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Abigail do Rosário, 57 filhos: "ser mãe é amor"

Abigail do Rosário teve 3 filhos e adotou 54. Ela conta todas as dificuldades e as alegrias de sua vida um tanto quanto diferente

Larissa Drumond |

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Abigail do Rosário ao lado de seu ônibus, com o nome de seus 57 filhos, reformado pelo "Caldeirão do Huck"
Oitenta quilos de alimento foram doados, no mês de agosto, para a família de Abigail e Carlos do Rosário, pais de três filhos biológicos – Roberta, Caroline e Carlos – e de 54 adotivos. A quantidade, doada pela Rede de Ensino LFG, foi satisfatória, mas nunca é demais para uma família que consome 3 kg de arroz, 4 kg de carne e 120 pães por dia.

A história de luta, amor e dedicação a crianças abandonadas começou em 1986, quando Abigail visitou uma amiga que havia adotado uma menina negra, de seis anos. Em sua quinta experiência familiar, a garotinha estava prestes a voltar para o orfanato. “Eu fui tocada ao ver uma criança sendo desprezada e decidi adotar. Acredito que Deus me confiou esta missão”, lembra.

Em “A Festa é Sua”, especial de fim de ano do programa “Caldeirão do Huck”, apenas uma família, entre milhares, seria sorteada para ter a casa e o carro reformados nos já existentes quadros “Lar Doce Lar” e “Lata Velha”, além de ganhar uma viagem pelo “Aventura em Família”. Pois a família Rosário foi agraciada com o aumento da casa, em Joinville (SC), teve o ônibus completamente recauchutado e o casal ainda teve a oportunidade de conhecer as belezas naturais de Fernando de Noronha (PE). Mas, depois de todas essas alegrias, alguns amigos decidiram se afastar. “Meu marido é motorista de caminhão e eu sou dona de casa. Não ficamos muito ricos, o que mais precisamos neste momento é de produtos de higiene e de limpeza”, explica.

Mãe Abigail, como é chamada carinhosamente, tem 52 anos e 57 filhos – sem contar os que ainda estão por vir. Por telefone, ela concedeu uma entrevista exclusiva para o iG Delas; confira!

Como a senhora começou a adotar filhos?
Mãe Abigail – Eu passei por uma situação que mexeu muito com o meu coração, não tinha mais tranquilidade enquanto não tomasse uma decisão. Conversei com o meu esposo e ele disse que estaria ao meu lado qualquer que fosse a minha escolha, assim como os meus três filhos. E, dessa forma, começou toda essa história; mas, eu nunca fui atrás de criança nenhuma, foi Deus que sempre me colocou em circunstâncias das quais eu não tinha saída. Tive que entender que a minha tarefa era ter, como filhos, crianças que jamais seriam adotadas.

Por que a senhor a acredita que elas nunca seriam adotadas?
Mãe Abigail – Porque são crianças grandes, com problemas ou grupos de irmãos e, por isso, é muito mais difícil encontrar pessoas que estejam realmente dispostas a criá-los.

Qual foi o primeiro filho que a senhora adotou?
Mãe Abigail – Foi a Marina, em 1986. Ela estava em período de experiência com uma família. Certo dia, eu visitei essa casa e ela estava lá. A pessoa que havia adotado não a queria mais; não deu certo, foi uma adoção mal-sucedida.

Como surgiu a oportunidade de participar do “Caldeirão do Huck”?
Mãe Abigail – Foi por meio de uma carta que uma senhora, mulher de um desembargador de Santa Catarina, escreveu. Nós temos um ônibus, o nosso ‘carrinho’ de passeio, que estava muito feinho. Ela viu que ele precisava mesmo ser reformado e resolveu escrever uma carta. Isso aconteceu há muito tempo.

Essa carta ficou esquecida até que o Alberto Bial [irmão de Pedro Bial] veio para Joinville (SC) ser técnico de basquete. Ele fez amizade com essa senhora e com o marido dela, que acabaram comentando sobre a carta. Depois de algum tempo, ele estava no PROJAC, no Rio de Janeiro, conseguiu se lembrar e ligou para cá. “Eu estou no Rio, por que você não passa o fax dessa carta para eu entregar para a produção?” O Alberto conseguiu entregar, mas ele não sabia que o Luciano tinha acabado de lançar o especial “A Festa é Sua” naquele ano e que estava procurando uma família que se enquadrasse. E, aí, nossa família foi a premiada, porque encaixou em tudo o que ele queria. Foi realmente um milagre de Deus! Nós ganhamos não só a reforma do ônibus, como a construção de uma nova parte da casa e muito mais.

