Aprender um segundo idioma cedo é bom, mas existem cuidados que devem ser tomados

A ideia de que as crianças são “esponjinhas” prontas para aprender uma nova língua é o principal motivador de pais que decidem colocar os filhos a partir dos três anos para iniciar o contato com um novo idioma – especialmente quando esses pais se lembram das próprias dificuldades para aprender inglês na maturidade. Embora não existam estudos conclusivos sobre o assunto, a tendência das publicações atuais reforça a tese de que sim, do ponto de vista da capacidade de desenvolvimento, mais cedo é melhor. Mas isso não quer dizer que o assunto está encerrado: especialistas ouvidos pelo Delas foram unânimes em dizer que existe muito mais a se levar em conta na hora de decidir quando é hora de por as crianças para aprender uma nova língua.

Da qualidade da escola às características individuais de cada criança, tudo conta. “O que é um enriquecimento para um filho pode ser tortura para outro”, diz a psicopedagoga da PUC-PR Isabel Parolin. “Até existe uma idade ideal para o cérebro, mas é uma equação, não acho que é uma sentença. Tem que tratar com bom senso”.

Exemplo de atividade desenvolvida por alunos a partir de três anos durante o
Reprodução/ Escola Móbile
Exemplo de atividade desenvolvida por alunos a partir de três anos durante o "período estendido" da Escola Móbile, em São Paulo
A psicopedagoga acredita que é preciso que esse aprendizado tenha um significado para a criança. Caso contrário, a pressa pode acabar criando efeito contrário ao desejado, ou seja, fazer com que o aluno rejeite o novo idioma. Ela cita os exemplos de dois jovens pacientes que aprendem alemão: um só tem contato com a língua na escola e nenhuma outra referência fora dele. “Ele chora, não escuta o alemão em nenhum outro lugar, ninguém fala com ele. A escola se tornou um lugar estressante”. Já o segundo tem contato com a língua em casa, o que faz com que o aprofundamento do aprendizado fora dela aconteça de forma natural e prazerosa.

A criação dessa atmosfera de naturalidade foi um dos cuidados tomado por Liana Volpe, de Porto Alegre. Ela decidiu matricular o filho de três anos em uma escola bilíngue. Conversou com vários profissionais para tirar dúvidas sobre o impacto desse tipo de educação na alfabetização, e também antes de escolher a escola. Em casa, o menino já tem contato com a língua através de desenhos animados e brincadeiras com a mãe. “Ele sabe que em agosto inicia em uma nova escola, onde aprenderá a falar mais palavrinhas em inglês, e ele gosta dessa idéia, já que curte bastante de falar as poucas palavras nesse idioma que ele já conhece”, diz Liana.

Sem pressa

Mas quando o filho de Liana começar a estudar, ela terá que começar uma nova fase de avaliação – ver se a criança está adaptada, satisfeita e com uma carga adequada. A coordenadora de inglês da escola Móbile, em São Paulo, explica que os casos em que um período estendido como o oferecido pela escola é pesado demais para o aluno são raros, mas têm que ser identificados cedo. “Tem caso de criança que a gente pede para esperar um pouco. Não pode jamais atrapalhar o currículo regular. São casos raros, mas que a gente detecta e faz a indicação para os pais, não espera a criança sofrer”, explica.

Ter que esperar um pouco mais, no entanto, não deve ser motivo de angústia para os pais. Para o coordenador do curso de bilingüismo da PUC-Cogeae e diretor acadêmico da Escola de Educação Bilíngue Red Balloon Marcello Marcelino, a teoria indica que quanto mais novo o indivíduo, maior a possibilidade de desenvolver a língua com maior grau de proficiência. Mas é difícil dizer se isso significa que há um prejuízo real em se começar mais tarde.

“Com a globalização, o inglês deixa de ser a língua dos americanos e ingleses e passa a ser a língua da comunidade internacional. Sendo assim, a aproximação com a proficiência do nativo fica em segundo plano. Não existe o conceito de jovem demais para aproveitar. Pode-se apenas falar de maduro demais para aproveitar as possibilidades de alcançar domínio nativo na língua dois. No entanto, chegar ou não a esse nível não parece relevante para os dias de hoje”, diz. Em outras palavras, quem começar mais tarde pode diminuir suas chances de ser confundido com um nativo no interior da Inglaterra, mas não necessariamente arrisca sua capacidade de comunicação ou fluência nos padrões do mercado de trabalho. 

Equilibrar as expectativas dos pais e o tempo dos filhos não tem solução pronta. Mas tem alguns sinais. "Quando a criança começa a ouvir música, ver desenhos, ela vai se interessar e pedir. A hora certa é quando a criança pede e dá conta", diz Isabel Parolin. Se ainda for cedo, as dicas também virão das crianças: "a criança sempre apresenta sintomas, como não querer ir para a aula, dizer que não entende", explica. "Os pais acreditam que aquilo que eles imaginam para os filhos é bom para eles, mas o melhor, na verdade, é a soma do que eles esperam e de quem é aquela criança".

Como escolher a escola certa

Existem vários tipos de instituições que oferecem idiomas para crianças a partir dos três anos, desde escolas em que todo o conteúdo curricular é dado na língua estrangeira até institutos de idiomas tradicionais, passando por escolas que oferecem "período estendido", ou seja, algumas horas de vivência no período oposto ao das aulas que o aluno já frequenta na escola. Seja qual for a opção, existem algumas precauções na hora de escolher onde matricular seu filho. O coordenador do curso de bilingüismo da PUC-Cogeae Marcello Marcelino dá algumas recomendações:

- Saber se a escola tem um programa de treinamento de professores e que esses têm formação para exercer a profissão

- Checar se há acompanhamento individual dos professores após o treinamento inicial

- Assegurar-se de que as características individuais dos alunos são levadas em consideração

- Procurar sempre verificar o estatuto que a instituição tem no mercado, e conversar com outros pais que tenham seus filhos na mesma instituição

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