Antes de pular um ano letivo, a criança deve ser avaliada com cuidado para não enfrentar descompasso entre o intelectual e o emocional

Pular um ano é bastante comum na pré-escola, mas adiantamento deve ser definido pela maturidade da criança
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Pular um ano é bastante comum na pré-escola, mas adiantamento deve ser definido pela maturidade da criança
As escolas brasileiras passaram por mudanças desde que a lei 11.274 foi aprovada em 2006. A nova lei ampliou o Ensino Fundamental para nove anos e deu até o final de 2011 para as escolas se adaptarem. O último passo já foi dado: a partir do ano que vem, só vão ingressar no primeiro ano do Fundamental os alunos com seis anos completos até 31 de março de 2012. A medida gerou uma corrida de pais dispostos a ir à Justiça para garantir que seus filhos entrem no Ensino Fundamental antes do estabelecido. Mas é bom para a criança estar adiantada?

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Pular um dos anos da Educação Infantil não é incomum. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a filha da professora universitária Michele Cunha Franco, de 43 anos. Quando Sofia cursava o que antes era conhecido como Jardim, nível anterior ao Pré, os professores perceberam que ela terminava as atividades muito antes das outras crianças. Receosos de que ela perdesse o interesse pela escola, já que não passava por desafios, sugeriram à mãe adiantar a filha. “A Sofia era mais madura: entre três e quatro anos ela não queria brincar de boneca e vivia me pedindo para ensiná-la a ler”, conta a mãe, que atendeu ao pedido.

Com brincadeiras improvisadas, Michele acabou iniciando a alfabetização da filha, que aos cinco anos já sabia ler e escrever. Na escola, avaliaram que Sofia não poderia ficar em uma sala de sua própria faixa etária, já que acabaria achando a escola um tédio.

O mesmo estava prestes a acontecer com a filha da secretária Vania Rayhel, 52 anos, se ela não pulasse um ano da Educação Infantil. “A Jéssica não queria brincar, ela queria aprender a ler e escrever”, diz. A escola acabou mudando-a de ano e a menina chegou ao Pré antes do esperado. “Nós não queríamos forçá-la a nada, mas tudo acabou dando certo e ela acompanhou sem problemas”, declara Vania.

Ambas as mães comentam que o adiantamento na escola não prejudicou em nada o desempenho das filhas. Mas Michele assinala que se a filha tivesse pulado um ano por conta da ansiedade da mãe, o estímulo talvez não funcionasse. “O plano foi bem-sucedido porque não foi forçado: a iniciativa era dela”, diz.

A psicopedagoga Nívea Maria de Carvalho Fabrício, diretora pedagógica do Colégio Graphein, em São Paulo, concorda: antecipar o ingresso de uma criança no Ensino Fundamental apenas para atender às expectativas dos pais é prejudicial. “De forma geral, alfabetizar crianças aos cinco anos pode ser uma loucura”, completa.

Michele alfabetizou a filha Sofia em casa: aptidão intelectual precoce
Arquivo pessoal
Michele alfabetizou a filha Sofia em casa: aptidão intelectual precoce
Maturidade da criança vs. expectativas dos pais


Com 35 anos de experiência em direção escolar, Nívea comenta já ter visto de todo tipo de criança, inclusive as que chegaram mais cedo ao Ensino Fundamental. Para algumas, tudo deu certo até a chegada à universidade. Para outras, nem tanto. Saber se uma criança está pronta para ser adiantada ou não exige uma avaliação muito individual e completa. Se não for realmente madura, a criança pode se desorganizar com as novidades e se desinteressar, passando a se achar incapaz.

De acordo com a professora Neide de Aquino Noffs, psicopedagoga e diretora da faculdade de Educação da PUC-SP, outra questão deve ser levantada neste momento: a criança não vai acabar perdendo a infância mais cedo?

Para Neide, a criança de cinco anos precisa ter a infância preservada e não há a menor necessidade fazê-la começar no Fundamental tão cedo. “No passado, quando a criança era adiantada, acontecia de uma maneira mais natural e não se corriam tantos riscos”.

Ao pular um ano letivo, a criança enfrenta um descompasso entre o intelectual e o emocional, o que pode atrapalhar o desenvolvimento escolar. Uma forma de contornar o dilema seria apostar em atividades extracurriculares, capazes de saciar a curiosidade e a aptidão intelectual precoce. “Excepcionalmente, pode acontecer de uma criança estar além das outras. Mas, na maioria das vezes, a escola deve se adaptar a ela”, diz Neide.

Alfabetização e adaptação

O processo de alfabetização costuma começar entre os seis e sete anos e pode acontecer mais rapidamente para algumas crianças do que para outras, mas de acordo com a orientadora pedagógica e educacional do Colégio Equipe, Luciana Fevorini, o aprendizado mais rápido não deve ser motivo para os pais verem em seu filho um pequeno gênio.

O adiantamento depende de uma mistura de capacidades – de leitura, escrita e habilidades matemáticas – que devem ser analisadas a fundo. “As expectativas exageradas da família em relação à alfabetização não é legal. As escolas precisam saber fazer uma avaliação correta neste momento, até mesmo do desenvolvimento corporal da criança, das capacidades sociais e cognitivas”, diz. Para ela, o ideal é realmente respeitar a idade.

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