Mulheres contam como enfrentaram a chegada de dois bebês de uma vez só e o que fazer para deixar o dia a dia mais leve

Josie Pessoa interpreta Du na novela 'Império': mãe sofre depois do nascimento dos gêmeos
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Josie Pessoa interpreta Du na novela 'Império': mãe sofre depois do nascimento dos gêmeos

A gestação de gêmeos é envolta por teorias, lendas e um pouco de fantasia. Para muitos pais, criar duas crianças simultaneamente pode parecer desesperador. E é justamente nesse clima de insegurança e desespero que é retratado o drama vivido pela personagem Eduarda (Du), interpretada pela atriz Josie Pessoa na novela “Império”, exibida pela TV Globo. Na trama, a mãe de primeira viagem sofre uma profunda transformação ao dar à luz duas crianças, alternando entre momentos de alegria e angústia, por não conseguir se entregar completamente à experiência da maternidade.

Mesmo contando com o auxílio de duas babás, Du se vê sem rumo e completamente despreparada para lidar com os primeiros cuidados dos recém-nascidos. Nas redes sociais, é comum comentários ironizando a personagem e questionando se, na vida real, duas babás e a mãe não dariam conta de cuidar dos dois bebês.

Mas até que ponto é possível condenar as atitudes da personagem, como se tudo não passasse de um drama desnecessário e sem embasamento? Para mulheres que foram surpreendidas pela mesma experiência, nenhum momento da gestação de gêmeos deve ser encarado com tanto simplismo.

A publicitária Samantha Gavena, mãe dos gêmeos Téo e Melissa, que hoje têm cinco anos de idade, confessa que se identificou com a personagem global inúmeras vezes. A vontade de ser mãe sempre existiu, mas não obrigatoriamente de duas crianças ao mesmo tempo. Quando recebeu a notícia, Samantha sentiu-se assustada e encantada. Acompanhar a gestação dos gêmeos era uma experiência incrível, mas cercada de lendas e maus presságios.

Conhecidos disseram que as crianças nasceriam prematuras, que o parto provavelmente seria arriscado, bem como a recuperação da cirurgia. A sorte, segundo ela, foi contar com o apoio de um médico tranquilo, que a ajudou a deixar para trás inúmeros medos infundados. Entre eles, a obrigatoriedade de contar com o auxílio de uma babá nos primeiros meses de vida das crianças. Samantha achava que esse apoio não passava de uma “frescura” qualquer de mães despreparadas. Afinal, como é que dois recém-nascidos, que praticamente só comem e dormem, poderiam dar tanto trabalho?

Leia: Amamentação de gêmeos depende de estimulação adequada e descanso

“Eu sofri e tive umas crises como a personagem da novela. Tem gente que acha que é um exagero, eu mesma achava, mas me enganei. Eu não tinha um segundo sozinha e não conseguia nem lavar o cabelo, porque não dava tempo. E é uma eterna lei de Murphy, quando você vai fazer alguma coisa sozinha, um deles começa a chorar. Esse desespero só diminuiu quando eles entraram na mamadeira e outras pessoas puderam me ajudar, revezar a alimentação deles. Enquanto eles estavam na amamentação era puxado demais, uma demanda em tempo integral”, lembra Samantha.

"14 fraldas e 20 unhas"

Uma parte do desespero de Samantha se transformou em raiva - que foi estrategicamente direcionada ao marido. Ela se sentia mal por não poder voltar ao trabalho, sair de casa e conversar com as pessoas sobre temas que não envolvessem bebês, fraldas e mamadeiras.

“Lembro que uma vez ele chegou à casa e perguntou como tinha sido o meu dia. Respondi que tudo se resumia a trocar 14 fraldas e cortar 20 unhas, nada além disso”, conta ela, entre risos. A saída foi tentar levar tudo com muito bom humor e compartilhar dúvidas e anseios no seu blog, o Dois Pra Lá e Dois Pra Cá.

Assim, Samantha entendeu que outras mães passavam pelo mesmo sufoco que ela, e que tudo não passava de uma questão de tempo e de fases. Apesar da maternidade de gêmeos ser uma loucura no primeiro ano de vida, nem todo bebê é igual. Téo e Melissa eram crianças inquietas, que choravam muito, o que tornou a experiência da publicitária um pouco mais turbulenta. Mas, hoje, que eles são mais velhos e que Samantha voltou a trabalhar, o cuidado com os pequenos não tem mistério nem muitas dores de cabeça.

