Raphael, de apenas 10 anos, tem um canal com 17 mil inscritos e o apoio do pai, já Michelle, de 9 anos, sonha em postar seus vídeos, mas a mãe proíbe

"Fala galerinha do YouTube...", com certeza, você já deve ter ouvido uma frase semelhante a essa saindo do celular ou computador do seu filho. A ideia de ser youtuber vem aumentando nos últimos anos, e quem aparece no vídeo faz o maior sucesso entre a criançada. Como fãs, é claro que os pequenos querem copiar os ídolos e criarem o próprio canal.

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Raphael Toledo é um exemplo de criança que tem o apoio do pai para ser youtuber
Reprodução/Youtube
Raphael Toledo é um exemplo de criança que tem o apoio do pai para ser youtuber


Mas será que isso é algo bom? Os pais realmente conseguem controlar o que os filhos estão vendo e fazendo na internet? Essas são questões importantes para se pensar antes de deixar os pequenos ligarem a câmera,  gravarem um vídeo e se tornarem um youtuber .

Bruno Fernandes, professor de programação da Happy Code, uma escola de tecnologia para crianças,  explica que o Youtube ganhou muita visibilidade entre os pequenos porque eles enxergam essa plataforma como um modo de conseguir aprender e ter contato com o que está em alta no universo deles. Os temas dos canais são variados e, como há liberdade de escolha pelo tema, é fácil das crianças e adolescentes encontrarem um youtuber que fala a língua deles.  

“As crianças costumam procurar muitos vídeos de como ganhar experiência em games, dicas de, por exemplo, como fazer maquiagem e de desafios e brincadeiras. Os youtubers acabam se tornando um ídolo, e as crianças querem imitar isso”, explica Bruno. A vontade de entrar para esse universo é tão grande que, agora, existem até cursos para ensinar a como fazer um canal de sucesso. “A política do Youtube é que só pode usar a plataforma a partir dos 13 anos, mas os cursos costumam aceitar crianças a partir dos oito anos”, acrescenta.

Muitas crianças por aí deixaram as aulas de inglês, dança e natação para tentar entender como é possível ganhar seguidores no mundo virtual. “No curso, eles aprendem sobre direitos autorais, deixando claro o que pode e o que não pode na internet, também aprendem a gravar o vídeo, editar e sonorizar. Fora isso, a customização do canal, como o nome, a capa e outros detalhes são abordados”, conta o professor de programação.

Com o apoio do pai

Apaixonado por basquete, Raphael Toledo, de 10 anos, acompanha fielmente os canais dos filhos dos jogadores Dwayne Wade e Lebron James por achar que ambos jogam com um alto desempenho. Foi assim que surgiu a ideia de criar um canal parecido com o deles, postando vídeos que mostram a rotina de treino e os jogos que participa. O garoto mora nos Estados Unidos, e o time no qual ele faz parte gosta da ideia de mostrar a rotina do pequeno jogador.  

O advogado Daniel Toledo, pai do garoto, também apoia e ajuda o filho a gerenciar o canal que soma cerca de 18 mil inscritos. Ele acredita que Raphael não está sendo exposto e que o menino não se deslumbra com isso. “O Rapha é muito desligado. Ele treina ao lado de grandes estrelas da NBA, como Whiteside e Haslen. Ele sabe o que é ser uma estrela e que ele próprio está longe de ser uma delas, por enquanto. Isso o mantém com os pés chão.”

Daniel acredita que o filho não está sendo exposto e que isso fortalece a relação entre pai e filho
Arquivo pessoal
Daniel acredita que o filho não está sendo exposto e que isso fortalece a relação entre pai e filho


Raphael não se considera um youtuber, mas sim um jogador de basquete que gosta de gravar os vídeos para mostrar a forma como se dedica. “Não me sinto popular, mas muitas pessoas que vêm visitar o Warriors [time em que treino] pedem para jogar comigo porque já viram meus vídeos. Principalmente as crianças brasileiras”, conta.

Mesmo autorizando o filho a ter o canal, o pai garante que acompanha de perto todo o conteúdo que é publicado. “Não permito nada que insinue ostentação ou pornografia. O resto, liberado. Algumas pessoas confundem o padrão de vida e custo de treinos do Rapha com ostentação em razão de um comparativo com padrões do Brasil, mas isto é irrelevante para nós.”

