Dormir fora é desafio não só para as crianças, mas também para as mães, e não tem idade certa para acontecer

João tem 5 anos e, aos 4, encarou sua primeira “noitada”. O evento acontece semestralmente na escola onde ele estuda e recebe os alunos a partir dessa idade para dormir fora de casa. “Ele já sabia da atividade porque via a movimentação entre seus amiguinhos mais velhos. Quando atingiu a idade necessária, perguntei se ele desejava participar. E ele quis”, conta a psicanalista e psicóloga Gabriela Rinaldi Meyer.

Dormir longe da família é uma oportunidade para a criança perceber seus recursos diante de situações de independência, reassegurar-se desses recursos, aprender a utilizá-los e, principalmente, expandir e desenvolver novas ferramentas para enfrentar o novo e ter mais autonomia. Porém, ela precisa desejar viver a experiência e cada caso é isolado, afinal as crianças são muito diferentes e reagem de formas distintas a situações idênticas, independentemente do estímulo e do suporte dos pais.

Dormir fora: as crianças precisam saber que contam com os pais caso algo dê errado
Getty Images
Dormir fora: as crianças precisam saber que contam com os pais caso algo dê errado
Segundo a psicóloga e terapeuta cognitiva Ana Maria Serra, fundadora do ITC (Instituto Terapia Cognitiva), a melhor forma de estimular o pequeno a abraçar o desafio é mantê-lo seguro. “As crianças aprendem com o que veem, mais do que com o que ouvem. Por isso, quando os pais se apresentam seguros, autônomos e autoconfiantes, a tarefa fica mais fácil. Enfatizar os aspectos positivos, como a diversão e a aventura da empreitada, e lembrá-la dos prejuízos caso ela opte por não ir, também são estimulantes”, aconselha. Porém, é preciso ficar bem claro que o seu filho sempre tem a possibilidade do escape caso a situação se revele acima dos recursos de enfrentamento que ele acredita ter.

“Incentivar o filho a dormir fora contribui no seu desenvolvimento, desde que seja realizado com parcimônia e cuidado. A criança precisa sentir-se protegida mesmo em outro ambiente”, ressalta Vanessa Morcrette, psicóloga e psicoterapeuta. Segundo ela, esse incentivo ajuda a dar continuidade no desenvolvimento emocional natural da criança, mas deve ser feito aos poucos, pois colocá-la de repente em uma situação desconfortável pode ser prejudicial.

Em outras palavras, a criança precisa saber que pode contar com os pais caso mude de ideia durante a noite e peça para voltar para casa. “Se o responsável telefonou, é porque foi impossível contornar a situação. Isso significa que a criança está no seu limite e é preciso respeitá-lo”, aponta Gabriela. Por isso, vale ir buscar o seu filhos se o choro é insistente. Isso não diminuirá a experiência nem anulará as próximas tentativas. Tudo é uma questão de diálogo.

Preparação

Não há uma idade certa para a primeira noite fora. No lugar disso, é importante avaliar os outros tipos de experiências – como ele se comporta em viagens ou com estranhos? Ele é mais introspectivo ou extrovertido? – e se os pais atribuem ou não risco a uma atividade como essa. Tudo isso passa por uma observação longa e por pequenos estímulos pontuais, como encorajar seu filho a fazer o pedido dele no restaurante, por exemplo, e a passar um dia inteiro na casa de um amigo ou parente. “Preparar um filho para dormir fora e para se perceber autônomo – em níveis adequados para a sua idade – é um processo a ser iniciado muito antes do primeiro convite”, explica Ana Maria.

Isso não significa que a negociação com a criança para passar a noite fora vá começar meses antes do evento. Falar sobre o assunto quando a data já está mais próxima minimiza os riscos da criança criar expectativas demais ou ficar ansiosa. Embora o seu filho João soubesse da “Noitada” promovida pela escola antes dela acontecer, Gabriela perguntou se ele gostaria de participar na própria semana na qual ela aconteceu. “Assim, todo mundo lida de forma mais natural e tranquila”, fala. Para a profissional e mãe, o processo não é importante apenas para os filhos: “Fiquei com saudades, vi o quartinho vazio e pensei que não fosse suportar”, lembra. “Mas esse enfrentamento é ótimo. É bom passar por uma situação que parece insuportável, para então se fortalecer”, finaliza, resumindo, justamente, o segredo do mesmo desafio para a criança.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.