“Às vezes eu me cobro muito, por achar que não sou uma boa mãe para eles, já que não ficamos juntos 24 horas por dia. Mas quando eu ficava só em casa, me sentia muito mais desesperada, e essa angústia passava para eles. Hoje, essa rotina de atividades paralelas à criação deles acaba sendo mais saudável para nós todos. Ter um papel além do de mãe em tempo integral faz com que a gente a se sinta menos engolida pela maternidade”, acredita Samantha.

A designer Thais é mãe dos gêmeos Felipe e Lucas, que hoje têm três anos
Arquivo pessoal
A designer Thais é mãe dos gêmeos Felipe e Lucas, que hoje têm três anos

Tudo em dobro

Parece óbvio, mas cuidar de gêmeos dá realmente o dobro de trabalho. Adaptar-se à rotina dos cuidados básicos das crianças facilita o processo, mas tudo precisa ser feito pelo menos duas vezes - quando não mais. E as demandas nunca deixam de existir, só se transformam com o passar dos anos e o crescimento dos filhos. Essa foi a principal dificuldade que a designer Thais Cechini, autora do blog Portal do Gêmeos, sentiu nos primeiros anos dos filhos Felipe e Lucas, que hoje têm três anos.

Para ela, o sentimento de despreparo é comum a todas as mulheres que vivenciam pela primeira vez a gestação de gêmeos ou múltiplos. Thais lembra que amigos e familiares sutilmente a aconselharam a contratar uma babá, que a ajudasse nos primeiros meses. A medida não deu certo e a designer resolveu cuidar dos pequenos por conta própria, em tempo integral.

“É difícil lidar com duas novas vidas tão imediatamente. Era complicado ficar com os dois no colo, amamentar simultaneamente e todos esses cuidados básicos. Eu não conseguia dormir, porque eles precisavam de mim o tempo todo. Lembro que cheguei a passar 48h acordada, só cuidando deles. Vejo as fotos de quando eles tinham um ano e o cansaço estava estampado na minha cara”, conta Thais.

Sair de casa também era uma missão impossível. Por isso, os passeios com os gêmeos eram restritos à área comum do condomínio onde a família mora. Situações como essa geram uma sobrecarga não só física, como também emocional nas mães de primeira viagem. O peso da responsabilidade pela vida de duas crianças, que dependem integralmente do bem-estar da mãe, faz com que sentimentos e emoções aflorem com mais frequência do que o normal. Por isso, o desespero não é algo de outro mundo, pelo contrário.

“Isso acontece com qualquer mãe. É que aquelas que têm um filho só e contam com ajuda de familiares, conseguem lidar um pouco melhor, porque dá para respirar mais. Com as mães de gêmeos é diferente. Nos primeiros momentos, é muito difícil saber o que fazer com aquelas duas crianças, mesmo que exista a intuição materna. Outra coisa é que o amor incondicional pelo bebê nem sempre acontece no primeiro momento, como vendem para nós”, pondera Thais.

O ideal de uma maternidade plena, colorida e 100% feliz é responsável por algumas frustrações que as mães vivenciam depois do nascimento das crianças. Thais acredita que esse é um medo muito recorrente no universo dessas mulheres: ninguém gosta de falar sobre as decepções, imperfeições e dificuldades que fazem parte do dia a dia de todas as famílias. Ser mãe é ser imperfeita. Abraçar essa ideia é um jeito de lidar melhor com todas as dificuldades, se cobrando cada vez menos.

“A maternidade é a oportunidade de largar um passado de culpa, para começar uma vida nova, literalmente. Deixamos de lado as minúcias do passado e do amanhã. Eu mesma tinha esse sentimento, de achar que precisava lidar com tudo sozinha. Com duas crianças, tive que mergulhar nesse universo, sem outra opção. Aprendi a viver um dia de cada vez, acordar, dar bom dia para crianças e cuidar delas, sem pensar em mais nada. Descobri que nós somos mais felizes assim, embora seja difícil”, acredita ela.

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