Iniciativa do CineMaterna causou polêmica e foi questionada por pessoas que consideram o filme ousado; organização rebate e diz que crianças não prestam atenção na tela

A fila para a sessão das 14h10 da quinta-feira (26), no Cinemark Cidade Jardim, em São Paulo, era um pouco diferente das que os visitantes e os próprios atendentes do cinema estão acostumados. “O que é esse monte de carrinho de bebê?”, questionou um deles para o colega do outro lado do balcão, indicando um pequeno estacionamento que se formava no corredor das salas.

Essa era mais uma sessão do CineMaterna, projeto que leva mães e bebês para sessões especiais de filme no cinema. O furor dessa exibição específica foi mais do que justificado: por votação, as participantes elegeram “Cinquenta Tons de Cinza” como o filme do dia, para a alegria de umas - e indignação de outras.

Na página oficial do CineMaterna na internet, alguns comentários sobre o filme em questão condenaram a organização do evento e o posicionamento de mães que se interessaram pela ideia e levaram as crianças para o cinema. Longe do mundo virtual, porém, o clima era descontraído e natural, sem polêmicas ou discussões acaloradas. Muito pelo contrário. Muitas aproveitaram essa oportunidade para respirar e viver algo diferente do universo da maternidade, sem precisar deixar os pequenos em casa.

“No Brasil a gente não tem a cultura de acolher as mães e as famílias com crianças pequenas. Todo mundo te olha torto, como se passear com o bebê fosse um transtorno. Então, essa iniciativa é muito legal, porque já vale como uma experiência para mim e para a Olivia, que tem a chance de sair um pouquinho da rotina e se divertir”, explicou a advogada Isabela Gobbo Garcia, que sempre acompanhou as sessões especiais para mamães e bebês.

Para ela, o propósito do projeto é muito claro: entretenimento adulto para as mães, não para as crianças. Até porque, até os 18 meses, idade limite recomendada pela organização do CineMaterna, é mais difícil que os pequenos se concentrem nas telonas e aproveitem o filme. Muitos acabam dormindo já no início da sessão, embalados pela iluminação branda e o colinho quase imóvel das mamães, ou se distraindo com qualquer outra coisa que não a história do filme.

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“Recomendamos essa idade limite, mas sem nenhuma proibição. É que a partir dessa idade, é comum que as crianças já consigam andar e correr por conta própria. Então, é mais difícil ainda fazê-los sentar nas poltronas e prestar atenção no filme. O resultado é que os filhos ficam correndo pela sala e as mães não conseguem aproveitar o momento. Mas é apenas uma recomendação, independentemente da classificação etária do filme”, ressalta Taís Viana, co-fundadora do CineMaterna.

Comentários na internet criticaram a organização do evento: “Acho que é exagero
Edu Cesar
Comentários na internet criticaram a organização do evento: “Acho que é exagero", rebate Fernanda, que assistiu ao filme

Ajustes

Se os filmes não impactam os bebês de nenhuma maneira, por que filmes de terror são vetados do projeto? Esse foi um dos questionamentos de quem se posicionou contra a sessão especial “Cinquenta Tons de Cinza”. Nesse caso, segundo o CineMaterna, o problema não tem a ver com a narrativa ou o conteúdo do filme, e sim com os efeitos sonoros e visuais das películas, que podem assustar - e muito - as crianças.

Não é o caso do romance erótico protagonizado por Anastasia Steele e Christian Grey. O longa tem, naturalmente, momentos mais picantes, com nudez parcial dos atores e cenas de sexo, mas nada escancarado ou intenso demais para as mães presentes no cinema. O foco do enredo está nos obstáculos e dificuldades que envolvem o casal, não nas relações explícitas - que, nas telas, duram apenas alguns segundos.

Por essas e outras razões, o questionamento sobre a sessão de “Cinquenta Tons de Cinza” ser apropriada ou não caiu por terra para boa parte das mães. “Acho que é exagero. Algumas crianças até podem entender uma coisa ou outra, mas não nesse nível de gerar um trauma. É mais um filme de romance do que qualquer outra coisa, e tenho certeza que Antônio vai dormir durante o filme”, conta a advogada Fernanda Désio Senra, que levou o filho de um mês e meio para a sessão. Ela completa: “Também não é um filme violento, isso eu realmente não gosto e acho inadequado, porque pode assustar. Se a televisão em casa está ligada e isso acontece, eu abaixo o volume”.

Salas especiais

Pensando no conforto dos pequenos enquanto as mães se divertem, as salas escolhidas para as sessões têm uma preparação diferente das demais. No CineMaterna, as luzes mais brandas das laterais ficam acesas durante todo o filme. O som também é mais baixo do que o normal e o ar-condicionado não é tão congelante como de costume. Tudo isso cria o ambiente bastante agradável para as crianças. Mas algumas crises são inevitáveis.

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Aquelas resmungadas de bebê e choros repentinos são uma característica marcante da sessão. Ninguém pede silêncio ou reclama da sinfonia infantil, já que essa é uma situação absolutamente normal. Quando não estavam reclamando ou tentando chamar a atenção das mães, os pequenos cochilavam, se divertiam com joguinhos no celular ou brinquedinhos especiais. Nenhuma delas acompanhava o filme com interesse ou curiosidade.

A mãe Thamires Rodrigues Siminioto já imaginava que o filho Fabrício, de oito meses, não prestaria atenção em nada do filme - nem no romance, tampouco no erotismo. “A criança, na verdade, não assiste. Por mim não tem problema nenhum. Se fosse um pouco maior, poderia ser mais problemático, porque a criança já começa a prestar mais atenção. Mesmo assim, é bom que sejam filmes voltados para a mãe também, e não só infantil. A gente também quer sair, ver coisas diferentes. Nosso dia-a-dia já é 100% focado nos filhos”, pondera ela.

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