Nem sempre a adaptação à maternidade é tão tranquila quanto se imagina. Vencer o medo do fracasso e superar os próprios questionamentos exige paciência e equilíbrio

Passar noites em claro, ter intervalos de poucas horas entre as mamadas, trocar fraldas, diminuir o ritmo da vida social e, muitas vezes, deixar de lado pequenos hábitos do dia a dia, como fazer as unhas semanalmente ou ir ao cinema quando se tem vontade. Não há dúvidas de que a maternidade é um trabalho árduo. Ao longo da vida, mulheres exercem diversos papéis importantes, mas nenhum se mostra tão impactante quanto ser mãe.

>> Confira, na galeria abaixo, atitudes que aproximam pais e filhos:

Apesar de ter se apaixonado pela filha, Valentina, quatro anos, assim que a viu pela primeira vez na maternidade, a assistente financeiro Renata Garcia Fagundes, 36, confessa que, quando foi para casa, o cenário mudou. “Quando ela nasceu, foi muito emocionante. Eu nem acreditava que era minha filha. A Valentina parecia uma boneca. No hospital, estava tudo ótimo, mas, quando vim para casa, surtei porque não consegui amamentar”, conta, revelando que teve depressão pós-parto. “Eu me tratei com remédios durante dois anos, além de ter feito terapia, acupuntura e exercício por três. Só me senti bem no ano passado, após quase quatro anos do nascimento.”

Para Fernanda Piccablotto Guerra, 35, gerente de relacionamento com cliente, a adaptação à chegada dos filhos, João Marcelo, 14, e Henrique, um ano, também não foi fácil. “Quando os meninos nasceram, eu me senti triste. Senti falta dos cuidados das pessoas e senti um mal-estar profundo por conta da mudança na rotina do sono”, assume.

Além das mudanças práticas na rotina, o medo de fracassar na nova função ronda a cabeça de muitas mães. São diversas razões que fazem com que a mulher acredite que não vai dar conta do recado nem está preparada para a nova situação em que se encontra. Para Fernanda, nem com a experiência do primeiro filho, isso mudou. “Eu tive medo nas duas gestações. Medo de não dar conta do recado, do parto, de que eles tivessem algum problema de saúde, do mundo em que eles iam viver. Mas sempre tive a certeza de que o que eu fizesse seria, com certeza, o meu melhor”, diz.

Focar nos ganhos e não nas possíveis perdas é importante. Perceber que a vida tem ciclos e atribuir a eles a efemeridade que lhes cabe poderá ajudar”, analisa a especiali
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Focar nos ganhos e não nas possíveis perdas é importante. Perceber que a vida tem ciclos e atribuir a eles a efemeridade que lhes cabe poderá ajudar”, analisa a especiali

De frente com a mudança

Lidar com mudanças, sendo elas desejadas ou não, não costuma ser fácil para ninguém. No processo de adaptação à maternidade, há a chance de o organismo entrar em um processo de estresse difícil de superar, segundo especialistas. “As expectativas em torno do novo papel ou até mesmo de um outro filho podem tornar essa experiência uma fonte de angústia e vulnerabilidade”, explica Cinthia Alves, Wellness Coach do Programa Bem-Estar, do Centro de Atenção à Saúde do Colaborador - Desenvolvimento Humano do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

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“Tornar-se mãe é um grande evento. Você ajuda um ser humano a crescer e se desenvolver, o que não é fácil. Sem contar que, às vezes, você engravida e não queria ter um filho naquela hora ou nem mesmo queria isso, precisando repensar a vida”, afirma Denise Diniz, professora-doutora e coordenadora do Setor de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A mulher tem de colaborar, em primeiro lugar, com ela mesma, pois estará naturalmente mais frágil. “Ela pode conversar bastante com o seu médico e com o pai do bebê. Para ser uma mãe companheira, ela precisa, antes de qualquer coisa, estar bem com ela, rever seus valores e o que quer passar para o bebê. Tudo isso sem nunca se esquecer de priorizar sua saúde e seu equilíbrio”, completa a especialista da Unifesp.

Perceber na própria história de vida ou na de quem está ao seu redor outras vivências que tenham sido cercadas de preocupação, mas tenham dado certo, pode auxiliar a diminuir a ansiedade em acertar. A dona de casa Melissa de Fátima Pereira da Silva, 34, mãe de Júlia, 10, João Pedro, oito anos, e Henrique, quatro anos, buscou se rodear de cuidados para enfrentar os temores da primeira gestação. “Fiz pré-natal, curso para gestantes e li todas as revistas e livros possíveis”, relembra.

