este caminho pode ser uma maneira de transformar pequenos lutadores em grandes guerreiros.

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