“Meu primeiro filho nasceu de cesárea. É perigoso tentar o parto normal na segunda gestação?” e "A cesárea só poderá ser realizada em gravidez de risco? ” são algumas delas; veja outras

Com novas regras, apenas a opinião do médico não será suficiente para justificar o procedimento cirúrgico
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Com novas regras, apenas a opinião do médico não será suficiente para justificar o procedimento cirúrgico

O Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Saúde (ANS) publicaram, no início de janeiro, uma resolução com novas regras para estimular o parto normal na rede privada , restringindo a cobertura de cesárea pelos planos de saúde. Dados mostram que o índice de cesáreas é de 84,6% nos hospitais particulares brasileiros. O percentual está bem acima dos 15% recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A medida do governo visa reduzir esse índice e conscientizar melhor a população sobre as vantagens e riscos de cada tipo de parto. Porém, muitas dúvidas ainda cercam a cabeça de mulheres que planejavam o procedimento cirúrgico ou estão inseguras quanto ao parto normal. Em entrevista ao Delas , três especialistas esclarecem as principais questões das gestantes. Leia a seguir:

1 - Meu primeiro filho nasceu de cesárea. É perigoso tentar o parto normal na segunda gestação?

A mulher que já fez uma cesárea tem plenas condições de ter um parto normal na segunda gravidez.

“O medo dessas mulheres vem do risco de ruptura do útero, com hemorragia interna. Estudos mostram, porém, que esse risco é muito baixo. Vale lembrar que cada vez que operamos uma mulher, aumentamos outros riscos, igualmente perigosos para a saúde da mãe e do bebê”, explica o ginecologista e obstetra Jorge Guimarães.

Segundo ele, os sinais de perigo podem aparecer quando começa o trabalho de parto da gestante. Se houver alguma anormalidade e o obstetra achar arriscado demais, a cesárea pode ser feita sem nenhum problema. Ela já é uma garantia emergencial para a mãe e o bebê. Por isso, a tentativa do parto natural pode ser levada adiante, com o devido acompanhamento médico.

2 - Há exames que podem comprovar a necessidade de cesárea?

Uma série de determinações pode indicar que a cesárea é o melhor tipo de procedimento para a gestante e para o bebê. Entre elas, a posição da criança no útero ou mesmo a dilatação da gestante quando começa o trabalho de parto.

“Em alguns casos, só é possível determinar o tipo de parto depois que as contrações começam. Se a gravidez estiver correndo dentro do esperado, mesmo que a mãe tenha alguma patologia, o parto ainda pode ser normal, desde que os sintomas estejam sob controle. A grande questão é que, a partir de agora, as cesáreas precisarão de justificativa médica. Não devem ser planejadas apenas por comodidade”, afirma Domingos Mantelli, ginecologista e obstetra.

3 - Se eu entrar em trabalho de parto e for para o hospital, posso ser atendida por plantonistas e não pelo meu médico de confiança?

Qualquer profissional que esteja de plantão está habilitado para atender a gestante quando o médico que acompanhou a gravidez não tenha disponibilidade. No Brasil, essa cultura do “médico de confiança” é muito forte, mas não quer dizer que outros profissionais não têm a mesma competência.

“A mulher que passa pelo trabalho de parto é analisada pelo plantonista, que então entra em contato com o médico para explicar o que está acontecendo. Ela pode confiar. Se não der tempo do obstetra dela chegar, esse plantonista tem total capacidade de realizar o parto, seja ele normal ou cesárea. Eles têm um certificado de residência e de especialização para atuar nessa área”, pondera Paula Bortolai, médica ginecologista do Instituto Paulista de Ginecologia e Obstetrícia.

4 - Existirá uma cartilha específica para justificar quais partos podem ser cesárea ou a palavra do médico bastará?

A opinião do médico não será suficiente para justificar o procedimento cirúrgico. Um simples comentário sobre a bacia da mãe ou o “medo de arriscar” precisam estar devidamente justificados no partograma (documento que vai conter as informações de todo o pré-natal da gestante), com evidências médicas de que o parto natural pode ser arriscado demais para a gestante.

“O que está acontecendo é uma grande campanha de esclarecimento, para estabelecer novas regras. Uma desculpa aleatória do médico vai chamar atenção por não conseguir justificativa, e evidentemente será penalizada. Por isso, é necessário um trabalho de reeducação dos médicos e readaptação do profissional. É uma nova tomada de consciência”, acredita Jorge Guimarães.

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5 - Como os médicos irão lidar com tantos partos normais? Eles estão preparados?

Parto normal e cesárea são procedimentos completamente diferentes. Enquanto o normal pode durar mais de 10 horas, dependendo do trabalho de parto da gestante e das condições do bebê, a cesárea dura em média duas horas, seguindo o protocolo tradicional.

“Todo ginecologista obstetra tem condições de realizar os dois partos. O profissional não termina a residência médica e a especialização sem aprender os procedimentos. O que varia é a preferência de cada um. Se a mãe não se sente segura, o caminho é pedir indicações de profissionais que já tenham realizado um bom número de partos naturais”, observa Paula Bortolai.

6 - Se o plano disser que não houve justificativa para a cesárea, todas as despesas da cirurgia deverão ser arcadas pela mãe?

Segundo Domingos Mantelli, essa insegurança pode ser descartada pela gestante e sua família. “A mãe tem, sim, cobertura do plano de saúde . Quem pode acabar não recebendo é o próprio médico, já que ele é reembolsado pelo convênio. A mãe não gasta absolutamente nada, vira uma questão entre o médico e o plano de saúde”, explica.

7 - A cesárea só vai acontecer em casos extremos, como gravidez de risco?

Não necessariamente, já que a gravidez de risco não determina obrigatoriamente a intervenção cirúrgica. Tudo depende de como a gestação caminha e do estado de saúde da mãe.

“Gravidez de risco não significa cesárea. Há casos e casos e tudo depende do controle do estado da gestante. Quem define isso é o obstetra, ao longo da gestação, não a patologia única e exclusivamente. Então, uma gestante com diabetes ou hipertensão controladas pode ter um parto normal sem nenhum problema”, explica Domingos.

8 - Os hospitais e maternidades brasileiros estão prontos para essa medida?

Muitas coisas ainda precisam ser revistas para que medida consiga reduzir o número de cesáreas feitas no Brasil, atendendo às necessidades das gestantes em primeiro lugar. Essa conscientização também precisa passar pela estrutura disponível para as mulheres no nascimento do bebê.

“Os hospitais e maternidades não estão preparados para isso. A diferença entre sala de parto e centro cirúrgico é enorme. Além disso, um parto normal pode durar mais de 12 horas, enquanto a cesárea dura apenas duas. Isso exige um comprometimento maior do obstetra. É preciso ter uma equipe de plantonistas para conseguir atender todas essas mulheres, sem colocá-las em risco. Não é do dia para a noite que essa mudança ocorrerá”, acredita Paula Bortolai.

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