Depois de ser denunciada por negligência, Lenore Skenazy deu início à uma campanha para combater a superproteção infantil, ensinando pais e cuidadores a confiar mais nas crianças

BBC

Em 2008, a jornalista americana Lenore Skenazy permitiu que seu filho de 9 anos andasse de metrô sozinho em Nova York e escreveu um artigo a respeito no jornal The New York Sun. O menino estava munido de um cartão de metrô, um mapa e US$ 20 para emergências. Ele chegou bem em casa, "feliz com sua independência".

A jornalista americana Lenore Skenazy, com o filho de nove anos. Seu posicionamento foi alvo de duras críticas, e a jornalista chegou a ser denunciada por suposta negligência e apelidada de
Discovery Channel
A jornalista americana Lenore Skenazy, com o filho de nove anos. Seu posicionamento foi alvo de duras críticas, e a jornalista chegou a ser denunciada por suposta negligência e apelidada de "pior mãe do mundo"


"Eu estava preocupada? Sim, um pouco. Mas tampouco me pareceu algo ousado. Nova York não é hoje tão segura quanto em 1963? Não é como se vivêssemos em Bagdá", escreveu Skenazy em seu artigo.

Mas ela foi alvo de duras críticas, denunciada por suposta negligência e apelidada de "pior mãe do mundo". Uma mãe perguntou: Como você se sentiria se seu filho não tivesse conseguido voltar para casa?

"Eu teria ficado devastada", respondeu Skenazy. "Mas isso provaria que nenhuma mãe deve deixar seu filho andar sozinho de metrô? Não. Teria sido um exemplo horrível mas extremamente raro de violência aleatória. (...) Como se manter os filhos trancados, superprotegidos e vigiados seja o jeito certo de criá-los. Não é. É debilitante – para nós e para eles."

Desde então, Skenazy têm se dedicado a convencer pais superprotetores a dar mais independência a crianças, com livros, consultorias e até um reality show chamado, justamente, The World’s Worst Mom (a pior mãe do mundo, em tradução livre) – que já foi transmitido pelo canal a cabo Discovery Home & Health no Brasil e acaba de entrar em cartaz na TV americana.

No programa, 13 famílias superprotetoras começam a permitir, após a insistência de Skenazy - e dos próprios filhos -, que estes possam andar de bicicleta, ganhar autonomia para certas tarefas e, em alguns casos, irem sozinhos para a escola.

O tema é delicado: quando é o momento de deixar os filhos fazerem coisas por conta própria ou saírem sozinhos de casa? Em cidades com níveis de criminalidade superiores às americanas, os conselhos de Skenazy ainda valem?

Como distinguir preocupações reais dos pais com a segurança das crianças de medos irracionais? E qual o impacto desse medo nos pais e nos filhos?

‘Quem seus filhos realmente são’

"Nenhum medo parece irracional quando você sofre dele. Eu também tenho meus medos", responde Skenazy à BBC Brasil.

"Meu trabalho não é identificar quais medos fazem sentido, mas mostrar aos pais quem seus filhos realmente são. No programa de TV, as famílias que aceitaram participar viam seus filhos como se ainda não tivessem saído do útero. Uma mãe ainda alimentava seu filho de dez anos de colher por medo que ele se cortasse. Outra ficou receosa quando o filho de 16 anos começou a visitar universidades. Eu queria mostrar para ela que seu filho não era um bebê; ajudar pais muito ansiosos a libertar seus filhos."

Skenazy conta que, quando esses pais percebiam que seus filhos davam conta de certas tarefas – fazer o jantar ou ir sozinhos para a escola -, esses medos perdiam força.

"Em 12 das 13 famílias, os pais mudaram tanto no final que eles sequer se lembravam por que impediam seus filhos de fazer certas coisas. E eles ficavam orgulhosos dos filhos. O orgulho substituiu o medo."

Impactos do medo

Skenazy defende que esse medo está tendo impactos importantes na vida dos pais – sobretudo na das mães.

