Mãe pra cá, mãe pra lá: elas são o centro do universo das crianças e precisam se dividir em muitas para atender aos pequenos. Veja suas histórias e as principais preocupações

Comprar o presente da festinha de aniversário, fazer a matrícula na escola, agendar a consulta do pediatra, pensar na fantasia de carnaval. Cuidar de uma criança não é tarefa simples. Até aí, nenhuma novidade. A mãe se sente sobrecarregada com frequência, sem tempo para cuidar dos próprios interesses ou até do relacionamento amoroso. Como diz a sabedoria popular, um é pouco, dois é bom e três é demais. Será que é demais mesmo?

De acordo com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de fecundidade caiu acentuadamente nas últimas décadas no País, chegando a 1,77 filho por mulher em 2013. Em 2000, esse número era de 2,39 filhos por mulher. Indo mais longe, na década de 1960, a média era de 6,2 filhos.

Para quem resolveu desafiar as estatísticas atuais, não existe gratificação maior do que cuidar de uma família numerosa. A casa nunca fica completamente em silêncio e a hora das refeições é marcada por muitas gargalhadas. Por isso, “demais” pode ser só um ponto de vista.

A psicóloga Adriana Micelli Baptista nunca pensou em ter mais do que dois filhos. Na prática, o sonho da maternidade aconteceu de um jeito bem diferente. Depois de ser mãe de dois meninos, então com cinco e seis anos, Adriana sentiu vontade de tentar uma nova gestação. A surpresa foi confirmada no primeiro ultrassom, quando ela descobriu que estava grávida de uma menina e mais um menino.

Adriana tentou conciliar a vida profissional  com o "novo" ofício em tempo integral, quando tinha só as duas primeiras crianças. Equilibrar-se entre o consultório e as necessidades dos pequenos já era difícil naquela época - com o nascimento dos gêmeos, então, ficou impossível se dividir em tantas tarefas ao mesmo tempo.

"Essa é uma das maiores dificuldades de ser mãe de quatro crianças. Para ter uma vida profissional completa e crescente você precisa delegar as tarefas a outras pessoas, e eu não quero isso. Hoje, o foco do meu interesse mudou, toda a minha atenção está dirigida a eles. Não contrario a minha maior vontade, que é estar com meus filhos", explica Adriana.

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Quando a caçula Raica nasceu, os trigêmeos Henri, Maila e Laila sentiram um pouco de ciúmes, conta a mãe, Majoy
Arquivo pessoal
Quando a caçula Raica nasceu, os trigêmeos Henri, Maila e Laila sentiram um pouco de ciúmes, conta a mãe, Majoy

Outra dificuldade é o sentimento de culpa, que também acomete as mulheres que são mães em famílias com muitas crianças. Se ser mãe já é, naturalmente, descobrir-se culpada, as coisas podem complicar ainda mais com três ou mais filhos, já que as chances de frustração também crescem. Quando esse sentimento bater, vale lembrar que toda mãe precisa ter um pouco de compaixão por si mesma.

“São muitos filhos e, às vezes, ela pode perder alguma coisa importante ou falhar com eles. É natural que ela não ouça ou repare em algum conflito entre os filhos, por exemplo. Não é porque ela não tem competência ou não ama aquela criança, e sim porque a demanda é contínua e ininterrupta, não dá para estar alerta o tempo inteiro. Você perde coisas, você se engana, você não ouve e isso acontece. Por isso essa mãe não deve se crucificar, porque educar é quase uma missão impossível. Isso faz parte do processo de ser mãe”, pondera Blenda de Oliveira, psicóloga e psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

Mesa sempre cheia

Margareth Jahchan nasceu em uma família numerosa, como aquelas que se reúnem para almoçar todos os domingos, com irmãos, tios e avós presentes. Por isso, a ideia de ter um filho único nunca passou pela sua cabeça. Cinco crianças, por outro lado, também não era uma meta que ela tinha em mente - e que tampouco quisesse alcançar.

Mãe de dois meninos na época, Margareth resolveu que tentaria engravidar mais uma vez, para dar à luz a uma menina. Nesse caso, veio a surpresa em dose tripla. Margareth teve mais duas meninas e um menino. Assim que ela se descobriu como o "centro" do mundo de cinco vidas, todas com necessidades e desejos diferentes, foi preciso repensar toda a logística doméstica da casa.

O primeiro passo foi contar com a ajuda do marido e de demais familiares para focar um pouco mais de energia nos trigêmeos recém-nascidos, sem esquecer ou deixar de lado os filhos mais velhos. Mesmo assim, eles precisaram entender e aprender na prática que as necessidades básicas dos irmãos eram mais importantes no momento.

"Todo mundo teve que cooperar para a família dar certo. Eles entendiam que não podiam colocar todas as responsabilidades sobre mim. Mesmo com a ajuda do meu marido, a sensação de estar sobrecarregada era uma constante. A mãe faz de tudo, mas sempre acha que alguma coisa ficou faltando. Eu quero buscar o mundo para eles", conta Margareth.

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Para ela, todos os percalços dessa jornada quíntupla são compensados pelo carinho dos filhos e pelo prazer de acompanhar as conquistas de cada um. “Você nunca está sozinha, eles estão sempre esperando por você. Eu não faria nada diferente”, afirma.

Irmãos, amigos e aliados

A mudança de foco também foi uma vivência comum à família de Majoy Antabi. Quando a caçula Raica nasceu, os trigêmeos Henri, Maila e Laila sentiram, naturalmente, uma pontinha de ciúmes. “Por que ela precisa ser a mais mimada e grudada à mãe?”, eles questionavam. Na primeira gestação, Majoy não tivera a mesma oportunidade de curtir os três filhos, já que todos precisam de seus cuidados na mesma intensidade e ao mesmo tempo. Por isso, tudo foi muito mais calmo - e cheio de manha - com Raica.

Apesar das brigas, uma das características mais marcantes das famílias numerosas é o forte laço afetivo e emocional entre as crianças. Todos querem ser cuidados pelos pais, de acordo com as suas necessidades, deixando disputas e desavenças de lado. Para Majoy, o segredo dessa relação harmoniosa é sempre estar atento às queixas das crianças, evitando favoritismos e injustiças.

“Eles sempre têm as suas reclamações, que são justas. Por isso, nunca anulo as demandas deles, principalmente se for em relação à atenção que eu dou para cada um. Se alguém chega em casa mais triste ou agressivo, procuro conversar e tentar entender o motivo da insatisfação. O caminho é sempre estar perto, dando o carinho que cada um precisa”, acredita Majoy.

Nas famílias de Adriana Micelli e Margareth Jahchan, o amor e a lealdade entre os pequenos também é um dos motivos que faz toda a exaustão da maternidade valer a pena. Os mais novos idolatram os mais velhos, tentam seguir os mesmos passos e exemplos, ao mesmo tempo em que os maiores assumem o papel de protetores dos caçulas. Pode até haver brigas, mas ninguém consegue quebrar a cumplicidade dos irmãos.

Para Blenda de Oliveira, o senso de cooperação e de independência são maiores em famílias com mais de um filho. As crianças também se descobrem como parte de um todo, e não o “centro” do universo familiar.

“Quando a família é numerosa, as crianças aprendem muito cedo a esperar e a se frustar. Os filhos vivenciam isso no dia a dia com os irmãos. Algumas dormem no mesmo quarto e aprendem rapidamente que têm um espaço que não é só seu, muito menos que a mãe é só sua. Eles aprendem a dividir e a lidar com frustração, com a espera, querendo ou não”, explica ela.

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