Casa de coworking em São Paulo tem espaço e cuidadoras para as crianças, mas incentiva que as mães continuem sendo protagonistas na criação delas

Carina Lucindo Borrego é tradutora e não estava feliz com o trabalho em um escritório de advocacia. Além disso, via-se insatisfeita em passar pouco tempo com com a filha de 5 anos, Brigitte. “Comecei a buscar alternativas de alguma coisa que eu pudesse fazer que tivesse a ver com o que eu acreditava, e que me possibilitasse estar perto dela”, contou.

O que a gente aqui julga mais importante é o fato de os pais – principalmente as mães – continuarem como protagonistas na criação das crianças", diz sócia do coworking

Depois de passar por um processo de mentoria, surgiu a ideia perfeita: “Um lugar em que a gente conseguisse reunir tudo: trabalhar, estar perto dos filhos e ainda conseguir se cuidar. Cuidar da gente e cuidar deles”, explicou. A ideia surgiu com nome e identidade: Casa de Viver  – um local de trabalho compartilhado em São Paulo onde as mães levam seus filhos. Enquanto as mulheres dão expediente no térreo do sobrado do bairro da Vila Mariana, as crianças são assistidas por cuidadoras no andar de cima. Mas as mães podem vê-las a toda hora e são elas que trocam fraldas e alimentam seus filhos.

Carina Lucindo Borrego e Fernanda Santiago Torres são sócias da Casa de Viver
iG São Paulo
Carina Lucindo Borrego e Fernanda Santiago Torres são sócias da Casa de Viver

Após voltar de licença-maternidade para agência de eventos onde trabalhava e deixar a filha Lívia sob os cuidados do marido e de uma babá, a psicóloga Fernanda Santiago Torres começou a contabilizar algumas perdas. Pelo telefone, era avisada de que o bebê aprendeu a bater palminha e que ficou de pé pela primeira vez. “Eu pensava: ‘não é possível que não estou vendo nada disso'”, lembra ela, que decidiu pedir demissão quando recebeu a ligação dizendo que sua filha tinha dado o primeiro passo.

Tentei tocar um projeto de casa por quase um mês e não consegui, praticamente não abri o computador", conta mãe com filho pequeno

Fernanda conseguiu adaptar sua vida para trabalhar em casa com uma filha, mas quando descobriu que estava grávida do segundo filho, percebeu que não seria tão fácil. “Eu já estava habituada com a Lívia, ela ficava meio período na escola, mas como seria com um bebezinho?” Por meio de grupo de mães do Facebook, Fernanda cruzou com a ideia de Carina e percebeu que era a alternativa perfeita. Tornaram-se sócias da Casa de Viver, inaugurada em fevereiro. “Toda vez que a gente falava disso, de um lugar em que a gente pudesse trabalhar perto dos filhos, as pessoas reagiam superbem. Vi que não era uma necessidade só minha”, conta Carina.

A jornalista freelancer Raquel Francese, mãe do Leonel de 1 ano e 3 meses, é uma delas. Quando o filho tinha oito meses, ela recebeu a proposta de tocar um projeto grande e aceitou, abrindo mão do plano de ser mãe em tempo integral até o primeiro ano do menino. “Tentei tocar o projeto de casa por quase um mês e não consegui, praticamente não abri o computador”, conta. Hás seis meses no novo escritório, Raquel também cita o benefício do arranjo para Leonel: “Ele ficou mais esperto, mais independente, lida melhor com outras crianças, outros adultos e eu estou superfeliz”. A prova desta satisfação? Raquel está grávida de novo!

Mulher sem filho também aprova iniciativa

Vanessa Rosa destoa do perfil por não ter filhos, e escolha pela Casa de Viver foi por causa da sócia, que é mãe. “A gente tinha um escritório fixo, mas estávamos sentindo a necessidade de ter mais contato com outras pessoas, além da questão do custo, pois em um espaço de coworking os custos são reduzidos”, explica. Além do espaço propício para a criança, a escolha também tem a ver com o trabalho que elas executam, o projeto Mulheres Querem , que busca o empoderamento feminino por meio da informação. Vanessa observa a demanda das mulheres em sua volta e conclui: “Essa necessidade do convívio das mães com os filhos é uma coisa que eu vejo muito. Só de ela saber que ele está próximo, ela vai se concentrar melhor no trabalho.” 

Como funciona a Casa de Viver?

O espaço de trabalho compartilhado é composto por um grande escritório com internet e impressora e também disponibiliza uma sala de reuniões e uma sala que pode ser alugada para consultas - utilizadas, por exemplo, por psicólogas e fisioterapeutas. Tanto as profissionais quanto os pacientes podem deixar seus filhos na Casa do Viver durante as consultas. Além disso, a casa tem uma lojinha compartilhada em que as mães expõem produtos que vendem.

Mas o grande diferencial é o espaço para crianças. Com duas cuidadoras, o andar superior da casa é todo dedicado às crianças com sala de brinquedos, copa e varanda.

A parte de baixo, voltada para o trabalho, “é meio blindada das crianças”, brinca Carina. “Aqui as pessoas precisam de concentração para trabalhar, mexer numa planilha, falar com um cliente, falar ao telefone. Mas no andar de cima as mães têm livre acesso a qualquer hora.”

“O que a gente aqui julga mais importante é o fato de os pais – principalmente as mães – continuarem como protagonistas na criação das crianças. Então, quem troca as fraldas são as mães, quem dá comidinha são as mães e quase todas ainda amamentam.”

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