O surfista Everaldo Pato e sua mulher, a cinegrafista Fabiana Nigol, criam a filha Isabelle Nalu, de 3 anos, viajando pelo mundo

Em 2001, o surfista Everaldo e Fabiana se conheceram em uma feira de surf em São Paulo. "Foi amor à primeira vista", ele relembra. Casaram-se no ano seguinte e, de 2003 a 2007, botaram o pé na estrada e registraram em imagens suas passagens pelo mundo. O material resultou em um filme chamado "Nalu" - onda, em havaiano.

A segunda produção do casal também ganhou esse nome: em abril de 2007, a primogênita de Pato e Fabiana nasceu no Havaí e ganhou o nome de Isabelle Nalu. Apaixonados pela vida que levam e certos de que uma família tem que permanecer unida, eles decidiram desde cedo que a filha os acompanharia nas viagens pelo mundo. Essa peculiar rotina a três - ou a falta dela - é tema da série televisiva "Nalu pelo Mundo", que está agora na segunda temporada e é exibida pelo canal por assinatura Multishow (às terças, 21h30), e filmada pela própria Fabiana.

Se por um lado Isabelle não sabe qual será a paisagem do lugar onde vai estar na semana que vem, por outro os pais dão a ela a rara oportunidade de conhecer, desde pequena, culturas das mais variadas - e aprender a mergulhar com as crianças da Papua Nova Guiné, por exemplo.

Conversamos com Pato e Fabiana para conhecer os altos e baixos de criar uma filha pelo mundo. Confira.

iG: Como decidiram cair na estrada com um bebê?
Pato:
Não tinha outra opção. Desde o início, já estávamos decididos que, quando tivessemos filhos, não iríamos mudar de vida. A Isabelle nasceu no Havaí; quando ela estava com 20 dias voltamos pro Brasil. Quando ela fez um mês e dez dias, dirigimos até o Chile - são mais de 4 mil km. Ficamos lá por 3 meses. Voltamos e nunca mais paramos de viajar.

iG: O que é mais difícil em viver com uma criança na estrada?
Pato:
O fato de não ter uma rotina. A criança gosta de rotina. Quando estamos aqui no Brasil, ela vai para uma escolinha. Ela adora, acorda perguntando da escola. Criança gosta de saber que daqui a pouco vai fazer certa coisa. Quando estamos viajando, ela não sabe o que vai acontecer. Nem a gente sabe!

Fabiana: Eu acho que o mais difícil é conciliar o meu trabalho com a educação dela. Se eu não trabalhasse, tudo seria muito mais fácil. Mas eu trabalho, filmando e fotografando tudo - e sempre com ela do meu lado.

iG: Muitos especialistas dizem mesmo que o mais importante na criação de uma criança é ter rotina. Como vocês lidam com isso?
Fabiana:
Quando fiquei grávida, comecei a ler vários livros sobre educação, sobre filhos. Fiquei superassustada: se eu nao tenho rotina, como vou dar uma rotina para a minha filha? Por outro lado, a gente não queria ficar longe um do outro. Como família, achamos importante estar juntos. E criamos uma fórmula para tentar manter alguns horários: a hora dela comer, a hora de dormir... Mas nem sempre é possível manter esses horários. Tento lidar com isso sem neuras. Hoje acho que ela fica muito melhor na estrada do que quando a gente fica em casa - e ela é uma criança feliz. Se um dia eu sentir que ela não está feliz, vou repensar essa escolha.

iG: Você acha que ela sente falta de alguma coisa?
Pato:
Agora, com 3 anos, acho que ela começa a perceber mais, começa a querer mais rotina. Mas tudo na vida tem um preço. Ela vai ter uma experiência, uma bagagem de vida que poucas outras crianças têm. Por outro lado, sabemos que ela nunca teve o prazer dessa rotina. De ir na escolinha, ter um monte de amiguinhos... É uma escolha.

iG E no que vocês acham que a vida dela é mais legal do que a vida de outras crianças?
Fabiana:
Eu gostaria de ter tido uma infância como a que ela tem. Nascer no Havai, por exemplo, foi o máximo - e foi uma coisa que não planejamos. Ela tem contato com várias culturas. Quem vive só em um lugar acredita que existe só um jeito de se fazer as coisas. Ela conhece vários jeitos de se fazer as coisas. E tem amiguinhos no mundo todo, o que a ajuda a se comunicar de várias maneiras. A Isabelle conhece gente de todo tipo - desde uma criancinha que não tem nem TV em casa e mora lá na Indonésia até o filho de um casal europeu que viaja o mundo de jatinho. Ela aprendeu a mergulhar com os amiguinhos que fez na Papua Nova Guiné, que ficaram cuidando dela enquanto eu filmava. Em Fiji, ela aprendeu a mergulhar de snorkel com a gente. Enfim, tem mil e uma formas de ver as coisas - e é isso que eu quero mostrar para ela.

iG: Do que você acha que ela nunca vai se esquecer quando crescer?
Pato:
Eu nao sei se ela vai se lembrar de tudo - mas temos tudo filmado. A vida dela inteira registrada em imagens. Eu acho que o mais importante é ter a vivência, não exatamente uma recordação momentânea, mas uma memória geral desse sentimento de uma vida nômade, que a gente ama tanto - sem casa, sem roteiro, sem destino. A gente gosta de viver mesmo - um dia aqui, outro dia lá. Acho que essa experiência vai acrescentar muito no futuro dela.

Fabiana: Às vezes ela me surpreende. Ela fala "lembra de tal coisa, lá na Austrália?". Ela se lembra muito de pessoas também. De alguns amiguinhos, dos padrinhos que moram no Havaí. Acho que o que fica é a amizade, o relacionamento com as pessoas.

iG: Vocês já pensaram em desistir desta vida em algum momento?
Fabiana:
Olha, já pensei. Tenho que filmar e tem dias em que ela não colabora. Ela tá com sono, quer atenção. Às vezes é cansativo. Se eu tivesse uma vida "normal", fico pensando que ela podia ir pra escolinha e eu poderia descansar um pouco. Mas passa rápido. Eu amo a vida que eu tenho.

iG: E você já pensou em pedir para elas ficarem em casa?
Pato:
Nunca. A gente ama o que faz. A Belinha também adora. Quando a gente chega em casa é legal, mas em duas semanas já temos saudades da estrada. E eu não consigo viver sem elas. Nosso negócio é viver juntos.

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