Afeto (físico e verbal) interfere diretamente no desenvolvimento dos filhos – e a falta dele pode ter consequências severas em curto e médio prazo

Abraços, beijos e falar “eu te amo” nunca estão em falta na casa da publicitária Miche Kretschmer, mãe de Isadora, 11, e de Alícia, de quatro anos. “A Isa é mais na dela e, com a pré-adolescência chegando, não quer muito ‘nhenhenhém’, mas sempre diz que me ama, que ama o pai, dá boa noite com carinho. Já a Alícia é mais fofinha, vive nos beijando, abraçando, pedindo cosquinha e ‘me cheira’, fazendo a lista de todos que ama. Elas têm personalidades diferentes, mas o carinho que recebem e dão é o mesmo. E é bastante”, conta.

>> Veja atitudes do dia a dia que demonstram o carinho dos pais pelos filhos:

O afeto da família se faz notar no comportamento das garotas. “Elas são seguras, sabem expressar seus sentimentos, deixar claro do que gostam e do que não gostam. E, de certa forma, isso facilita a comunicação com a Isa nessa fase da puberdade”, diz.

Consequências

A segurança mencionada por Miche é o principal ganho das crianças que recebem carinho dos pais, algo que ajudará a moldar suas personalidades. “O afeto recebido na infância, desde o primeiro dia de vida, é a base da autoestima e direciona todos os vínculos que o indivíduo terá na adolescência e na fase adulta”, afirma a Gestalt-terapeuta Nilce Cattassini, especializada em desenvolvimento cognitivo.

Leia também: Carinho dos pais na infância molda o cérebro das crianças

A psicóloga Camila Aloísio Alves, doutora em saúde da criança pelo Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), explica que, além disso, o carinho estimula a produção neurológica infantil: “Ele é estruturante tanto para a psique quanto para as conexões cerebrais. Crianças que o recebem de seus pais fazem mais sinapses e têm mais conexões do que as que são privadas dele”.

“O carinho pode ser ilimitado, desde que venha acompanhado pela estipulação de limites
Thinkstock/Getty Images
“O carinho pode ser ilimitado, desde que venha acompanhado pela estipulação de limites", aconselha especialista

Isso repercute no desenvolvimento motor desde muito cedo. “A autopercepção fica mais aguçada e a criança consegue progredir em seus movimentos com muito mais facilidade quando recebe carinho físico – abraços, beijos, afagos. Quem não é ‘embalado’ na infância costuma apresentar muito mais dificuldade para ações como andar, correr e andar de bicicleta”, exemplifica Nilce.

Paralelamente, o carinho verbal – elogios, palavras doces e diálogo – atua na formação do repertório infantil. Nilce diz que “a criança tem a comunicação estimulada e conquista um vocabulário emocional mais apurado, consegue dizer o que sente, diferentemente daquela que não ouve um afago oral e fica mais travada”.

Mas, para que surta efeito, é necessário que o carinho seja constante. “A chamada ‘afetividade flutuante’ torna a criança insegura e dependente. Nesses casos, como não é sempre que os pais se mostram carinhosos, o filho ficará grudado neles o tempo todo, por achar que, se descuidar, perderá o momento de carinho. Não tem como adquirir autoconfiança dessa maneira”, destaca a Gestalt-terapeuta.

Veja também:
Teste: que tipo de mãe você é na educação dos seus filhos?
Será que você está exagerando nas broncas?

Se o carinho é simplesmente inexistente, o problema é maior ainda. “As consequências de uma infância sem afeto e sem amor de adultos vão da ansiedade à violência na adolescência”, esclarece a psicóloga Camila. “Em alguns adolescentes, a insegurança gerada ao longo dos primeiros anos de vida sem carinho se manifesta pela depressão, pela falta de apetite e pelo fraco desempenho escolar. Em outros, vem à tona por meio de uma agressividade com tendências violentas”. Nilce complementa: “Podem se tornar jovens que batem, partem para a agressão física”.

Miche, o marido, Emerson, e as filhas: 'Elas são seguras, sabem expressar seus sentimentos, deixar claro do que gostam e do que não gostam'
Arquivo pessoal
Miche, o marido, Emerson, e as filhas: 'Elas são seguras, sabem expressar seus sentimentos, deixar claro do que gostam e do que não gostam'

Carinho x mimo

A pegadinha nessa história é saber separar o carinho do mimo. “O carinho pode ser ilimitado, desde que venha acompanhado pela estipulação de limites. Aquilo que ultrapassa a verdade e o bom senso é mimo; se a preocupação com o bem-estar é menor do que a vontade de agradar à criança, isso é mimo”, afirma Nilce.

Ela prossegue: “Muitos adultos não querem falar ‘não’ para os pedidos das crianças, pois creem que estariam sendo severos e pouco afetuosos. Mas, se bem explicado, o ‘não’ do limite é uma forma de carinho, pois mostra que os pais se preocupam com o filho. Quando ele ouve que não pode brincar com determinado brinquedo porque corre o risco de se machucar, recebe como uma mensagem de amor, mesmo que chore e esperneie na hora”.

As crianças, é claro, tentarão forçar e flexibilizar esses limites – faz parte do processo de amadurecimento delas. Ao perceber isso, cabe aos pais impedirem que a situação vá adiante, rumo ao mimo. “É uma questão que varia de família para família. Os adultos conhecem seus filhos e sabem, pelas reações deles, quando é hora de colocar um ‘não’ na história”, diz Camila.

A publicitária Miche Kretschmer confirma que é assim mesmo. “Hoje em dia, já percebo pelo olhar das meninas o momento de endurecer um pouco. Faço isso de forma consciente, porque elas precisam entender que para tudo há limite. Não é fácil, mas tem que ser feito. E continuamos nos amando muito”, finaliza.


    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.