Comprar presentes e cobrar notas altas de forma exagerada podem ter um efeito negativo e transformar a escola em um ambiente angustiante

Pedro enfrenta dificuldades nas primeiras semanas de aula para se separar da mãe
Edu Cesar
Pedro enfrenta dificuldades nas primeiras semanas de aula para se separar da mãe

Para as crianças, a volta às aulas é marcada por uma inquietação natural. É um momento de transição, com novas experiências e realizações, ao mesmo tempo em que a “vida boa” das férias fica para trás. Algumas não veem a hora de reencontrar os amigos e professores. Para outras, porém, a mudança não é tão simples e festiva assim. Nesses casos, birra e crises de choro são comuns, estimuladas pela própria ansiedade e tensão dos adultos.

Tudo vai depender da maneira como a família lida com essa mudança na rotina, garantem os especialistas. O clima tenso pode passar a impressão de que ir para a escola é vivência dolorosa e desagradável, longe dos cuidadores. Por isso, é normal que as crianças se sintam desestimuladas e inseguras para voltar à rotina. Se essa passagem é tratada de forma mais natural e positiva, por outro lado, a experiência escolar é vista como algo divertido.

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“O que os pais devem fazer é tentar ficar na escola com as crianças, nos primeiros dias de aula, por pelo menos alguns minutos. Não só deixá-las na porta e ir embora. Quando a criança se sente segura e reconhece o momento do desligamento familiar, ela fica mais confortável na escola. Esse acolhimento dá a segurança de que tudo está caminhando no tempo correto”, explica Ana Maria Damiani, psicopedagoga e coordenadora da Escola de Educação da Anhembi Morumbi.

Uma postura muito comum e que estimula a insegurança nos pequenos é o distanciamento dos pais. O desinteresse pela escola e pelo cotidiano escolar faz com que eles se sintam à deriva, sozinhos em uma experiência que depende do apoio e suporte dos adultos. A escola é a extensão do ambiente familiar, por isso a participação ativa no dia a dia dos filhos faz toda a diferença no ano escolar como um todo, não só na volta às aulas.

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“A primeira coisa que você precisa saber é o nome da professora do seu filho, mesmo que seja no jardim de infância. É preciso perguntar sobre os amiguinhos, as atividades recreativas e o que a criança está aprendendo. Em longo prazo, esses pequenos cuidados tornam a vida escolar da criança mais produtiva e feliz”, reforça Ana Clarisse Barbosa, pedagoga e coordenadora do Núcleo de Pedagogia da Uniasselvi.

Essa postura atenciosa deve existir logo no começo da vida escolar da criança, ainda no jardim de infância. Nessa fase, há a predominância de atividades lúdicas, como brincadeiras sobre formas geométricas e cores, mas que nem por isso devem ser menosprezadas. Incentivá-la nesse período faz com que os desafios das próximas etapas sejam assimilados com mais facilidade.

“Os pais precisam motivar os seus filhos desde cedo, sim, mas com moderação e responsabilidade. Cada criança é única e tem uma capacidade específica para suportar as pressões do dia a dia escolar. A aprendizagem não é uma mera acumulação ou repetição de conhecimento. É um processo de construção. A criança aprende antes mesmo de ir para a escola”, pontua Ana Clarisse.

Monica procura reforçar aspectos positivos do ambiente escolar para o filho Pedro
Edu Cesar
Monica procura reforçar aspectos positivos do ambiente escolar para o filho Pedro

Exigências

É quase impossível encontrar uma criança que goste de ser cobrada e pressionada pelos próprios pais, principalmente quando o motivo da preocupação dos adultos não é compreendido facilmente. Se esse peso é transferido à vida escolar, os prejuízos podem ser ainda maiores. A criança tenta atender às expectativas dos pais no ambiente escolar e pode se frustrar, perdendo o prazer e o interesse em estudar.

Por isso, vale evitar comentários que estimulem a competição na escola ou reforcem a importância de notas altas em detrimento de outras conquistas, tanto no começo do ano como ao longo dele. Essa atitude não significa deixar as notas ou os trabalhos de lado. É preciso acompanhar o desempenho escolar dos filhos, mas ele pode ser observado em outros aspectos, além das notas. Isso vale principalmente, alertam especialistas, para os menores.

“Na educação infantil o que realmente importa é o lúdico, competências e habilidades relacionadas à criatividade. Não é adequado exigir o oposto da criança, porque torna a experiência acadêmica mais angustiante. Muitas vezes, uma nota não satisfatória dos filhos coloca todo um peso negativo nesse processo de alfabetização. Eles não podem esperar apenas notas dez”, pondera Ana Maria Damiani.

Primeiras semanas

Pedro, de quatro anos, sempre pergunta à mãe Monica Rentroia quando a vida escolar terá um fim. “Quando ele me fala que a escola é chata e essas coisas, explico que é lá que ele vai aprender a ler e escrever o nome dele. Essas são coisas que ele sente muita vontade de fazer, por exemplo. Ele prefere as atividades de recreação da escola, claro, mas eu explico que ele precisa saber tudo isso para crescer e ser adulto. Ele entende e fica com vontade de aprender”, conta Monica.

As primeiras semanas de aula são um pouco mais complicadas para Pedro, explica a mãe. Durante as férias, eles passeiam juntos com frequência, algo que dificulta a separação com o retorno das aulas. Mesmo assim, Monica lembra ao filho que a escola possibilita o reencontro com amiguinhos e professores, aliviando a saudade e ansiedade do ano escolar. Tudo com muita naturalidade e clareza, sempre, de modo que a ideia de voltar para a escola seja algo normal.

Segundo Ana Maria Damiani, outra postura problemática é a da barganha. Alguns pais tentam recompensar a tristeza da criança com presentes e passeios, comprometendo o verdadeiro aprendizado. Assim, os pequenos não aprendem que a escola, bem como o ato de estudar, são fases importantes da vida que não podem ser motivo de negociação.

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