Índice é maior que a média da população; dispositivos móveis tornam mais difícil a supervisão, mas não devem ser evitados

Maria Fernanda queria o celular desde os 10 anos de idade; pai conseguiu segurar até os 12
Arquivo pessoal
Maria Fernanda queria o celular desde os 10 anos de idade; pai conseguiu segurar até os 12

Aos 10 anos, Maria Fernanda já queria um celular, mas o pai disse não - até ela completar 12 anos.

"Uso para entrar no meu Face, no meu Whats, assisto vídeos", conta a garota. "Ando com ele o dia todo. Às vezes a minha mãe pergunta, quer ver as coisas que eu estou conversando."

Assim como a Maria Fernanda, 26,4% das crianças de 10 a 14 anos - ou 1 em cada 4 - têm acesso à internet por meio de celulares (o que não exclui a possibilidade de que também utilizem PCs ou tablets), segundo pesquisa divulgada nesta quarta-feira (29) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento, feito no fim de 2013, é o primeiro do órgão que investiga como as pessoas se conectam à rede.

O índice de conexão por celular entre as crianças de 10 a 14 é superior ao de muitas faixas etárias e maior do que a média nacional, de 22,7%, ou 1 em cada 5 pessoas. O mesmo acontece com o acesso via tablets: enquanto, em média, 6,2% da população brasileira com mais de 10 anos utiliza o dispositivo para se conectar, entre os 10 e os 14 anos o índice sobe para 7,83%. Entre as crianças que usam a internet, o acesso via celular chega a 40%.

O cenário coloca um desafio maior para os pais, avalia Juliana Cunha, psicóloga da SaferNet, organização não-governamental que promove segurança na rede. Afinal, é mais fácil esconder o que se faz na internet quando a conexão é feita por meio de um celular próprio - algo que 49,9% das crianças de 10 a 14 possuía em 2013, segundo o IBGE -,  do que por um computador em casa ou na escola.

"Antes tinha a dica de colocar o PC num cômodo social da casa, como a sala [ para que se pudesse monitorar o uso ]", diz Juliana. "[ Agora, com o celular ], podem acessar em qualquer lugar."

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Falando com as crianças sobre pornografia na internet

Segundo Pollyana Mustaro, professora de tecnologia educacional do Mackenzie, não é adequado que as crianças acessem canais de vídeos, como Youtube, sozinhas. "Algumas pesquisas indicam que, às vezes, se está a quatro passos de acessar um conteúdo pornográfico."

Já as redes sociais - como Facebook, Whatsapp ou Instagram - devem ser evitadas, especialmente até os 12 anos. "O Facebook não autoriza a criação de um perfil abaixo dos 13 anos. A criança não sabe discernir [ o uso adequado ], pode expor sua rotina, chamar a atenção de um pedófilo", diz a Pollyana. 

Pai de Maria Fernanda, Ilson dos Reis Moreira, de 42 anos, diz monitorar as atividades da filha na internet.

"Uma por causa de ela ser muito criança. Nessa internet, não se sabe o que acontece. Estamos sempre de olho no celular, damos conselhos, vemos se no Whatsapp ela só fala com os amigos", afirma. "Eu achei que não era hora ainda [ de ela ganhar celular ], mas como todas as crianças por aí já têm..."

Conectado é melhor
Tirar o celular ou o acesso à internet, entretanto, também é ruim. Primeiro porque sempre haverá um amigo conectado e a criança ainda pode criar um perfil falso, lembra Juliana, da SaferNet. Segundo porque afeta o desenvolvimento.

"Você imagina a diferença entre uma criança que pode acessar o Google e outra que não?", questiona André Salata, professor do programa de pós-graduação em Ciências Sociais da PUC-RS. "A criança que não tem acesso à internet é excluída de muitas oportunidades."

Pollyana, do Mackenzie, lembra que várias escolas já fazem uso dos dispositivos móveis para auxiliar as crianças a não só buscar informações, mas também para treiná-las a distinguir a qualidade dos dados e saber o que é, por exemplo, uma fonte fidedigna.

"Em casa, no ambiente familiar, o celular permite que as crianças pratiquem a escrita, e é possível trabalhar elementos de lógica e de codificação, para que elas não sejam meras consumidoras de aplicativos", comenta a professora.

Juliana, da SaferNet, destaca outro ponto positivo:  a possibilidade de se conectar a qualquer tempo, em qualquer lugar, dá autonomia às crianças. O importante, então, é negociar para que essa vantagem não resulte em insegurança. "É uma oportunidade para eles [ pais e filhos ] negociarem limites de horário, quais aplicativos acessar, de decidirem em conjunto, e de os pais acompanharem o letramento digital dos filhos", diz a psicóloga.

As condições do acordo são as mais variadas. Alguns pais podem pedir que os filhos lhes forneçam a senha das redes que eventualmente frequentem, outros podem definir limites sobre o que pode ou não ser partilhado e com quem. Existem ainda aplicativos que mantêm a figura do moderador: alguém que vai decidir se um conteúdo ou comportamento é adequadou ou não para o público infantil.

Há os aplicativos espiões, que podem ser instalados pelos pais nos equipamentos dos filhos. A psicóloga da SaferNet, entretanto, se diz contra eles.

"Você fragiliza a relação de confiança com os filhos, e esses programas vão detectar algo que já está acontecendo. E o legal é evitar e prevenir", diz Juliana Cunha. "O legal mesmo é diálogo."

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