Embora lidar de forma natural com a nudez possa estreitar laços de confiança entre pais e filhos, adultos devem respeitar quando crianças derem sinais de desconforto com a situação

No Brasil, falar sobre nudez não é algo tão improvável e proibido assim. Festas populares e programas diurnos na televisão celebram o corpo com razoável naturalidade. O cenário muda, porém, quando os envolvidos convivem no âmbito familiar. É saudável que pais e filhos compartilhem momentos de nudez, dentro da própria intimidade?

A resposta para a questão varia de acordo com a cultura de cada família. Adultos que tiveram uma criação mais aberta em relação ao tabu da nudez tendem a educar os filhos da mesma maneira, sem muitas proibições. O que deve prevalecer, em qualquer um dos casos, é o bom senso.

Do mesmo jeito que é saudável tratar a nudez como algo natural, é importante reconhecer que algumas crianças não gostam de ter a intimidade exposta dessa maneira
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Do mesmo jeito que é saudável tratar a nudez como algo natural, é importante reconhecer que algumas crianças não gostam de ter a intimidade exposta dessa maneira


“É preciso que os pais encarem isso com naturalidade, para orientar as crianças da mesma maneira. Eles precisam estar em acordo sobre o posicionamento em relação à nudez. É desaconselhado que conversem com os filhos sob pontos de vista diferentes, pois os pequenos podem ficar ainda mais confusos com um assunto que é delicado”, acredita José Gabel, presidente do Departamento Científico de Pediatria Ambulatorial da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

Liberdade

Para uma criança, nos três primeiros anos de vida, a nudez é completamente natural. Não existe desconforto ou questionamento moral, já que os pequenos não enxergam nenhuma diferença entre os próprios corpos e os dos pais. Tomar banho e trocar de roupa ou de fralda são situações cotidianas para eles.

“A criança só vai ficar incomodada por volta dos seis anos. É a partir daí que ela fica um pouco mais inibida e não quer tirar a roupa na frente dos pais. Isso acontece porque, nessa idade, os filhos já estão no ambiente escolar. A convivência com outras crianças faz com que eles entendam a diferença entre meninos e meninas, o que causa um pouco mais de vergonha”, explica Monica Pessanha, psicoterapeuta infantil.

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As crianças que têm a oportunidade de crescer em um ambiente familiar aberto ao diálogo e à nudez se desenvolvem de um jeito mais positivo e construtivo. Isso porque o “estar nu” perto dos pais fortalece a intimidade e estreita os laços de confiança entre os membros da família. “Essa criança se torna mais desinibida e extrovertida. Ela também aprende a lidar com outras pessoas com menos impulsividade”, reforça Monica Pessanha.

Na casa de Silma Matos, mãe da Mikaela, de seis anos, ficar nu nunca foi motivo de vergonha. Depois que a menina entrou na escola, a relação com a nudez mudou um pouco, mas não por constrangimento. Foi quando que Mikaela compreendeu melhor o que é ter intimidade e por que não pode ficar sem roupa na frente de outras pessoas.

“Teve uma época em que ela só queria ficar pelada, então tínhamos o cuidado de que nunca fosse perto de outras pessoas. Eu e o pai vemos a Mikaela como nossa filha, mas não dá para ter certeza de como os outros vão enxergá-la, se é com maldade ou não”, afirma Silma.

Esse é o bom senso que deve acompanhar a decisão de discutir a nudez em casa. Para a psicoterapeuta Monica Pessanha, as crianças precisam ser ensinadas que esse é tipo de situação que só pode existir dentro de casa, com os familiares. Na casa do amiguinho, de jeito nenhum.

Respeito

Quando os filhos começam a apresentar sinais de que estão desconfortáveis com essa situação, é o momento de parar e respeitar os limites de cada um. Do mesmo jeito que é saudável tratar a nudez como algo natural, é importante reconhecer que algumas crianças não gostam de ter a intimidade exposta dessa maneira.

Algumas atitudes, embora sutis, podem servir de alerta. “Mesmo que a criança não consiga verbalizar o próprio desconforto, ela apresenta uma linguagem corporal negativa. Então, ela começa a se esconder, evitar contato visual, foge dos pais e desconversa quando o assunto é sobre nudez. Se os pais ficam nus em casa, ela também pode evitar a aproximação, preferindo ficar reclusa no quarto”, reforça Erica Aidar, terapeuta familiar e life coach.

Passar por cima das vontades da criança pode desencadear uma série de consequências negativas em longo prazo. O ato de ignorar representa uma agressão para os pequenos, que se sentem desrespeitados pelos próprios pais.

“A criança pode vir desenvolver algum tipo de patologia, como a depressão infantil. O entristecimento é natural, já que ela não se sente acolhida pelos adultos. Então, ela passa a ter um comportamento agressivo na escola e demonstra uma certa rejeição aos pais, evitando qualquer troca de afeto. O respeito é o que a criança mais precisa sentir na infância”, explica Monica.

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