Por necessidade ou vontade, mulheres que voltam ao mercado precisam lidar com dupla jornada e julgamento alheio

Eliane chegou a ficar quase uma semana sem encontrar o filho Davi acordado em casa
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Eliane chegou a ficar quase uma semana sem encontrar o filho Davi acordado em casa

É quase impossível não se perguntar se o filho está bem ao longo dia. Será que ele já se alimentou? Está sentindo minha falta? Questionamentos como esses, muitas vezes carregados de culpa e sofrimento, fazem parte da rotina de mulheres que optaram ou simplesmente precisaram voltar a trabalhar, depois que os filhos nasceram.

Mães que trabalham vivem uma jornada dupla: dão o melhor de si no ambiente de trabalho e não descansam quando chegam à casa, onde começa o segundo turno. São nesses curtos, porém intensos momentos que elas podem interagir melhor com os filhos, mesmo que só reste um beijo de boa noite antes de dormir.

Esse breve contato com o filho Davi, à noite, era tudo o que a coach Eliane Cabrini tinha por alguns anos, quando era funcionária pública. Ela lembra que, entre viagens e compromissos que duravam o dia todo, chegou a ficar quase uma semana sem encontrar Davi acordado em casa.

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“Quando ele tinha 8 meses, voltei a trabalhar. Foi aí que me deparei com esse dilema por qual toda mãe que trabalha passa. Conciliar a maternidade e o lado profissional não foi nada tranquilo, mas eu não conseguia me conformar e apenas engavetar todos os meus diplomas”, confessa Eliane.

Encontrar o equilíbrio perfeito é algo que não acontece de primeira, nem com as mães mais experientes. Eliane só compreendeu os próprios limites e os de Davi quando recebeu um telefonema da escola em que o filho estudava, que tinha por volta de um ano.

“A pedagoga me disse que ele se ausentava das brincadeiras para roer as unhas das mãos e dos pés. A psicóloga diagnosticou um transtorno de ansiedade pouco comum em crianças daquela idade, que tinha relação com a minha ausência. Você sabe como é ouvir que todos os problemas do seu filho são, na verdade, culpa sua?”, pergunta ela.

Nesse dia, um alerta vermelho passou a direcionar todas as decisões de Eliane. Vendo o estado do filho, ela percebeu que também estava menosprezando as próprias vontades. O anseio de Eliane se transformou em solução - para ela e para outras mães.

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Hoje, ela é coach do “Mães que Trabalham”, um programa que permite a transição de carreira dessas mulheres para algo mais tranquilo e produtivo. A nova ocupação permite que ela planeje os próprios horários e consiga passar mais tempo com Davi, de um jeito positivo para a família toda. “Você precisa do seu filho e ele de você, mas vocês também precisam de outras vivências. Os dois precisam de autonomia e liberdade”, acredita ela.

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"Queria voltar a trabalhar e ter a minha independência”, afirma Priscila

“Menos mãe”

Muitas mulheres conhecem o ditado de que, com uma mãe, nasce também uma culpa. Se por um lado as mães em tempo integral são apelidadas de “madames”, as que trabalham são encaradas como frias e desnaturadas, como se levar o filho à escola fosse o mesmo que deixá-lo em um depósito de crianças.

Alguns familiares de Priscila Casimiro, do blog  Mamãe Sem Frescura , não se conformaram com sua decisão em voltar ao trabalho logo após o fim da licença-maternidade. “Me perguntavam se eu não tinha dó e se não poderia passar mais um tempinho com ele, como um ano. Mas eu também queria voltar a trabalhar e ter a minha independência”, conta ela.

Quando Flavio tinha poucos mais de cinco meses e já ia para a escola, Priscila levantava mais cedo para conseguir alimentar o filho, ir trabalhar e sair a tempo de buscá-lo mais tarde. Mesmo sabendo dessa jornada dupla de funcionária e mãe, colegas e chefes olhavam para Priscila como se ela trabalhasse menos que os demais, ou não se dedicasse o suficiente, já que ela não podia perder o horário de saída do filho na escola.

Ainda hoje, que Flavio é maior e dispensa alguns cuidados básicos da primeira infância, Priscila se esforça para curtir cada hora livre que tem com o filho, pela manhã e à noite, quando volta para casa. Apesar de ser uma jornada permeada por dúvidas, culpa e julgamentos, Priscila não se arrepende da escolha que fez.

