Mãe de primeira viagem (de gêmeas!) conta sua experiência diante de algumas demandas da maternidade e dá dicas para lidar melhor com elas

Dia desses escutei uma história engraçada sobre a maternidade. Algumas amigas - a maioria delas acompanhada de filhos pequenos ou bebês de colo - estavam reunidas em um evento social. De repente, uma coloca o filho no carrinho e pega uma taça de champanhe. Imediatamente outra mãe do grupo levanta e diz em voz alta: “Não senhora, pode pegar o menino no colo agora. Uma mãe que não consegue segurar um bebê e uma taça de champanhe ao mesmo tempo não pode ser mãe.”

O importante é ter em mente que lidar com as dificuldades impostas pela chegada de um filho é sempre uma grande oportunidade para aprender
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O importante é ter em mente que lidar com as dificuldades impostas pela chegada de um filho é sempre uma grande oportunidade para aprender


À primeira vista a cena parece engraçada, mas me fez pensar muito sobre como a maternidade é cercada por conceitos equivocados, muitos deles perpetuados assim, socialmente, em tom de brincadeira, por nós mesmas - mulheres e mães. E como mulher adora um drama, quando menos se espera, aquela bobagem dita para quebrar o gelo na festa, vira uma verdade absoluta. Claro, a gente entra na brincadeira, ri junto com todo mundo, mas secretamente pensa: “Ih, eu não consigo fazer isso. E agora?”

Do momento em que comecei a tentar engravidar até pouco depois do nascimento das minhas gêmeas - hoje elas estão com oito meses - escutei muita bobagem disfarçada de verdade, em geral apoiada por experiências prévias ou pelo depoimento contundente da amiga da amiga, que tinha tido gêmeos “e passou o maior perrengue”. Precisei filtrar praticamente tudo o que despejavam em mim quando eu contava que estava carregando dois bebês na barriga.

O mais curioso de todo esse processo foi perceber, apenas recentemente, que algumas verdades sobre a maternidade são, de fato, universais. São verdades que toda mulher sabe, mas muitas vezes não quer ou não está preparada para enfrentar. Comigo foi assim. Conto a seguir um pouco da minha experiência sobre isso.

Se você decidiu ter filhos - e tudo bem se essa não for a sua opção - mais cedo ou mais tarde, terá de lidar com:

Expectativas e cobranças
Mulher tem isso de ser perfeccionista e de ficar se cobrando o tempo todo - desde Eva e Adão, é tudo culpa nossa. Quando vira mãe então, só piora. Antes de engravidar eu tinha a ilusão que a maternidade era apenas mais uma tarefa no meu “check-list da vida”. Mal sabia eu que estava diante da maior tarefa da minha existência. No terceiro mês de gravidez, quando eu me arrastava para o trabalho e passava a maior parte do tempo dividida entre o enjoo e o sono, me frustrava muito por não conseguir render o que era esperado de mim. Passei semanas brigando com isso até admitir que, por mais que eu me esforçasse para manter o ritmo de antes, estava gerando duas vidas e isso, por si só, já era um trabalho e tanto. Quando finalmente parei de me culpar, consegui concentrar esforços para focar no que era mais importante e a frustração passou.

Insegurança
Nas semanas que seguiram o parto, um período em que tudo era novo e absolutamente intenso, vivi a incômoda sensação de que estava fazendo tudo errado o tempo todo. E gente para dizer que eu devia fazer assim ou assado não faltou: mãe, sogra, irmã, amigas, a lista era longa. Foi como se tudo o que eu havia aprendido ao longo da vida para me tornar a pessoa que eu era não me servisse de nada para enfrentar aquela confusão de bebês, hormônios e sono em que eu me encontrava. Decidi então parar de escutar os outros e dar ouvidos à minha própria intuição. E não é que funcionou? As pessoas pararam de palpitar e eu me senti mais segura no cuidado com as bebês.

Falta de tempo para si
Cuidar de um recém-nascido, especialmente no primeiro mês de vida dele, ocupa praticamente 100% do tempo da mãe. Lembro distintamente da sensação de que viveria para sempre aquele ritmo insano, de amamentar dois bebês com peito, mamadeira de complemento, colocar para arrotar, trocar a fralda, fazer dormir e começar tudo de novo. Mas a correria diminuiu. Cada semana foi melhor do que a anterior e, aos poucos, parte da rotina foi voltando ao que era antes. É claro que, depois dos filhos, muitas coisas mudam. Mas, outras não. Um exemplo: você ainda vai precisar fazer as unhas de vez em quando. Então porque não transformar isso ou qualquer outro pequeno cuidado de beleza ou bem-estar em um momento só seu?

Dificuldade para delegar
Sim, é difícil, mas em algum momento você vai precisar deixar o bebê com outras pessoas para conseguir, por exemplo, comer, tomar banho, ir ao médico ou simplesmente tirar uma soneca. Confesso que, nos meus primeiros dias de mãe ainda tentei centralizar o cuidado com as minhas filhas, mas fui vencida pelo cansaço e acabei pedindo ajuda. Foi a melhor coisa que fiz. Dividir o cuidado delas com meu marido permitiu a ele participar mais ativamente da rotina das bebês e aumentou a confiança dele para, quando necessário, cuidar sozinho delas. Hoje, me sinto à vontade em deixá-las com o pai quando estou de plantão no trabalho.

Culpa
Em maior ou menor grau ela acompanha todas as mães em todas as fases da vida. Não posso falar sobre como lidam com ela as mulheres que optam pela maternidade em tempo integral, mas para as que, como eu, trabalham fora de casa, a fase mais aguda é a da volta ao trabalho. No primeiro dia depois da licença, fechei a porta de casa com lágrimas nos olhos e percorri o caminho inteiro até o trabalho me achando a pior mãe do mundo por ter de deixar as minhas filhas com a babá. Felizmente, ao chegar na redação, fui confortada por algumas mães que, como eu, haviam passado pela mesma situação. Bastaram algumas horas no ambiente de trabalho para eu perceber que voltar à vida profissional faria um bem enorme a mim e, consequentemente, às minhas filhas.

Cada experiência de maternidade é única e nem sempre o que funciona para uma mulher, vai dar certo para outra. O importante é ter em mente que lidar com as dificuldades impostas pela chegada de um filho é sempre uma grande oportunidade para aprender. E tudo bem se você não consegue segurar um bebê e uma taça de champanhe ao mesmo tempo. Para ser mãe não precisa disso. Precisa ter amor e muita disposição para ser a melhor mãe que você conseguir ser.

* Leoleli Camargo é jornalista, editora-executiva do Delas e mãe das gêmeas Beatriz e Alice, de oito meses.

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