Jornalista compilou textos que escreveu desde a gravidez até um ano depois da morte do filho para ajudar outras mães

Camila e os filhos Pedro e Joana
Arquivo pessoal
Camila e os filhos Pedro e Joana

Foram 11 dias com ele. O luto, prematuro, inesperado e sofrido, também trouxe “gratidão e aprendizado”. Camila Goytacaz, jornalista e escritora, perdeu seu segundo filho, José, pouco tempo depois do nascimento. Ela, que escrevia textos para o menino desde a gestação, continuou o hábito após a perda.

Foi esse material rico e tocante que deu origem ao livro “Até Breve, José”, escrito em forma de diário, em primeira pessoa, e lançado recentemente em uma plataforma de financiamento coletivo.

A escritora conta que não tinha a pretensão de que esse diário se tornasse um livro, mas, especialmente depois da perda de José, passou a compartilhar os textos em grupos de mães, além de procurar por pessoas que tivessem sofrido com esse tipo de perda.

“Neste ato de compartilhar, comecei a receber muito apoio, as pessoas contavam histórias. Isso me motivou a tornar os textos públicos”, explica.

Inevitável pensar na dor da mãe, mas os textos mostram uma mulher que consegue ver além do luto. A perda do filho trouxe também um sentimento de gratidão: “É delicado perder um filho. E muito bonito também. Não é pesado. Envolve muita gratidão e aprendizado”.

Camila não é alheia à estranheza que causa falar da perda do filho com a palavra “bonito”, mas diz ter crescido muito com a experiência: “O mundo tem um novo significado para mim”.

Leia também:
Pacto de silêncio não faz bem a mulheres que perderam filho antes de nascer
O luto é um processo particular, singular e público

“Eu brinco que minha família era de comercial de margarina. Eu, meu marido, meu filho, o cachorro, o segundo filho chegando. Tudo dentro do esquema e depois, uma tragédia como essa que não estava no roteiro. Mas a gente tem que enfrentar. Vou assumir o que aconteceu, vou ser feliz apesar disso, ser feliz com isso”, conta Camila.

Divulgação
"Quando a gente sente que o clima pesa, é normal colocar as coisas embaixo do tapete. Mas isso não é bom. Precisamos ser acolhidos nesse momento”, diz Camila

Sofrimento dos amigos

“A primeira coisa que fiz quando José morreu, foi ir a uma livraria. Não achei nenhum livro sobre a perda de um bebê”, conta. A intenção de Camila com “Até Breve, José” é apoiar mães que também perderam seus filhos e debater o tabu social que esse luto carrega.

“Quando a mãe sair de casa desesperada, espero que o livro seja seu amigo”, afirma Camila. Mas a autora afirma que os textos não podem ser classificados como autoajuda. Ela explica que não tem a intenção de conduzir a recuperação dessas mães. A ideia é mesmo compartilhar sentimentos e oferecer apoio, mesmo que a distância.

A jornalista também percebeu que o livro não precisa ser só para mães. Para Camila, os amigos e parentes de alguém que perdeu um filho sofrem junto com os pais e, na maioria das vezes, não sabem lidar com a situação.

"Quando a gente sente que o clima pesa, é normal colocar as coisas embaixo do tapete. Mas isso não é bom. Precisamos ser acolhidos nesse momento”, diz Camila, que acredita que todo o processo de se abrir é essencial para superar a tristeza, seja falando sobre o assunto, escrevendo ou apenas chorando.

Para deixar a leitura mais leve, missão complicada pelo tema, Camila se preocupou com o formato que seus textos chegariam até os leitores. O livro, com ilustrações e molduras que procuram acolher a história, é colorido e termina em pink um ano e um mês depois da perda de José, com o nascimento de Joana, sua terceira filha.

O projeto do livro está em uma plataforma de financiamento coletivo e já atingiu sua primeira meta financeira. Para saber mais sobre o livro, comprá-lo ou ajudar no projeto acesse o link www.catarse.me/pt/atebrevejose .

Veja ainda:
Como falar de morte com as crianças
O guia das perguntas difíceis

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.