Estudo americano constata que, para crianças com deficiência, salas de aula inclusivas não significam necessariamente maior aceitação ou um aumento no número de amigos

Deixar uma criança na creche pela primeira vez pode ser uma ​​experiência memorável, mas ainda assim aterrorizante para qualquer pai. Entre as muitas preocupações enfrentadas pelos pais está se seus filhos vão fazer amigos – um fator-chave, mostram pesquisas, na redução de ansiedade e depressão das crianças, e das chances de sofrer intimidação, o famigerado bullying.

Inclusão: estimular o desenvolvimento de amizades é fundamental para o sucesso dos alunos com deficiência na escola
Divulgação / Sally McCay
Inclusão: estimular o desenvolvimento de amizades é fundamental para o sucesso dos alunos com deficiência na escola

Para os pais com filhos com deficiência a preocupação é ainda maior na medida em que quatro em cada 10 crianças assim entrarão no jardim de infância sem as habilidades sociais necessárias para desenvolver amizades. A resposta das escolas para esse problema foi a criação de salas de aula inclusivas, onde um número significativo de alunos com deficiência agora recebem a maior parte de sua educação e, acredita-se, têm maiores chances de desenvolver e estreitar relações com seus colegas.

Entretanto, depois de estudar profundamente seis salas de aula inclusivas, Lori Erbrederis Meyer, professora-assistente de Educação Infantil Especial da Universidade de Vermont (EUA), constatou que salas de aula inclusivas com currículos de sensibilização para a deficiência por si só não conseguiam ampliar o número de amigos para alunos com deficiência.

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O estudo, por outro lado, também mostrou que ter um melhor amigo de fato ajuda crianças com altas taxas de problemas de comportamento e baixas taxas de habilidades sociais a ganhar aceitação de seus coleguinhas de classe.

“O fato de que cerca de 40% das crianças com deficiência entrará no jardim de infância sem habilidades de relacionamento social apropriadas à idade é marcante. Essas habilidades ajudam a formar amizades, o que por sua vez pode prevenir a vitimização entre pares (o bullying) mais tarde”, disse Meyer em comunicado divulgado pela universidade.

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“Descobrimos que a inclusão em si não é sinônimo de maior aceitação, mais amigos ou melhores relacionamentos na sala de aula. Esta pesquisa enfatiza a importância de individualizar programas de inclusão com base nas necessidades de apoio das crianças daquela classe.”

Currículo focado na deficiência

Em seu artigo "O impacto de uma intervenção afetiva sobre as amizades de crianças com deficiência no jardim de infância"  Meyer investigou a influência de um currículo de sensibilização para a deficiência no desenvolvimento de amizades entre 26 alunos com deficiência matriculados em seis salas de aula inclusivas. Ela também observou se a presença de pelo menos um melhor amigo conseguia de alguma forma mediar a relação entre as habilidades sociais e/ou problemas de comportamento dessas crianças especiais e a aceitação delas por seus pares.

O estudo comparou os resultados de dois grupos, cada um contendo alunos com e sem deficiência. Em um grupo, professores implementaram o programa “Amigos Especiais”, um currículo projetado para aumentar atitudes positivas das crianças sobre deficiência. No outro, foi implementado um currículo com foco em ciência.

Os programas incluíram leitura compartilhada de livros, grupos mistos de aprendizagem cooperativa, nos quais os alunos eram engajados em atividades baseadas em jogar uns com os outros, e uma biblioteca de empréstimo, que permitia às crianças levar livros lidos na escola para casa, para ler com os familiares.

O programa “Amigos Especiais” incluía ler livros com foco em temas relacionados à deficiência, com os professores discutindo o enredo da publicação, as conexões entre as crianças e os personagens dos livros, a compreensão da deficiência e o vocabulário específico da deficiência. Os professores que utilizaram o programa de ciência conduziram a leitura de seus livros de uma forma muito semelhante, excetuando o fato de que eles liam conteúdos relacionados à ciência.

“Ao contrário da nossa hipótese – de que o número de melhores amigos aumentaria no programa “Amigos Especiais”–, encontramos um aumento significativo no número de melhores amigos entre as crianças com deficiência que participam no programa de ciência”, disse Meyer.

Houve, observou o estudo, uma diferença importante entre as atividades dos grupos de aprendizagem cooperativa no programa “Amigos Especiais” e no de ciências. Enquanto o primeiro encorajava uma espécie de jogo teatral, como fingir que está dirigindo um restaurante, o outro trabalhou atividades que tinha claramente resultados definidos – como todos trabalharem juntos para construir um ninho de pássaro.

“As evidências mostraram que as crianças do 'Amigos Especiais' podem não ter tido as habilidades necessárias para interagir durante as atividades do grupo de aprendizagem cooperativa. Algumas não tinham certeza de como iniciar as interações. Isto pode explicar o declínio do grupo no número médio de amizades”, disse Meyer.

Outras descobertas mostraram que a autorregulação e as habilidades sociais estão diretamente relacionadas a ter pelo menos um melhor amigo e à aceitação entre os pares.

“As crianças que tiveram maiores taxas de problemas de comportamento e habilidades sociais mais baixas também tiveram menores taxas de aceitação por seus pares. No entanto, quando as crianças com essas características sócio-comportamentais tinham um melhor amigo, isso não resultou em menor aceitação pelos pares.”

Meyer diz que, para aumentar as chances de crianças com deficiência farem amizades, modelos de inclusão de qualidade devem ser estruturado de forma a criar um ambiente que suporte a aceitação, a adesão e o desenvolvimento de amizades.

“Nossa pesquisa mostra que, ao mesmo tempo em que estamos focando em melhorar as habilidades sociais das crianças e diminuir seus comportamentos desafiadores, também temos de ajudá-las a fazer amigos na sala de aula, por causa dos fatores de proteção que essas amizades têm e por seu efeito sobre a produção de melhor resultados sociais e acadêmicos”, defendeu a pesquisadora.

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