Lidar com críticas é necessário

Fora o conteúdo, o pai também precisa ficar de olho nos comentários dos vídeos. No YouTube, é possível interagir com os internautas, e saber lidar com críticas é importante. “Eu não ligo para os comentários ruins porque meu pai fala que até as estrelas são criticadas”, enfatiza Raphael. Também não dá para ignorar, já que, para impulsionar o canal, a interação precisa existir. O professor de programação explica que é necessário engajar os inscritos para que eles comentem cada vez mais nos vídeos.

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“Criar o vínculo é extremamente importante porque mostra que você está presente e interessado em melhorar o canal. Sempre tem os comentários negativos, e os pais podem ajudar a responder com inteligência”, completa Bruno.

Aproxima pai e filho

Por incrível que pareça, o canal se tornou importante para relação entre pai e filho, pois, para acompanhar o menino, Daniel ficou ainda mais próximo de Raphael. “Tenho a guarda do meu filho desde que ele tinha dois anos. Fizemos tudo sozinhos e juntos. Ele é meu parceiro, amigo e cúmplice. Temos uma ligação muito forte. Vou a todos os jogos, brigo nos treinos, opino nos vídeos e vou continuar assim”, conta o advogado.

O pequeno Raphael adora essa relação com pai e com o basquete. “Vou manter o canal para sempre porque quero que as pessoas possam ver como eu cheguei até a NBA e que eles podem fazer isso também.”

Exposição e perda de tempo  

Por outro lado, muitos pais pensam que uma criança, mesmo com supervisão, não deve ter um canal no YouTube. A dona de casa Maria Aparecida Montanhas Lima, que é mãe da espoleta Michelle Montanhas Lima, de nove anos, não autoriza que a filha crie uma conta na plataforma. “Não deixo, primeiramente, pela idade dela. É só uma criança e tem que viver como tal. Ela não tem consciência plena do que faz e, além disso, fica muita exposta”.

Maria Aparecida pensa que é muito cedo para deixar a filha se tornar uma youtuber e autoriza que ela poste os vídeos
Arquivo pessoal
Maria Aparecida pensa que é muito cedo para deixar a filha se tornar uma youtuber e autoriza que ela poste os vídeos


O problema é que, assim como muitas crianças nessa faixa etária, Michelle adora ficar na frente do celular assistindo vídeos dos ídolos da internet. “Vejo os vídeos porque me divirto. Adoro os que são de desafio e ‘trolagem’. Meu sonho é ter um canal chamado ‘As a aventuras de Michelle’, postando minha rotina e fazendo coisas legais. Quando eu crescer, terei um”, relata a menina.

Mesmo com o sonho, a mãe ainda nem sabe com que idade vai autorizar a filha a criar um canal. “Até o momento, acho algo bem difícil. Acredito que seja algo desnecessário porque, com o tempo perdido nessas gravações, ela pode estar aproveitando em coisas mais úteis. Eu a deixo assistir, mas sempre fico de olho”, acrescenta.   

Se autorizar, é importante ter alguns cuidados

Os pais geralmente ficam divididos, mas muitos acabam cedendo às vontades dos filhos e autorizam a criança a fazer um canal. Nesse caso, o especialista Bruno dá alguns alertas. “A principal dica é tomar cuidado com o que o filho vai colocar na internet, porque, uma vez colocado, não dá mais para tirar. Também é preciso ter claro que a imagem da criança está sendo veiculada a isso, então tem de ter responsabilidade com conteúdo e ter cuidado para não plagiar  nada.”

Para o especialista, ser youtuber não é bagunça, é uma reponsabilidade. “O YouTube não é apenas uma ferramenta de diversão. Você pode usar para aprender coisas novas. Não é uma bolha, ele tem muito a oferecer se usado com inteligência e sabedoria”, enfatiza. “É importante o pai acompanhar todo o processo, principalmente com o filho menor de idade. Os responsáveis devem assistir aos vídeos que eles estão produzindo e aprovar o conteúdo antes de ir ao ar.”

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Caso acredite que não há problema em postar vídeos na internet e que isso pode dar certo no futuro, matricular a criança em um curso de youtuber pode ser uma boa opção. “O aluno chega com uma expectativa grande, mas o trabalho é árduo e os pais gostam disso. É um choque de realidade, mas eles precisam entender que o mundo virtual é diferente do mundo real”, finaliza Bruno.

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