Especialista no assunto tira dúvidas sobre problema que atinge de 15 a 20% das crianças a partir dos cinco anos

Enurese: a partir dos 7 anos, a criança já percebe que há algo errado
Getty Images
Enurese: a partir dos 7 anos, a criança já percebe que há algo errado
Edwiges Ferreira Silvares, professora titular do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP, em São Paulo, atua desde 1992 no tratamento da enurese – ou seja, a eliminação involuntária da urina durante o sono. Com isso, criou o Projeto Enurese , em que busca atender crianças a partir dos cinco anos de idade até jovens para ajudá-los a controlar a condição que ainda levanta muitas dúvidas de pais e filhos. Abaixo, confira o que ela nos revelou.

iG Até que idade é normal fazer xixi na cama?
Edwiges Silvares:
A criança é considerada enurética a partir dos 5 anos de idade. Antes disso, as crianças que fazem xixi na cama não são chamadas assim, porque é normal que isso aconteça. Se isso ainda acontecer quando a criança estiver na faixa dos 7 anos, os pais já podem ficar preocupados. Mesmo porque a criança também não gosta, já que passa a entender melhor o que está acontecendo e que há algo errado.

iG Quais são as características de uma criança enurética?
Edwiges Silvares:
De acordo com um critério estatístico, ela deve fazer xixi na cama pelo menos duas vezes por semana, num período de, no mínimo, dois a três meses. Se ela faz uma vez hoje e outra vez em 15 dias, não é enurese.

iG Existem tipos distintos da doença? Quais são eles?
Edwiges Silvares:
Às vezes falam de “enurese noturna”, mas é uma redundância. Hoje, a enurese só o é quando a criança faz xixi à noite. Quando ela faz xixi nas calças durante o dia, ela tem incontinência urinária diurna. Se é enurese, ela pode ser primária ou secundária. A primária caracteriza a criança que nunca obteve o controle, nunca deixou de fazer xixi na cama. A secundária, que não atinge crianças com tanta frequência, acontece quando a criança para de fazer xixi na cama em determinada idade, ficam seis meses assim, e depois voltam. Mas é baixíssimo o número, estávamos tentando fazer um estudo mais aprofundado sobre a enurese secundária na USP e não foi possível, pela falta de crianças nesta condição.

iG Que problemas a enurese pode trazer à criança?
Edwiges Silvares:
O maior dos problemas que a criança com enurese enfrenta é o medo de saberem que ela faz xixi na cama. Em geral, por esta razão, ela acaba se isolando e se mostrando mais quieta, o que acontece com frequência. Elas começam a se sentir diferentes dos demais, mas com tratamento, ela recupera a autoestima e convive bem. Tanto que, quando o problema é curado, os pais estranham a mudança de comportamento – da introversão para a extroversão –, já que os problemas mais internos de comportamento desaparecem.

iG Quais são as principais causas?
Edwiges Silvares:
A criança enurética acaba produzindo mais urina do que as outras crianças no período noturno porque não produz um hormônio chamado antidiurético, que só é produzido nesta parte do dia. Mas não há exames laboratoriais que revelem essa condição. Você deduz a partir de algumas características com relação ao padrão de urina que ela apresenta. Para a criança ser considerada enurética, ela tem que fazer muito xixi na cama. Além disso, outra possibilidade que determina o problema é a baixa capacidade da bexiga de reter a urina como a de crianças sem o problema. Os músculos detrussores – que fazem com que você tenha a capacidade de controle, por permitir que você contraia a musculatura e não descarregue a bexiga – não funcionam corretamente nas crianças enuréticas. E por isso elas também deixam de ser capazes de despertar quando a bexiga está cheia, mas o tratamento para este problema irá trabalhar exatamente isto.

iG É mais frequente em meninos ou meninas? Por quê?
Edwiges Silvares:
A incidência é de, aproximadamente, dois meninos para uma menina, então eles estão mais aptos a terem o problema. Pelo fato de eles terem uma maturação mais lenta do que as meninas, eles demoram mais para a aquisição do controle em geral e isso acaba sendo um dos fatores da enurese. Mas há também uma base genética nisso: se os pais foram enuréticos quando crianças, a probabilidade do filho também passar por isso é de 75%. Se os pais não tiverem passado pelo problema, a probabilidade é bem menor.

iG Como tratar?
Edwiges Silvares:
Aqui no Brasil já existem aparelhos e até criamos um aqui na USP, juntamente à Escola Politécnica, que chamamos de “alarme de cabeceira”. Ele consiste num “tapete” com sensores de urina conectados a uma caixa de alarme. Então, ao dormir, a criança liga o aparelho, que é acionado por uma bateria, e quando ele sente a umidade da urina, faz com que ela desperte. No início ela acorda quando já está fazendo xixi na cama e pode terminar de fazê-lo no banheiro. Com isso, ela aprende a contrair os músculos e depois de algum tempo ela começa a se levantar antes disso para ir ao banheiro. Os estudos mostram que, a partir disto, ela começa a produzir mais hormônio e então deixa de fazer xixi na cama. Há também tratamentos com hormônios sintéticos, mas quando a criança deixa de tomá-lo, na maioria das vezes, o problema volta.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.