Desenvolvimento da liderança depende do estímulo social vivenciado pela criança – que pode, inclusive, ser autoritária, exibicionista ou birrenta, e não líder

Já com o pensamento alguns anos adiante, muitos pais sentem um orgulho enorme ao verem seus filhos no comando de brincadeiras ou atividades com outras crianças. Enxergam ali pequenos “líderes natos” que, preveem, se tornarão profissionais muitíssimo bem-sucedidos e até Presidentes da República no futuro. Por essa linha de raciocínio, líderes nascem líderes e o tempo se encarregará de reconhecer e recompensar essa característica. Mas não é bem assim que as coisas acontecem.

“A criança líder acolhe e sabe que todos são importantes. Ela também motiva os colegas, tem carisma, é curiosa, criativa, comunicadora
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“A criança líder acolhe e sabe que todos são importantes. Ela também motiva os colegas, tem carisma, é curiosa, criativa, comunicadora", explica especialista

Em primeiro lugar, é importante entender que ser líder é muito mais do que estar à frente das ações. “Influenciar pessoas é uma das características de um líder, mas é necessária uma combinação de fatores para ser líder de fato”, explica a coach parental e educacional Daniela Monteiro, que detalha: “Alguns deles são a capacidade de lidar com problemas, de enxergar as situações amplamente, um alto senso de justiça e de coletividade, buscar sempre pensar no melhor para o grupo, saber se expressar e, principalmente, saber ouvir, não ter medo de perguntar ou expor suas ideias e arriscar, ser o primeiro”.

Vanda Minini, doutora em psicologia da educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), complementa: “A criança líder acolhe e sabe que todos são importantes, porque cada um pode saber mais de um assunto que o outro. Ela também motiva os colegas, tem carisma, é curiosa, criativa, comunicadora. Não age intempestivamente e sabe quando, o que e para quem falar”.

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A auditora contábil Fernanda Sukadolnik começou a notar indícios de liderança em sua filha, Sophie, de cinco anos, quando a garota tinha perto de dois anos de idade. “Ela sempre foi muito requisitada pelas crianças, mesmo por aquelas que não a conhecem, em playgrounds. Acho que isso se deve ao fato de ela gostar de brincadeiras ousadas, ser muito curiosa e saber compartilhar os brinquedos”, diz.

Quando Sophie entrou na escola, tais características continuaram se manifestando e novas atitudes que indicam uma personalidade de líder surgiram. “Ela adora ser a organizadora da fila, distribuir os guardanapos na hora do almoço, segurar a porta para todos passarem. Tenho a casa sempre cheia de amiguinhos dela depois da escola. Ela divide naturalmente os papeis nas brincadeiras, de acordo com o que cada um gosta mais de fazer”, conta Fernanda.

Fernanda começou a notar indícios de liderança em Sophie, cinco anos, quando a garota tinha perto de dois anos de idade
Arquivo pessoal
Fernanda começou a notar indícios de liderança em Sophie, cinco anos, quando a garota tinha perto de dois anos de idade

Ninguém nasce líder

Na opinião da mãe, Sophie não nasceu líder; ela acredita que “as características naturais da criança geram essa liderança”. Segundo as especialistas, ela está certa. “Ninguém nasce líder. Todos esses comportamentos são aprendidos nas relações sociais que as crianças estabelecem com outras crianças e com os adultos”, afirma Vanda.

Isso quer dizer que mesmo que o pequeno nasça com as habilidades de um líder, não existe uma garantia de que elas desabrocharão. “Elas tanto podem ser desenvolvidas ao longo da infância, adolescência e vida adulta quanto simplesmente se tornar cada vez menos frequentes, de forma que nunca seja obtida uma liderança de fato”, esclarece a coach Daniela. Para ter mais chances de amadurecer a liderança dos filhos, ela orienta que os pais prestem atenção a dois aspectos: a repetição e os dois lados da circunferência.

“Quanto mais a criança repete, mais consolida o aprendizado. É como uma espiral ascendente, em que mesmo que a atividade seja repetida, nunca estará no mesmo lugar”, exemplifica. “Já a parte dos dois lados da circunferência é como na música [‘Certas Coisas’] do Lulu Santos, em que ele canta que ‘não haveria luz se não fosse a escuridão’. Ao desenvolver a personalidade, as crianças testam os dois lados. São momentos de egocentrismo e de coletivo, de ser líder e de ser liderado. O feedback, em forma de aprovação ou reprovação, faz com que ela tenda para um dos lados. Logo, os traços da liderança devem ser incentivados e aperfeiçoados ao longo da vida do indivíduo”.

Amor e exemplos positivos

Diante do conhecimento de que o convívio social é fundamental no desenvolvimento da liderança, conclui-se que é possível tornar uma criança líder. Mas sem forçar a barra e com muito amor e exemplos positivos. “É importante um ambiente preparado, sadio. A criança deve ser exposta a bons modelos e incentivada a entender o senso de justiça, a pensar no coletivo, a assumir os próprios erros, a se tornar autônoma”, lista Daniela.

Vanda ressalta que “para que uma criança seja líder, ela precisa ter autoestima, o que não é tarefa fácil diante desta sociedade consumista. Só com exemplos de liderança ela poderá modelar seu comportamento, pois aprendemos pelo exemplo. Não tem lógica esperar uma transformação sem parâmetros”.

Autoritarismo, exibicionismo e birra

No desespero por ter filhos líderes, muitos pais acabam fazendo confusão e até prejudicando as crianças. O erro mais comum, de acordo com Daniela e Vanda, é achar que ser líder é ocupar um lugar de destaque, convencer os outros a fazerem algo. “Muitos adultos fazem tamanha pressão que a criança torna-se autoritária para agradá-los. Às vezes se transformam nos famosos ‘valentões’” , diz Daniela.

Outro equívoco corriqueiro é achar que o filho exibicionista é líder e estimular esse comportamento. “São crianças que necessitam de reconhecimento, bajulação e ‘fama’ para se sentirem bem, que acham que tudo delas é melhor. Elas agem com a intenção de se mostrar para os outros, não de conquistar algo para si. Humilham e não acolhem”, alerta Vanda. “O líder não precisa se exibir, pois seu empenho é reconhecido naturalmente”, completa.

Por fim, há a birra confundida com a liderança: a criança que, de tanto insistir que quer algo, consegue. E os pais, incapazes de lidar com essa insistência, preferem acreditar estar diante de um líder. “A criança líder não tem necessidade de persuasão. Muito pelo contrário: ela encanta quem está por perto. A birra nada tem a ver com liderança, é um comportamento ensinado como o autoritarismo e o exibicionismo”, afirma Vanda. “O líder pensa no todo, a criança birrenta pensa em satisfazer sua vontade momentânea. Crianças líderes argumentam, as birrentas choramingam e esperneiam”, finaliza Daniela.

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