Como essa reforma beneficiou toda a sua família?
Mãe Abigail – Hoje, nós temos um espaço maior, mais funcional e com mais ventilação. Pelo fato de eu ter 42 filhos em casa, nós precisamos de espaço e algo que realmente facilite o nosso trabalho. A nova casa deixou nossa rotina diária muito mais fácil. Foi muito bom para todos nós!

A senhora morava nessa mesma casa há muito tempo?
Mãe Abigail – Não, a minha vida tem uma longa história. Eu morava em Campinas quando adotei a primeira filha, mas já vivi em São Paulo, em Curitiba, no Amazonas, depois voltei para Joinville com 13

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Além da reforma do ônibus e da casa, Abigail e Carlos ganharam uma viagem para Fernando de Noronha
filhos, onde morava em uma casa alugada, próximo da minha. Depois, nós compramos esse terreno no qual moramos agora. O Rotary Clube descobriu a nossa família e veio junto com a comunidade joinvillense construir a nossa casa, que o Luciano Huck reformou depois.

Mas as outras casas conseguiam comportar todo mundo?
Mãe Abigail – Com certeza nós ficávamos apertados. Alugar uma casa na proporção de filhos é muito difícil, né? A última casa onde eu morei tinha 120 m², então nós não tínhamos mais sala, nem copa, tudo era quarto. Nós comíamos na garagem, até que Deus nos presenteou com essa casa, que é uma bênção muito grande.

Os seus filhos biológicos ainda moram com você?
Mãe Abigail – O mais novo ainda mora comigo, mas as outras duas são casadas.

Como funciona a divisão de quartos para tanta gente?
Mãe Abigail – Nós colocamos quatro filhos em cada quarto e temos um quarto grande embaixo, onde dormem dez meninas.

Eles costumam brigar muito?
Mãe Abigail – É aquela briga normal de irmãos, aquela questão de pré-adolescente e de adolescente, mas nada que uma conversa frente a frente não resolva. Acho que se não tivesse, não seria normal.

Quantas pessoas a senhora tem para ajudá-la no dia-a-dia?
Mãe Abigail – Nós temos uma senhora remunerada, que faz o almoço, e outra que trabalha meio período para ajudar na lavagem de roupa. Os mais velhos já podem lavar sua própria roupa, então ela só cuida da dos menores e das roupas de cama. O resto somos nós que fazemos, as tarefas são divididas entre cada filho.

Como a senhora faz para administrar a saúde, a educação e o ensino de tantos filhos?
Mãe Abigail – Nós sempre ensinamos um filho a ajudar o outro: um grande olha um pequeno para poder facilitar o serviço. Isso foi até decisão deles, principalmente na hora de escovar os dentes e de dar banho nos menores, nos deficientes, enfim, toda essa parte de higienização, que precisa ser orientada e feita diariamente. Já viu criança, né? Você fala hoje, amanhã tem que falar tudo de novo [risos].

A senhora sabe qual é o gasto total por mês?
Mãe Abigail – Se eu fosse comprar toda a alimentação, eu gastaria uns seis mil reais, fora os cinco mil de despesas fixas. O meu marido é caminhoneiro, então com o que ele ganha, nós conseguimos pagar metade das nossas despesas fixas, mas o resto é doação.

Quem costuma doar roupas, alimentos e todos os produtos de necessidades básicas para vocês?
Mãe Abigail – São pessoas que nos conhecem, que viram alguma reportagem sobre a nossa família e se tornam nossos parceiros. É dessa forma que nós sobrevivemos até hoje: com o carinho de pessoas que realmente nos visitam e veem que é algo sério, que não é brincadeira, nem trapaça. Para não pensarem que somos apenas fachada para enganar os outros, eu até prefiro que venham nos visitar primeiro para depois nos ajudar. É assim que nós vamos vivendo um dia após o outro.

