Normalmente associada a adultos, atividade física feita por meninas pequenas enfrenta críticas e inspira cuidados

“Eu consigo colocar o pé na minha cabeça. Quer ver?”, pergunta Lara, de apenas cinco anos. Ela se desdobra em posições complicadas e doloridas para qualquer adulto, como se fosse feita de massinha. A elasticidade e flexibilidade de Lara são alguns dos resultados do pole kids, modalidade infantil do pole dance.

Entre os adultos, o pole dance é prontamente associado a uma dança erótica, mas a prática pode ter outro foco. Já existem campeonatos profissionais para atletas, tantos homens como mulheres, que levam em conta apenas o treinamento esportivo. Nas Olimpíadas de 2016, existe a possibilidade do pole dance ser classificado como uma modalidade específica, dependendo ainda da aprovação do Comitê Olímpico Brasileiro.

O trabalho realizado com as crianças, por exemplo, é focado exclusivamente no esporte, assim garante a instrutora Nath Diniz, da Escola Internacional de Pole Dance, em São Paulo. Durante a aula, os alunos aprendem a escalar a barra fixa de ferro e a se sustentar apenas com a força das pernas, sem as mãos.

A barra giratória é a favorita das crianças. Nela, é possível fazer manobras como o “bumerangue”, girando em torno da barra diversas vezes. É quando Lara mais se diverte, deslizando como se pesasse menos do que uma pluma.

Olhar atento

Todas as performances da pequena acontecem sob os olhares atentos da mãe, Ana Carolina de Castro, e da instrutora. Ana Carolina é atleta da modalidade há mais de um ano e já participou do Campeonato Brasileiro de Pole Dance. Lara sempre observou os treinos da mãe, mas só começou a praticar de verdade há alguns meses, quando Ana Carolina instalou uma barra profissional em casa.

“Para ela, é pura diversão, nada mais que isso. Ela se sente superconfiante quando consegue fazer uma posição mais difícil e me mostra os bracinhos musculosos”, conta Ana Carolina. Lara treina na escola sempre aos sábados, por uma hora. Em casa, a mãe pega mais leve e só passa exercícios duas vezes por semana.

Gabriely, de sete anos, também tem energia de sobra para escalar e se sustentar na barra de ferro, só com a força das pernas. Ela ainda se sente insegura em relação às posições mais radicais, como quando é segurada de ponta cabeça pela instrutora, na barra vertical.

Lesão

As meninas sempre contam com o apoio da instrutora para arriscar acrobacias mais perigosas. Nath Diniz, que trabalha com pole dance especializado em fitness há mais de quatro anos, se divide entre as alunas para deixá-las confiantes.

“Nessa faixa etária, até os sete anos, elas têm receio de se machucar. Todo cuidado é pouco porque o corpo das crianças ainda está em desenvolvimento”, alerta a instrutora.

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Por isso, o aquecimento é fundamental. As alunas flexionam braços, pernas e correm pela sala de exercícios. O alongamento de verdade só é orientado pela instrutora no final da aula de pole, quando o corpo está aquecido. Mesmo com os cuidados, alguns machucados acabam sendo inevitáveis.

Lara começou a fazer pole kids depois que a mãe instalou uma barra profissional em casa
Edu Cesar
Lara começou a fazer pole kids depois que a mãe instalou uma barra profissional em casa

“Nenhum esporte tem zero risco de lesão, seja para adultos ou crianças. Os pais devem estar conscientes disso para evitar a superproteção dos pequenos. Nessa idade, eles têm um poder de recuperação imenso. Quanto mais estimularmos esse senso de independência nos filhos, maior será a autoconfiança deles”, pondera Jomar Souza, diretor da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte.

Para a pediatra Wylma Hossaka, do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, os pais devem verificar se há equipamentos de proteção ao redor da barra, como colchonetes, para amortecer possíveis quedas.

”Outra ressalva é em relação a lesões da fibra muscular ou deslocamento da cartilagem. Isso pode prejudicar o crescimento infantil. Se a criança reclamar de dores musculares ou nas articulações, pode ser um sinal de que o treino está muito puxado e é hora de parar”, observa a especialista.

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Como em qualquer outra atividade física, o corpo sente os esforços e responde. Com a melhora do condicionamento físico, as alunas ganham mais resistência, flexibilidade e equilíbrio. Os músculos também ficam tonificados.

A flexibilidade, porém, não é garantia de força. O corpo das crianças ainda não aguenta movimentos pesados. Por isso, treinos de força ficam para pré-adolescentes e adolescentes.

Sensualidade

Lara e Gabriely encaram as aulas de pole com a inocência típica das crianças. Não se incomodam com os cabelos bagunçados ou as performances atrapalhadas, que nunca saem exatamente iguais às da instrutora. De sensual e erótico, as aulas não devem ter nada.

“Hoje, os pequenos têm um acesso facilitado à informação. Então, podem tentar reproduzir durante a aula alguns movimentos mais sensuais. Cabe aos adultos e aos profissionais colocarem um limite no pole kids. A linha que separa o esporte da sensualidade é muito tênue e merece atenção”, acredita Wylma Hossaka.

Nath Diniz acredita que existe muito preconceito em torno do pole dance, até mesmo com os adultos. Para ela, o segredo está no cuidado com o preparo das aulas, para evitar que qualquer atitude mais sensual seja imitada pelas crianças. Até mesmo a seleção musical escolhida é diferente, com hits infantis que fazem parte do cotidiano dos alunos.

Tatiane Dantas da Cruz, mãe de Gabriely e praticante do pole dance tradicional, não precisou lidar com comentários negativos quando resolveu inscrever a filha nas aulas temáticas. Ana Carolina, mãe de Lara, não teve a mesma sorte.

“Quando eu comecei a fazer pole dance, as pessoas ficaram chocadas. Perguntavam como é que meu marido lidava com isso. Foi ainda pior quando viram que a Lara começou a fazer aulas de pole kids. Algumas pessoas me disseram que era um absurdo permitir que uma criança fizesse essa ‘coisa de adulto’”, lembra Ana Carolina.

De quem é a barra?

Apesar das críticas e rótulos, a instrutora faz questão de ressaltar que o esporte tem aspectos positivos que vão além do preparo físico. A socialização é um deles. As crianças são colocadas em pares nas barras, para se revezar entre os giros e as performances com escalada. É aí que elas aprendem a respeitar o momento da outra pessoa.

Esse lado social ficou bem mais evidente em Gabriely depois que as aulas de pole começaram, acredita a mãe. “Antes, ela tinha vergonha de tudo, até de falar. Agora, está bem mais comunicativa, interagindo com as outras pessoas e crianças”, explica Tatiane.

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