Escritório de advocacia amplia benefício para um mês e abre debate sobre qual a duração ideal do afastamento oferecido aos homens logo após o nascimento do filho

Desde 1º de janeiro deste ano, o escritório Souza, Schneider, Pugliese e Sztokfisz Advogados ampliou a licença-paternidade de seus funcionários para 30 dias – seis vezes mais que o período obrigatório por lei. Hoje, a legislação brasileira prevê um afastamento de cinco dias corridos. Entretanto, esse período poderá ser alterado. Atualmente, tramita na Câmara dos Deputados um projeto de lei que o estende para 15 dias.

A coordenadora de RH do escritório de advocacia, Cristiane Carlos, explica que a decisão de aumentar a licença-paternidade não foi repentina. “Era um assunto que já vinha sendo discutido, por pensarmos no valor da família e do profissional. O funcionário fica motivado quando vê que o empregador se importa com suas necessidades. A volta ao trabalho, inclusive, é melhor. Ele chega mais seguro e revigorado para o desempenho de suas funções”, justifica.

“Cinco dias é muito pouco para construir o vínculo afetivo. A mulher começa a ser mãe quando descobre que está grávida, mas o homem só sente a paternidade de fato quando o bebê nasce
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“Cinco dias é muito pouco para construir o vínculo afetivo. A mulher começa a ser mãe quando descobre que está grávida, mas o homem só sente a paternidade de fato quando o bebê nasce", diz psicóloga



Por enquanto, nenhum dos 26 homens que trabalham no escritório (que também conta com 26 mulheres em seu quadro de funcionários) entrou com pedido de licença-paternidade, mas o benefício vale para pais biológicos e adotivos, de casais hétero ou homossexuais, como explica Cristiane: “É amplo e irrestrito, porque se trata de proporcionar a proximidade entre o pai e o bebê. São momentos felizes que fazem toda a diferença no crescimento da criança e na própria dinâmica familiar”.

Ajuda para facilitar o dia a dia

Justamente por compreender a importância de ficar próximo da mulher, Andréa, e da filha, Gabriela, o administrador de empresas Daniel Roschel decidiu tirar uma semana de férias imediatamente após a licença-paternidade de cinco dias a que teve direito quando a menina nasceu, em 6 de janeiro deste ano.

“O período oficial é curto, porque três dias são passados na maternidade, onde tem gente para fazer tudo por nós. Os dois dias restantes é que são a vida real. Quando chegamos em casa, entendemos a dedicação que um bebê exige e como é importante o marido auxiliar a mulher, até porque ela precisa também de um tempo para se cuidar”, afirma.

Nessa licença-paternidade estendida, Daniel colocou em prática o lema “não basta ser pai, tem que participar”. “Tem que ser parceiro da mulher, pôr a mão na massa. O simples fato de preparar uma refeição para o casal já ajuda demais a mãe. Ou encher de água quente a banheira para o banho do bebê, que não tem ciência nenhuma, mas adianta o trabalho”, exemplifica. Outras tarefas que passaram a fazer parte de seu dia a dia são trocar fraldas, colocar Gabriela no ombro para arrotar e trocar a roupinha dela sempre que necessário. “Só não amamento porque não tenho leite”, brinca.

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Ter planejado esse período um pouco mais longo foi bom para o administrador encontrar formas próprias de trocar afeto com o bebê. “Claro que o pai nunca vai conseguir ter o mesmo vínculo que a mãe, mas procuro o máximo de proximidade, de contato ‘pele com pele’ com a Gabi, mesmo agora que já estou na rotina de trabalho novamente”, conta. E esse retorno não foi fácil: “No dia em que voltei ao trabalho, me despedi das duas sofrendo. É de partir o coração”.

As muitas formas de encarar a licença-paternidade

O comportamento participativo de Daniel representa uma das muitas realidades masculinas relacionadas à licença-paternidade no Brasil. Psicóloga do espaço Equilibrium Spa da Mente e especializada em terapia cognitiva-comportamental e em psicologia positiva pelo Centro de Psicologia Aplicada e Formação (CPAF) do Rio de Janeiro, Renata Castro diz que, em outros casos, não é incomum os pais se sentirem excluídos da dinâmica familiar com a chegada do bebê e, por isso, estremecerem o relacionamento com a mulher. O curto período da licença masculina, segundo ela, é um dos responsáveis por esse sentimento.

“Cinco dias é muito pouco para a construção do vínculo afetivo. A mulher começa a ser mãe no momento em que descobre que está grávida, mas o homem só sente a paternidade de fato quando o bebê nasce. Ao voltar ao trabalho e deixar a mulher e o bebê em casa em tão pouco tempo, precisa interromper esse processo, e nasce a sensação de exclusão”, explica.