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Carro da Rede de Ensino LFG entrega doação de alimentos na casa da família Rosário
Mas, o que nós mais necessitamos é de produtos de limpeza, porque nós limpamos a casa duas vezes ao dia: de manhã e à tarde, pelo fato de ter muita gente circulando. Eu também tenho três deficientes que usam fralda, então nós precisamos lavar a roupa de cama deles com desinfetante. As pessoas sempre se lembram da alimentação, mas esquecem da higiene, que também é muito importante.

Já aconteceu de faltar suprimentos no fim do mês?
Mãe Abigail – Não, mas já aconteceu de ter para o dia e não ter para a noite. Eu sempre tive convicção de que à noite teria alguma coisa para os meus filhos e nunca ficamos sem.

Como as palestras da Rede de Ensino LFG conseguem ajudá-la?
Mãe Abigail – É um benefício enorme, porque sempre vem uma quantidade grande de produtos devido ao número de gente que comparece a esses eventos.

Certa vez, a senhora disse que, depois da reforma, algumas pessoas se afastaram. Por que isso aconteceu?
Mãe Abigail – Nós ouvíamos comentários de que não precisávamos mais de ajuda, porque já tínhamos ganhado tudo por meio do “Caldeirão do Huck”. Mas, eu ganhei a reforma da casa, do ônibus e aquela verba temporária, não daria para muitos anos. Como o meu gasto mensal é de seis mil reais, 36 mil dariam apenas para seis meses. Eu não fico preocupada, nem ansiosa por causa dessa ausência, eu fico triste. Antes de as pessoas tomarem uma decisão, elas deveriam, primeiro, saber a realidade e não fazerem suposições. Deveriam vir à nossa casa, conversar e ver o que estamos vivendo.

Todas as crianças vão à escola ou os professores costumam ir até a sua casa?
Mãe Abigail – Eles vão para a escola normalmente: vai uma turma de manhã e outra, à tarde. Eu tenho oito filhos que ganharam bolsa de estudos e o restante vai ao colégio público. Só um filho já está na faculdade.

iG Delas – É uma conquista ver seus filhos na faculdade, não?
Mãe Abigail – O objetivo do nosso empenho e da nossa luta diária é que eles tenham o seu lugar na sociedade e no mercado de trabalho. Nós queremos vê-los realizados na questão intelectual.

A senhora acredita que um dia vai parar de adotar?
Mãe Abigail – Uma coisa que eu sempre falo para as pessoas é que eu não adoto porque é algo do meu coração, mas porque Deus me deu essa tarefa; então, só Ele pode me dizer quando eu devo parar. Enquanto ele não determinar isso, eu não paro. Ainda não inventaram laqueadura para o coração [risos]. No momento em que mais um casar, eu posso colocar outro dentro de casa, porque agora não tem mais espaço. Quando um filho inicia sua própria vida, eu posso dar espaço para alguma criança que esteja precisando.

Na maioria das vezes, como essas crianças aparecem na sua vida?
Mãe Abigail – Por meio do fórum, de assistentes sociais, dos próprios juízes e dos promotores. Primeiro, eles procuram casais cadastrados que queiram adotar, mas não encontram nenhum perfil adequado. Como eles sabem que eu fico com esse tipo de criança, eu sou procurada.

Nem todos os seus filhos são irmãos biológicos, já aconteceu de eles se apaixonarem?
Mãe Abigail – Não, jamais! Desde o início, nós já ensinamos que eles são irmãos. Se fosse para isso, não estariam aqui.

Como são muitos, existe algum filho preferido, que esteja sempre com você?
Mãe Abigail – Não, todos são especiais para mim, não tenho preferência por nenhum.

E na hora de lembrar o aniversário de todos?
Mãe Abigail – Todo mundo ajuda a lembrar! De manhã, já canto parabéns [risos].

Como você se sente sendo mãe de 57 filhos?
Mãe Abigail – Eu me sinto privilegiada, é uma oportunidade única de poder fazer algo para essas crianças que jamais teriam uma mãe e um lar.

Seus filhos também pensam em adoção?
Mãe Abigail – Sim, eles têm no coração o mesmo desejo. Minha filha Joana, que também é adotiva e mora em Blumenau (SC), adotou uma criança bem complicadinha, que já até faleceu.

iG Delas – Para finalizar, o que é ser mãe para você?
Mãe Abigail – É amor, somente amor.

Veja também: Vida da mãe que adotou 46 filhos vira filme

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