Apesar do senso comum de que ficar em casa é um privilégio, rotina também requer sacrifícios e comprometimento

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"Minha mãe trabalhava fora e a referência que eu tenho dessa época é a ausência dela", conta Juliana, mãe do Vítor

Quando Renata nasceu, Giane não teve outra escolha senão continuar trabalhando. A filha, que hoje tem 17 anos, ficava ora na creche, ora na casa da avó. Os únicos momentos que Giane e Renata tinham juntas eram na parte da noite, quando a mãe voltava do serviço. Há dois anos, quando engravidou do pequeno Vinícius, ela resolveu abandonar o emprego e cuidar do filho, em tempo integral.

Essa escolha é vista por muitos como um luxo, como se ficar em casa com as crianças não pedisse nenhum tipo de empenho por parte das mães. Madame, preguiçosa, desocupada e outros comentários preconceituosos fazem parte da rotina dessas mulheres, vindo de amigos e até mesmo de familiares.

“Ouvi que a minha decisão era justificativa para não trabalhar. Toda mãe deveria ter esse direito de escolher se quer trabalhar ou ficar em casa com os filhos, sem ser julgada. É muito triste ver esse tipo de preconceito, vindo principalmente de mulheres. É uma pena, porque a gente sabe como é difícil deixar o filho na creche, trabalhar e fazer esse tipo de sacrifício”, desabafa Giane Figueiredo Cruz.

Justamente por ter perdido tantos momentos importantes da vida da filha mais velha, Giane não pensou duas vezes quando optou por cuidar do filho Vinícius com total dedicação. “A Renata me pergunta se ela fazia algumas coisas que o caçula faz hoje e eu não consigo dizer, porque não me lembro de ter acompanhado. Com ele é diferente, posso ver de perto como ele muda e se desenvolve com o passar do tempo”, explica ela.

Apesar de ser uma rotina intensa, Giane tem disposição não só para educar e criar o filho, como também pode se dedicar aos momentos de brincadeira e diversão sem qualquer compromisso – diferentemente das mulheres que enfrentam a jornada dupla e, naturalmente, se sentem mais cansadas para ficar com os filhos dessa maneira. Por ter tido contato com essas duas realidades, Giane aconselha que outras mães façam o mesmo, se existir a possibilidade.

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“Eu observo que meu filho é muito mais independente do que a minha filha era. O fato de eu estar por perto o tempo todo dá mais segurança para ele. Além disso, a gente tem mais tempo para conversar, ler livros, contar histórias e brincar, tudo o que eu não pude fazer com a Renata. É muito importante que os pais estejam presentes na vida dos filhos nessa fase”, acredita ela.

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"Nunca quis deixá-los em creche desde bebezinhos, sempre achei muito sofrido. Optei por curtir cada fase deles", diz Kris Sanitá, mãe de quatro filhos

Dois pesos, duas medidas

Quem vê de fora acha que essa opção é maravilhosa, como se a mãe não tivesse dúvidas, inseguranças ou não enfrentasse nenhum momento de estresse. Não é bem assim que as coisas acontecem na vida real. Escolher ficar em casa é, também, um sacrifício a que muitas mulheres se submetem. Um dos primeiros pontos de que elas devem abrir mão é da independência financeira.

Para Juliana Pellizzari Rossini, mãe do Vítor, de quatro anos, a questão financeira foi o que pesou mais quando ela resolveu abandonar o emprego como analista de processo. Ela e o marido conversaram e chegaram à conclusão que seria muito mais positivo para a família se o pequeno pudesse ser cuidado por Juliana, exclusivamente. A própria infância da analista foi levada em conta no momento da decisão.

“Minha infância foi plena, tive muita coisa. Mas minha mãe trabalhava fora e a referência que eu tenho dessa época é a ausência dela. Então, eu sempre senti muita falta de ter a minha mãe por perto. Meu marido, por outro lado, cresceu com a mãe presente em todos os momentos da vida dele. Por isso eu escolhi ficar em casa, e ele me apoiou desde o princípio”, conta ela.

A renda da casa, portanto, ficou sob responsabilidade do marido. Por isso, o casal teve de repensar uma série de prioridades, para cortar tudo o que representasse um gasto desnecessário. Essa é outra prova de que ficar em casa não é sinônimo de luxo ou ostentação, a não ser em casos pontuais.