“Ás vezes, é lógico, bate aquela dúvida sobre tentar arranjar alguma coisa em casa, o que é algo difícil de se acostumar, também. Não sei. Mas meu filho já tem cinco anos e daqui a pouco ele nem vai querer mais saber de mim. Então, bate esse sentimento, mas eu não me vejo feliz tomando outra decisão ou sendo dona de casa. É algo bom para ele também, que é filho único. Na escola ele amadurece e convive com outras crianças”, reforça ela.

“Se tivesse que colocar minha filha aos cinco meses no berçário, teria parado de trabalhar
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“Se tivesse que colocar minha filha aos cinco meses no berçário, teria parado de trabalhar", lembra Alessandra

Mente ocupada

Quando engravidou, a engenheira Alessandra Garcia teve para si que colocar a filha no berçário em tempo integral seria algo natural e tranquilo. Depois que Laura nasceu, as coisas foram completamente diferentes. O tempo de licença-maternidade nem sequer foi aproveitado como Alessandra queria, por conta do sofrimento antecipado pela separação da filha. A ideia do berçário foi imediatamente descartada.

“Se tivesse que colocar minha filha aos cinco meses no berçário, teria parado de trabalhar. Graças a Deus tenho um anjo, que é a minha mãe e pode ficar com a minha filha enquanto trabalho. Nos primeiros meses sofri muito e fui trabalhar aos prantos”, confessa a mãe.

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Se o emocional estava mais abalado que o normal, Alessandra não podia dizer o mesmo da vida profissional, para onde ela canalizou toda essa energia. “Meu retorno foi ótimo. Eu rendia muito no trabalho porque queria manter a cabeça ocupada, já que estava longe da Laura. Para matar a saudade, comprei um porta retrato digital e, quando o coração apertava, olhava para minha pequena e sabia o por quê de estar ali. Isso me deu forças para continuar”, acredita ela.

Apesar de dolorido, Alessandra reconhece que foi um período bom, em que ela pode “respirar” algo além da maternidade e conviver com outras pessoas, conversando sobre outros assuntos. Além disso, a engenheira sempre foi muito ativa - ficar em casa por muito tempo resultaria em estresse, frustração e angústia, cedo ou tarde.

Tanto é verdade que Alessandra está de licença-maternidade novamente, dessa vez do caçula Gabriel. Nos próximos dois meses, a engenheira volta à rotina profissional e a vovó assume a missão, para a tranquilidade de Alessandra. Além de estar “calejada” pela primeira experiência, hoje ela escreve no blog  Engenheira que virou Mãe , que começou como uma brincadeira e se transformou em mais uma ferramenta para driblar os desafios da maternidade, compartilhando experiências e dilemas com outras mães.

Hora de voltar para casa

Não foi só a questão financeira que pesou para Denise Tonietto. Ficar em casa, para ela, não era uma opção - tampouco uma vontade legítima. Mesmo aflita e preocupada com o que viria depois do fim da licença-maternidade, ela sentia a necessidade pungente de voltar à rotina de antes da gravidez.

“Para mim, era necessário voltar ao meu dia a dia profissional. Fiquei quatro meses me sentindo presa, sem ter o meu próprio espaço. Queria sair, me arrumar, passar maquiagem, colocar uma roupa legal, coisas que não aconteceram durante a licença-maternidade -  e das quais eu sentia muita falta”, lembra ela.

Para ela, a separação foi positiva, apesar de muito dolorida no começo. Denise tinha medo de que o filho Lorenzo não fosse bem cuidado e alimentado na escola, ou que o leite estocado em casa não fosse suficiente para atender às necessidades do bebê. Isso fez com que ela acordasse todos os dias mais cedo do que o habitual, para conseguir fazer as reservas de leite e chegar ao trabalho dentro do horário.

A expectativa de voltar para casa tinha um gostinho especial, por conta da saudade e da certeza de que alguém a estava esperando em casa, com a mesma ansiedade. Para compensar os momentos de separação, Denise se esforçava para dar toda a atenção e o carinho de que o filho necessitava, mesmo que o dia no trabalho fosse mais exaustivo que o normal.

“Eu era um zumbi em pessoa, que ficava com o coração cortado por sair de casa e olhar o rostinho do meu bebê, mas não tinha muita escolha. Essa vontade de voltar para casa e ver se ele está bem continua a mesma, ainda que hoje ele tenha onze anos”, brinca Denise.

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