Alertar sobre os efeitos nocivos da droga é fundamental, mas é importante também falar sobre o prazer que ela gera para evitar quebra de confiança entre pai e filho

A adolescência é o melhor momento para conversar sobre drogas, mas o tema pode ser mencionado antes
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A adolescência é o melhor momento para conversar sobre drogas, mas o tema pode ser mencionado antes

Notícias e conversas sobre maconha estão cada vez mais frequentes no cotidiano não só das famílias brasileiras como em diversas partes do mundo. O Uruguai se tornou o primeiro país a legalizar desde o plantio até o consumo da erva, e estados dos EUA, como Washington e Colorado, deram um passo a diante no consumo legal com fins recreativos. No Brasil, a discussão ainda está devagar e tanto o cultivo quanto a venda são proibidos, apesar de o porte da substância para uso próprio ser descriminalizado.

Mas mesmo o assunto ainda sendo tabu no País, o uso da Cannabis sativa (nome científico da maconha) precisa ser discutido entre pais e filhos. E a adolescência é o melhor momento para fazer isso. O impasse acontece, no entanto, quando os pais são usuários da droga. Muitos deles sentem-se culpados e, para não influenciar os filhos, preferem fumar escondido ou não contar que usam maconha.

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“A adolescência é um período de muitas dúvidas e, de alguma forma, as curiosidades serão satisfeitas. O melhor é o diálogo acontecer em casa, com os pais explicando por que bebem ou fumam, sempre discutindo os valores, os sentidos e as regras que cercam tal consumo”, diz Maurício Fiore, antropólogo e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Orientação

Na casa da socióloga e ativista Ronete Rizzo, 57, a família nunca soube que ela fazia uso da droga, pois evitava fumar na frente deles. Apesar de ser a favor da liberação da maconha no Brasil, não queria ver os filhos envolvidos com qualquer tipo de vício. Mas a conversa sobre drogas aconteceu logo na adolescência dos jovens. “É importante esclarecer o que é o mundo das drogas para não deixar os filhos serem envolvidos por falta de conhecimento. Essa conversa aumentou o nível de cumplicidade e confiança entre nós”, diz.

A perspectiva da orientação, no entanto, mudou após o filho de 20 anos e a filha de 21 revelarem que também faziam uso da erva. “Sempre senti falta de um diálogo maior com os meus pais e me orgulho em saber que isso não aconteceu com os meus filhos”, diz. “Eles começaram a fumar porque quiseram, sabiam perfeitamente quais seriam os efeitos e as consequências.”

A relação entre pais e filhos deve ser baseada na confiança e na troca diária de afeto, por isso, tamanha importância de se ter o jogo aberto em casa. Segundo Marcos Meier, psicólogo e educador, não é apenas uma única conversa que resolve a questão. O ideal é começar o papo sobre drogas ainda na infância, mesmo sem expor claramente o tema, e continuar falando sobre o assunto até o crescimento do filho.

“Alerte sobre os efeitos da droga, os aspectos nocivos e suas consequências, fisiológicas e legais. Entretanto, é fundamental contar também que ela gera prazer, o que evitará a quebra de confiança caso o jovem experimente”, afirma.

Exemplo

A fase da adolescência requer ainda um cuidado maior entre os pais usuários. “O comportamento deles será a melhor forma de ensinar e dar o exemplo. Não adianta recriminar o filho se a cultura de usar drogas for mantida em casa”, afirma Maria Alice Fontes, psiquiatra e especialista em neuropsicologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). “Vale ressaltar que o cérebro do adolescente está em formação até próximo dos 20 anos, período onde os efeitos das drogas são muito mais nocivos.”

A escritora M.P.*, 40, preferiu não esconder da filha que era usuária de maconha e sempre conversou abertamente sobre o tema em casa. “Minha filha pertence a uma geração com vontade de experimentar e conhecer tudo. Sempre falei com ela sobre diversos tipos de assuntos: sexo, drogas e política. Nunca fumei escondido porque quis fortalecer a relação de confiança, sem manter segredo”, afirma. Apesar de não ter tido uma conversa pontual sobre a droga, M.P. revela que a abordagem do assunto aconteceu de forma natural. “Tenho um amigo que escreveu um livro sobre o tema e conversávamos muito em casa, além disso, na escola ela já recebia algumas orientações, apesar de um tanto conservadoras”, diz.

A questão ganhou novos ares quando a filha contou também ser usuária. “Não acho que a influenciei. Foi algo tranquilo, ela já tinha conhecimento e via os amigos da escola fumarem. Talvez pelo fato de sempre ter me visto com o cigarro, não tenha tido preconceito”, conta. “Acho importante o interesse sobre a maconha vir dos filhos porque quando acontece o oposto eles ficam com a impressão de que é bronca e não um direcionamento.”

Regras claras

A percepção de que o momento mais indicado para falar sobre drogas é quando o adolescente perguntar é defendida também pela psicóloga Maria Alice. “Nesta fase, eles estão mais preparados e a conversa acontece naturalmente”, afirma. “As perguntas devem ser respondidas de maneira direta e objetiva, explicando que a maconha pode causar reações diferentes em cada pessoa. Uns têm vontade de rir, outros sentem tristeza, mas a maioria tem ilusões e alucinações que mostram uma perturbação da mente”, afirma.

A especialista ressalta ainda a importância de os pais estabelecerem regras claras com os filhos e proporcionar o aprendizado sobre limites e frustações. “O adolescente sem a proteção da família não sabe lidar com as frustrações, e apresenta grandes chances de desenvolver o uso indevido destas substâncias”, diz. “Isso acontece porque as drogas surgem como ‘solução mágica’, acabando com os sentimentos ruins por alguns instantes, sem a necessidade de esforços maiores.”

O estudante e designer gráfico R.C.S.*, 23, é usuário de maconha e, apesar do filho ter apenas um ano, já pensa sobre como falar do assunto. “Pretendo conversar com ele assim que completar 13 anos. Não irei parar de fumar e nem abordarei o tema de modo conservador. Acredito que somente com o auxílio dos pais a criança não se vicia em drogas mais pesadas”, diz.

O antropólogo Maurício Fiore auxilia os pais na mesma situação do estudante e aconselha como deve ser essa conversa. O melhor caminho, segundo ele, é afastar tabus e respostas absolutas. “É fundamental estar bem informado e não dar respostas como ‘faça isso ou não faça aquilo porque é certo ou errado’, já que tais atitudes apenas recriminam. Além disso, busque desenvolver a noção de responsabilidade no jovem, indicando que a liberdade dele implica no dever permanente de lidar com as consequências dos atos que pratica”, diz o antropólogo.

*Os nomes foram preservados a pedido dos entrevistados

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