Hoje, que Vítor está um pouco maior, Juliana consegue ter um tempo livre para si mesma. Mas no período mais intenso da primeira infância, quando Vítor tinha por volta de um ano, ela só conseguia fazer algo para si à noite ou aos fins de semana, em que o marido podia ajudar e cuidar do filho. O isolamento social e a dificuldade para se desligar do universo da maternidade, ainda que por alguns instantes, só são conhecidos por quem escolhe ficar em casa com as crianças.

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Esses foram os maiores obstáculos que Giane enfrentou quando o filho mais novo nasceu, além da questão financeira. Ela não recebia visitas, não conseguia sair de casa, muito menos deixar Vinícius com outras pessoas. Uma vizinha chegou a comentar que nunca tinha visto Giane passear pelo bairro.

“Muita gente desapareceu. Fiquei sem contato com os amigos e perdi um pouco da minha vida social, além da independência financeira. Eu dependo do meu marido para tudo, mesmo que ele não me deixe faltar nada. Ele não se importa, mas eu tenho que dar satisfação sobre tudo o que eu compro, por exemplo. Demorou, mas hoje estou trabalhando isso melhor”, comenta ela.

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"Toda mãe deveria ter esse direito de escolher se quer trabalhar ou ficar em casa com os filhos, sem ser julgada", diz Giane, mãe da Renata e do Vinícius

Alegria em tempo integral

As vantagens e alegrias de poder curtir os filhotes desse jeito compensam toda e qualquer dor de cabeça ou dificuldade. Pelo menos, é assim que Kris Sanitá enxerga a própria experiência. Ela é mãe de Andrew, Erick, Kailany e Igor, que segundo Kris é a “raspinha do tacho”. Se cuidar de uma criança em tempo integral já é complicado, imagine com quatro filhos, que têm poucos anos de diferença entre si.

Kris dava aulas de educação infantil quando engravidou pela primeira vez. Já nessa época ela sabia que ficaria em casa para cuidar de Andrew, o mais velho. O marido também apoiou a decisão e se comprometeu a garantir o sustento da família. Se ela voltasse a trabalhar, precisaria pagar alguém ou deixar os pequenos na creche. Não valia a pena.

“O que eu ganharia de salário acabaria pagando essa profissional para cuidar dos meus filhos. E nunca quis deixá-los em creche desde bebezinhos, sempre achei muito sofrido. Optei por curtir cada fase deles. Conforme eles cresciam, iam me ajudando cada vez mais e cuidando uns dos outros, principalmente o Andrew, que hoje tem 20 anos”, comenta Kris.

A preocupação com a renda da família existia, principalmente nos seis primeiros meses da licença maternidade, quando Kris não sabia se o marido precisaria de ajuda ou não com as finanças. Quando a situação se normalizou, ela percebeu que realmente não queria se afastar dos filhos. Nenhuma dificuldade fez com que ela cogitasse a separação, mesmo que temporária, dos pequenos.

“Eu não sofri tanto assim, como algumas mães sofrem. Nem senti muito pelo fato de ficar em casa, como se não estivesse fazendo nada. Também não fiquei isolada do mundo por conta dos meus filhos, já que continuei vendo minhas amigas todos os fins de semana. Então, foi uma decisão fácil para mim. Poder cuidar dos meus filhos sempre foi um benefício maior”, admite Kris.

A única preocupação foi conseguir dividir o dia a dia de modo que nenhum filho fosse esquecido ou recebesse menos atenção da mãe. Quando eles entraram na escolinha, as coisas ficaram um pouco mais fáceis e Kris pode encontrar brechas para cuidar de si mesma. Hoje, ela consegue fazer taekwondo três vezes por semana, por exemplo. Para Kris, esse é o segredo que salva as mães em tempo integral da “loucura” da maternidade.

Além disso, a semana é planejada até quinta-feira, quando toda a rotina da mãe é pensada para cuidar dos filhos: café da manhã, almoço, levar e buscar na escola, cuidar da tarefa de casa, conversar e brincar. “Eu digo que sexta-feira é o dia da mãe, então vou ao cabeleireiro, à manicure e tudo o que não dá para fazer nos outros dias”, ri ela.

Esse respiro que Kris tem, e que outras mães aprendem a ter, é como um lembrete do que realmente vale a pena nessa experiência. “Já me disseram que eu era a madame que ficava em casa, enquanto meu marido ralava. Não me importo com esses comentários. Eu amo a minha vida e não tenho do que reclamar. Nada é perfeito e tem dia que a gente se irrita, quer ir embora e largar tudo. Mas eu não trocaria essa vida para ser uma empresária ou trabalhar em algum lugar, longe dos meus filhos”, finaliza ela.

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