Ao chegar em casa, Melissa conseguiu encarar a maratona da maternidade com certa calma, apesar de nada mais ser como antes. “Ao mesmo tempo em que é necessário ter horário para tudo, não temos mais horário para nada. O bebê precisa tomar banho de sol entre 9h e 10h, mas você conseguiu dormir às 7h. A cama já não é só do casal, nem os banhos são privados ou as refeições são momentos calmos de conversa. Tudo passa a girar em torno do bebê: fraldas, mamadas, cólicas. E, se não houver cumplicidade, entendimento, conversa e bom humor, não há casal que resista”, acredita.

O apoio do marido foi fundamental para Renata enfrentar os primeiros momentos em casa. “Foi ele quem segurou a barra. O pior, para mim, foi mesmo a pressão para amamentar. Era uma loucura como as pessoas me pressionavam. Meu marido, então, tirou férias, e eu me lembro de, depois de duas semanas com ele em casa, parar de surtar, e as coisas começarem a fluir. Fui me adaptando aos horários da Valentina, e tudo foi ficando melhor”, lembra.

O casal

Para a coach Cintia Alves, não se afastar do companheiro após a chegada de um bebê pode e deve ser evitado. “As mudanças serão inevitáveis, os encantos e as novas atribuições passarão para o foco. Haverá inúmeras situações em que será necessário priorizar a necessidade do bebê, mas com que frequência o casal utiliza o tempo disponível para cuidar da relação? Essa é uma reflexão a ser feita”, analisa.

A especialista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz indica que há coisas simples que podem melhorar o convívio, resgatar e gerar proximidade. “Conversar abertamente, aprender com outros casais, buscar novas experiências, enfim, relacionar-se com o companheiro, demonstrando afeto, cuidado e real interesse não apenas em questões relacionadas ao filho, mas na vida a dois, nos sonhos, projetos futuros e em atividades de rotina do outro. São atitudes que podem amenizar essa angústia e tornar mais prazerosa a experiência. Há casais que descobrem, após ter um filho, ainda mais cumplicidade e entrega”, comenta.

Renata e Valentina: mãe teve dificuldades para se adaptar à nova rotina
Arquivo pessoal
Renata e Valentina: mãe teve dificuldades para se adaptar à nova rotina

Limites

Além da atenção à vida a dois, a mulher precisa ter consciência de que é preciso respeitar os limites do corpo e da mente. Para Melissa, essa atitude foi fundamental para conseguir se ajustar ao ritmo exigido pela maternidade. “Saber a hora em que preciso de ajuda, o momento de deixar as tarefas de lado e me dar ao direito de descansar”, reflete. Renata conta que teve de entender que tinha de se comprometer mais, diminuindo, por exemplo, a vida noturna. “Parei de gastar tanto com bobagem e também tenho exercitado muito, desde então, a tolerância. Mudei de emprego e, no que estou agora, sempre deixei claro que preciso cumprir meu horário de saída porque quero estar mais tempo com a família. Agora, não dou tanta importância para bobagem, quero é ter harmonia em casa para a Valentina não sofrer.”

A passagem do papel de mulher para mãe é vivido de maneira singular por cada uma, seguindo as crenças que possuem a respeito de si mesmas e da própria maternidade. “A cultura, os hábitos familiares e a influência de outras pessoas também são fatores determinantes. Focar nos ganhos e não nas possíveis perdas é importante. Perceber que a vida tem ciclos e atribuir a eles a efemeridade que lhes cabe poderá ajudar”, analisa a especialista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

Fernanda confessa ainda não estar completamente adaptada à rotina do segundo filho, Henrique, apesar de considerar que estava mais preparada emocionalmente para o nascimento dele. “Não me ajustei ao Henrique ainda, ele é superativo e demanda uma atenção absurda. Eu me perco com os horários e sinto que só vou conseguir entrar no eixo quando voltar a trabalhar”, revela.

Denise destaca que, se a mulher não conseguir se dedicar ou se adaptar em pouco tempo à maternidade, não precisa se culpar. “O processo, muitas vezes, faz com que a gente queira sair da situação, por achar que não cabe naquele papel, que não vai dar conta. Adaptar-se mais devagar às suas metas e atividades diárias não significa rejeitar o filho. O ideal é encontrar uma forma de colaborar consigo mesma”, defende a especialista da Unifesp.

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