Atividades extracurriculares, como natação, inglês ou balé, podem ser forma de ensinar comprometimento às crianças – desde que a iniciativa seja delas

Bruno tem apenas quatro anos e meio, mas uma experiência extracurricular de fazer inveja a gente grande. Em menos de um ano já frequentou aulas de natação, teclado e judô. Nenhuma das atividades foi para frente, mas a mãe, a corretora Priscilla Bastos, pensa em matricular o menino em um curso de inglês no ano que vem. “Penso sempre no que pode ser importante para o desenvolvimento dele. Mas se o Bruno demonstra que não está gostando de ir às aulas, eu o tiro. Ele é muito novinho ainda, acho que um dia vai encontrar algo que gosta de verdade e não vai querer abandonar. Estou indo na base de tentativa e erro”, diz Priscilla.

Como Priscilla, muitas mães e pais estão enfrentando, com o encerramento do ano, dúvidas do tipo. Matriculo meu filho no inglês? Procuro uma escola de natação? Será que ela quer fazer balé? Saiba o que considerar antes de investir seu dinheiro e o tempo da criança.

Balé: será que sua filha quer mesmo ou está empolgada com os relatos das amiguinhas da escola?
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Balé: será que sua filha quer mesmo ou está empolgada com os relatos das amiguinhas da escola?
Competitividade

Com as disputas no mercado de trabalho, é natural que os pais queiram preparar seus filhos cada vez mais cedo para serem os mais inteligentes e habilidosos. Para isso, na visão dos pais, a escola sozinha não dá mais conta. É preciso desenvolver o físico com aulas de esporte ou dança, a inteligência com cursos de línguas e a capacidade motora e a sensibilidade através de atividades artísticas e musicais. O problema é o exagero, que antecipa a vida adulta. “Vejo atualmente crianças pequenas com tantas atividades que muitas vezes se igualam à agenda de um executivo”, alerta Sandra Kraft do Nascimento, psicopedagoga e membro da ABbri (Associação Brasileira de Brinquedotecas). “Sair de casa de manhã e só voltar à noite é vida de adulto que trabalha, e não de criança”, completa a especialista. Ter tempo pra fazer as tarefas pedidas pela escola, brincar, descansar ou simplesmente curtir a casa são benefícios que não devem ser negados aos pequenos.

Portanto, tome cuidado para não jogar em seu filho sua própria necessidade de competir. As atividades extracurriculares não servem para que ele seja melhor do que o coleguinha, por exemplo. “Tem que ter um caráter lúdico, sem cobranças. Atendi uma criança de 9 anos com úlcera, tamanha era a pressão que ela sofria para se sair bem nas diversas atividades que desempenhava”, conta a presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Quezia Bombonatto. Ela lembra que a atividade extracurricular tem que caber não só no bolso, mas também na logística familiar. “Requer uma disponibilidade que nem sempre os pais têm. E não é preciso se sentir culpado por não conseguir pagar um curso para seu filho. Estímulo semelhante pode ser dado dentro de casa”.

O que você quer é o que ele quer?

As crianças são estimuladas por modelos. Em uma família atlética, é provável que os filhos se interessem por esportes, por exemplo. Isso é diferente de matricular sua filha no balé porque era o seu sonho frustrado de infância. “Existem pais que desejam ver nos filhos qualidades a que não tiveram acesso ou sobre as quais um dia foram iludidos. É muito importante que os pais se preocupem em separar até que ponto aquela atividade é o desejo dele sobre o filho ou é o desejo do próprio filho”, analisa a psicopedagoga e orientadora Gabriela Lamarca Luxo Martins.

“É preciso conhecer seu filho e investigar do que ele gosta”, ensina Sandra. Depois de começada a atividade, acompanhe seu desempenho. Pergunte pra criança todos os dias como foi a aula, se ela está gostando ou encontrando dificuldades. Os professores são grandes aliados nesta hora. Tire um tempinho para ir buscar o pimpolho no curso e converse com o profissional. Ele, mais do que ninguém, vai saber dizer como está o desempenho e interesse durante as aulas.

Um, dois, três... testando

Se enquanto estão novinhos os pais são os heróis, quando os filhos vão crescendo, mudam o foco para os amiguinhos. Nesta hora, é comum que apareçam a cada dia com uma ideia diferente para fazer. Afinal, o a Júlia adora balé, a Mariana vive contando de quanto se diverte no karatê e a Paula sai da escola direto para a aula de flauta. “Uma dica importante é fazer uma aula experimental antes de efetuar a matrícula ou inscrição”, aconselha Gabriela. Este teste serve para que a criança que nunca teve contato com a atividade entenda melhor sua dinâmica ou até pra ver que aquele professor ou escola não lhe agrada.

Quando parar?

Os cursos extras são ótima forma de ensinar comprometimento às crianças, especialmente quando a inciativa de se matricular partiu delas. “Combine com ela o mínimo de tempo de 4 ou 6 meses. Antes disso, ela deverá continuar frequentando o curso”, diz Sandra. É bom que ela entenda que a diversão custa dinheiro e vem acompanhada de responsabilidades, como o cumprimento de horários e abrir mão de outras brincadeiras. “Por não terem a personalidade totalmente estruturada, as crianças precisam de rotina para se sentir mais seguras”, explica Gabriela.

Entretanto, como nós, adultos, os pequenos também têm o direito de não gostar e desistir de algo que começaram. Alguns dizem com todas as letras que não querem mais ir. Outros reclamam do professor, têm dores de cabeça na hora da aula, fazem de tudo para se atrasarem. Converse muito com seu filho até descobrir o motivo do desânimo. “É importante distinguir se a criança está reclamando porque não tem mais interesse ou porque não quer ter disciplina e ser obrigada a sair do conforto da frente da televisão”, diz Quezia. Aí reside toda a diferença.

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