"Se os pais têm de supervisionar seus filhos o tempo todo, é um retrocesso para o feminismo: 'Claro que você pode crescer profissionalmente, mamãe, mas tem que também levar seu filho na aula de futebol quatro vezes por semana; afinal, você não quer que ele se sinta mal por você não estar lá aplaudindo cada gol que ele marca'", ironiza.

"Isso cria uma pressão sobre as mães para que acompanhem, assistam e sejam quase serventes de seus filhos sem deixá-los sozinhos, caso contrário eles podem estar em perigo. Vejo isso como um fardo adicional aos pais que não existia antes, que faz com que eles se sintam culpados o tempo todo."

Skenazy afirma, ainda, que mais Estados americanos têm criado leis para punir a não-supervisão constante de crianças.

Aqui no Brasil, uma série de casos de bebês que morreram após serem esquecidos por horas dentro do carro deixou muitos pais assustados. Muitos especialistas alertam que temperaturas dentro de carros ficam extremamente altas em dias quentes.

Mas Skenazy não acredita que optar conscientemente por deixar os filhos no carro por alguns minutos para resolver alguma pendência possa ser considerado negligência. "Essas leis americanas são baseadas na ideia de que as crianças estão em perigo constante e precisam de supervisão o tempo todo."

E a tecnologia, em vez de tranquilizar os pais, tem o poder de deixá-los mais ansiosos.

"Se você consegue checar onde está o seu filho o tempo todo, você começa achar perigoso não checar o tempo todo", afirma ela.

Independência

A abordagem de Skenazy tem gerado polêmica: de um lado, alguns pais acham que ela deixa as crianças vulneráveis a pessoas e situações perigosas; de outro, ganhou eco em movimentos que defendem mais liberdade e menos supervisão aos pequenos.

A autora atribui o medo dos pais à extensa cobertura jornalística dada a crimes de sequestro e assassinato de crianças. Pais, obviamente, querem fazer de tudo para impedir que seus filhos sejam vítimas, mesmo que os casos sejam exceções.

"Não posso garantir segurança total, ninguém pode – nem mesmo dentro de casa, porque você pode tropeçar e cair. Posso apenas substituir o ‘e se acontecer algo’ pela realidade: os pais ficam orgulhosos ao verem que seus filhos são capazes de sair por conta própria, se divertir e crescer, em vez de ficarem trancados em casa."

Em um dos casos acompanhados por ela, uma criança foi autorizada pelos pais a ir de bicicleta para a casa de um amigo na vizinhança, num sábado de manhã. Quando os pais se sentiram mais seguros, permitiram que o menino passasse a pedalar para a escola diariamente.

"Passeios como estes fazem parte das memórias marcantes da infância de muitos pais, então por que não permitir que seus filhos as tenham também?"

Mas uma coisa é ir de bicicleta para a escola em cidades e bairros seguros dos EUA; outra coisa é fazer isso em locais com índices de criminalidade maiores, como o caso de vários bairros e cidades brasileiros.

"Não conheço a realidade brasileira, sei que muitas cidades latino-americanas têm casos frequentes de sequestro", responde Skenazy.

"Nesses casos, os pais podem pensar em outras formas de dar independência às crianças que não envolvam andar na rua sozinhos: permitir que eles façam o jantar uma vez por semana, confiar que eles conseguirão usar o forno, o fogão, a faca. Mostrar que você confia que eles podem crescer."

Skenazy também passou a ser defensora do tempo livre para crianças.

"São tantas atividades extraclasse, aulas de música, de esporte. Os pais têm medo de os filhos organizarem seu próprio calendário", diz.

"Quero que os pais confiem mais em seus filhos (dando-lhes) tempo livre não supervisionado e não estruturado, seja dentro ou fora de casa. Tempo livre não é tempo desperdiçado. Na nossa infância era um tempo que adorávamos ter, para fazer o que quiséssemos. Deixei que meus filhos abandonassem as aulas de música, que eles faziam sem qualquer interesse ou talento. Permiti que eles tivessem tempo para preencher como quisessem, em vez de microgerenciar sua vida. Um dos meninos acabou se interessando por esportes; o outro, por debates, por conta própria."

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