Pais de casais de filhos em cidades com mercados imobiliários difíceis enfrentam uma situação complicada: distribuir o número de cômodos disponíveis entre as crianças

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Os gêmeos Roy e Marieke dividem um quarto no apartamento de três quartos ao norte do Golden Gate Park, em São Francisco
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Os gêmeos Roy e Marieke dividem um quarto no apartamento de três quartos ao norte do Golden Gate Park, em São Francisco

Caleb e Harper não poderão dividir o quarto para sempre, mas por hora, Rachel Goldstein parece ter boas razões para deixar o filho de sete anos e a filha de quatro no mesmo quarto da casa da família.

Para começar, os pais precisam conservar sua energia, que é um recurso não renovável. "Não consigo nem imaginar ter que colocar os dois para dormir", afirmou Goldstein certa manhã.

Além disso, os irmãos se divertem uns com os outros – se "diversão" significar "luta". "Os dois começaram com isso há pouco tempo, ele tem os cabelos longos e ela não tem medo de agarrar com as duas mãos e puxar".

Entretanto, a melhor razão para deixá-los no mesmo quarto é o fato de que Goldstein, que é assistente social, e o marido, advogado, não têm outra opção.

A não ser por um quarto a mais, a casa de 140 metros quadrados do casal oferece tudo que eles poderiam desejar: deck, quintal, um quarteirão histórico e arborizado, fica a poucos metros do Prospect Park e da estação de trem, além de estar próximo a uma escola badalada. Goldstein consegue se imaginar em uma casa de três quartos nas proximidades. O que ela não consegue encarar são os preços da região onde mora em Nova York, nos Estados Unidos, que chegam a 1,6 milhão de dólares.

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Um beliche se mostrou a melhor opção. "Até agora, tudo vai bem. Vamos ver como as coisas se desenrolam. Não consigo imaginar como vai ser quando ele tiver 11 e ela tiver oito anos" e então a mãe fez uma pausa. "Sei lá! Talvez quando ele tiver 12 e ela nove?"

Os pais de casais de filhos em Nova York e outras cidades com mercados imobiliários difíceis enfrentam o que parece ser uma equação impossível: a família precisa acrescentar um quarto ou subtrair um filho.

O que pode dar errado?

A outra solução – quartos compartilhados – parece boa a princípio, mas logo se transforma em um cálculo complexo: as variáveis incluem idade, gênero, dinâmica familiar e personalidade, e essas coisas podem mudar com o tempo. O que poderia dar errado? Quartos divididos por meninos e meninas podem representar um risco inerente ao desenvolvimento social e sexual das crianças?

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"A resposta é: nós não sabemos", afirmou Laurie Kramer, professora de Estudos Aplicados da Família na Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign, especializada na pesquisa do relacionamento saudável entre irmãos. Apesar de toda a literatura em seu campo de estudos, afirmou, "nós ainda não estudamos esse problema".

Outro fator desconhecido é a frequência desse tipo de situação nas casas americanas. O Censo não tem dados a respeito e diversos demógrafos creem que a questão é muito difícil.

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Contudo, a Pesquisa de Moradia e Disponibilidade da Cidade de Nova York, realizada em 2011, forneceu ao menos alguns indícios a Emily Rosenbaum, professora de Sociologia na Universidade Fordham, além de especialista em demografia urbana.

Das cerca de 471.046 famílias da cidade com dois filhos menores de 18 anos, quase um terço tinha filhos dividindo quartos e mais de 4% das casas tinha mais de dois filhos no mesmo quarto.

Uma parede temporária pode ser uma forma de colocar irmão e irmã em espaços separados. Ainda assim, a Manhattan Pressurized Walls, uma empresa que constrói divisores de ambientes, reportou que esse problema corresponde a apenas 1% dos pedidos.

Não é que as paredes temporárias não funcionem para os pais, explicou um representante da empresa, mas "muitas vezes eles são mais criativos e fazem alguma coisa por conta própria. Colocam uma cortina francesa" – uma espécie de tela de vestíbulo – "biombos ou cortinas de vinil".

Ainda assim, todas essas estratégias só comprovam que algo está errado e que as crianças precisam de privacidade.

Riley, de sete anos, tinha medo de ficar no quarto sozinho e, com a chegada da irmã Billie, agora tem companhia
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Riley, de sete anos, tinha medo de ficar no quarto sozinho e, com a chegada da irmã Billie, agora tem companhia

“Vou ficar com medo”

Riley, de sete anos, "não gosta de ficar sozinho", afirmou a mãe, Jong Weiss. Ela e o marido, que trabalha com finanças, adoravam seu apartamento antigo de um quarto no Brooklyn, mas eles não hesitaram em comprar o apartamento no fim do corredor.

"Quando nos mudamos para o apartamento de dois quartos nós dissemos: 'Ele não gostou nem um pouco disso'. Ele dizia: 'Vou me sentir sozinho. Vou ficar com medo'".

A chegada da irmã, Billie, foi uma benção. Agora ela tem dois anos e a diferença de idade é grande o bastante para que Riley não a trate como uma rival, mas como sua responsabilidade. "Ele a tira do berço pra mim e eles tomam banho juntos. Riley ajuda muito e muitas vezes a entende melhor do que eu", afirmou Weiss.

Se existe qualquer dificuldade, "as crianças não estão cientes dela", afirmou a mãe.

Durante boa parte do século XIX, não se considerava que as crianças tivessem gênero definido até certa idade, afirmou Elizabeth Cromley, historiadora de Arquitetura e autora da monografia "Sleeping Around: A History of American Beds and Bedrooms" (Soneca: A história das camas e quartos americanos, em tradução livre). Por volta dois seis ou sete anos de idade, os meninos e meninas da classe trabalhadora começavam a aprender o ofício do pai ou da mãe.

Ainda assim, a privacidade não era uma questão relevante. Nas construções precárias de Manhattan, afirmou Cromley, as crianças dormiam onde podiam: por exemplo, em cadeiras na frente de fogões abertos, em busca de calor.

E até mesmo hoje em dia, quartos com uma única criança continuam a ser um luxo em muitas cidades. A Autoridade de Habitação da Cidade de Nova York oferece casas de aluguel com quartos separados para meninos e meninas, caso a família de baixa renda tenha mais de quatro filhos. Porém, Sheila Stainback, porta-voz da agência, afirmou que a maioria dos locatários sabe do tamanho das filas de espera. Eles pegam o que podem.

Então, quando a festa do pijama tem que acabar? Essa provavelmente é a questão que mais preocupa – ou assombra – os pais de meninos e meninas que dividem um quarto.

Essa é uma conversa frequente para Jennifer Block Martin, uma jornalista cujos gêmeos de sete anos, Roy e Marieke, dividem um quarto no apartamento de três quartos ao norte do Golden Gate Park, em São Francisco. "Consigo contar rapidamente ao menos 10 famílias em que meninas e meninos dividem o mesmo quarto", afirmou por e-mail.

O marido, Dave Martin, consultor de TI, acrescentou por telefone: "Isso não é tão incomum aqui na cidade, com os valores de imóveis tão altos, talvez seja mais normal e mais aceitável do que para alguém com uma casa maior, em um terreno mais espaçoso".

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