Uma outra faceta menos bonita e romântica da licença-paternidade é aquela em que o homem não se coloca disponível sentimentalmente para criar uma ligação com o filho ou para auxiliar a mulher. “A causa desse comportamento é principalmente social”, afirma o psicólogo Marco Aurélio Martins, coordenador executivo do Instituto Promundo e da campanha “Você é Meu Pai”, que trata da experiência da paternidade.

“No Brasil, o homem tem sua masculinidade questionada quando demonstra sensibilidade. Alguns até gostariam de ser mais equitativos, de ajudar a mulher, mas se bloqueiam por causa das famílias, que os julgam. O machismo vem desde o berço, já que meninos são criados para serem aventureiros e exploradores, enquanto nas meninas são valorizadas a delicadeza e a sensibilidade”, detalha.

Nesse cenário, ele conta que “muitos homens preferem nem gozar do benefício da licença-paternidade, por acreditarem que cuidar do bebê não tem a ver com eles, e muitas mulheres concordam, pois dizem que ficariam mais estressadas com a presença masculina em casa no período pós-parto, que o pai só atrapalharia”.

Para ficar ao lado da mulher e da filha por mais tempo, Daniel pediu uma semana de férias logo após a licença-paternidade
Arquivo pessoal
Para ficar ao lado da mulher e da filha por mais tempo, Daniel pediu uma semana de férias logo após a licença-paternidade

E como seria a licença-paternidade ideal?

Em termos de duração, é consenso que cinco dias é um período muito curto para a licença-paternidade. Daniel Roschel, pai de Gabriela há um mês, acha que seria bom que os neo-papais tivessem pelo menos 20 dias para ficar em casa com a mulher e o bebê. A psicóloga Renata Castro considera algo entre dois e três meses ideal, “embora um mês, como o escritório pioneiro de São Paulo adotou, já seja um bom avanço”.

Marco Aurélio Martins, psicólogo do Promundo, vai além e coloca o modelo norueguês como o sonho a ser realizado: “Lá, a licença tem duração de 49 semanas, ou seja, 343 dias, e pode ser dividida entre a mãe e o pai”. Mas entende que, na realidade brasileira, ainda não dá para querer algo assim: “Ampliar para um mês seria um bom começo”.

Só que nada disso tem sentido, segundo os psicólogos, se a experiência sentimental da licença-paternidade não for aproveitada em sua totalidade. Ela será realmente importante somente se o pai estiver aberto para isso. “A lei, por si só, não é capaz de promover a conscientização de que a participação do homem é importante, de que ele é mais do que um provedor material”, diz Martins.

Curtir esse período, de acordo com Renata, é “viver intensamente o início de vida do bebê. O pai deve se disponibilizar para todas as atividades: dar banho, trocar fralda, acordar de madrugada quando o bebê chorar, abraçar muito, dar suporte à mãe”. Martins complementa: “Quando ele começa antes mesmo do nascimento, acompanhando o pré-natal, consegue se doar ainda mais. O homem pode fazer tudo que a mulher faz, menos amamentar. Se bem que, se ela precisar tirar leite dos seios para alimentar o bebê depois, pode ficar com o pai a função de dar essas mamadeiras”.

Com muitos ou poucos dias, as famílias que aproveitam a licença-paternidade profundamente só saem ganhando. “Estudos já provaram que a qualidade de vida do pai participativo melhora. Ele se expõe menos a riscos e tende a diminuir o consumo de álcool e de drogas e a dirigir com mais cuidado. O risco de infarto também diminui”, lista o psicólogo. Para o bebê, os benefícios são de curto e longo prazo, diz Renata: “Ele conquista segurança, a construção de uma autoestima positiva e um melhor desenvolvimento cognitivo”. Já a mulher “terá um pós-parto menos estressante e reconquistará sua autonomia com mais tranquilidade”, ressalta Martins.

De toda forma, que não sejam esperadas mudanças repentinas. O progresso, eles reconhecem, é lento. “Diferentemente do que acontece na Noruega, por exemplo, no Brasil a licença-paternidade não é pensada para propiciar vínculos afetivos entre o pai e o bebê, mas para o homem poder cuidar das questões burocráticas do nascimento, como providenciar a certidão e assinar os papeis do hospital”, esclarece Martins. “Vai demorar um pouco para a questão mudar por aqui, isso ainda é um tabu”, acrescenta Renata.

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