Com cada vez mais adeptos, aulas infantis dividem as opiniões de professores, pais e médicos. Entenda os prós e os contras apresentados por eles

Nas lutas que vemos pela televisão, atletas sangram e se lesionam seriamente a cada novo embate. Nas academias da “vida real”, homens e mulheres aplicam golpes de muay thai e jiu-jitsu, entre outras artes marciais, que aprendem aula após aula. O MMA (mixed martial arts – em português, artes marciais mistas) tem facetas diferentes de acordo com o local e com quem o pratica. Mas o que vem chamando a atenção é o crescimento do público infantil nas aulas da modalidade.

Na Arena Cross Fight, atualmente são 45 alunos (38 meninos e sete meninas) com idades entre seis e 11 anos. A rotina das aulas para crianças é mais leve que aquela para adultos. Para começar, o aquecimento é lúdico, com alguns minutos de pega-pega. Em seguida são ensinados ou relembrados golpes e, para finalizar, parte-se para o esporte de contato em si. Meninas e meninos fazem tudo juntos. “As artes marciais são desenvolvidas no sentido de permitir que todos lutem de igual para igual, independentemente do tamanho ou da força”, justifica Sandro Thay, professor de artes marciais e proprietário da academia.

“Já havia procura pelo MMA infantil antes, mas o interesse aumentou muito com as transmissões na TV, com a ascensão do Anderson Silva”, conta Sandro. Mesmo depois de Silva quebrar a perna de maneira chocante durante uma luta contra Chris Weidman em dezembro de 2013, a frequência continua aumentando. “Aquilo foi uma exceção. Lesões acontecem em qualquer esporte. Jogadores de futebol e de vôlei, por exemplo, vivem se machucando e ficando afastados dos jogos”, minimiza o professor.

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Sarah era a única menina da sua turma quando começou a praticar MMA
Edu Cesar
Sarah era a única menina da sua turma quando começou a praticar MMA

Perda de peso

O que mais leva os pais a procurarem as aulas de MMA para seus filhos, de acordo com Sandro, é a necessidade de perder peso: "Recebo muitas crianças obesas ou rumo à obesidade. As aulas são movimentadas e elas emagrecem rapidamente. Sem contar que saem da frente da TV e do computador e aprendem noções de civilidade. Na minha aula, ninguém fala palavrão. E ensino que elas têm que respeitar os mais velhos, que são mais sábios”.

A busca pela perda de peso levou toda a família da agente de viagens Silvia Ornellas às aulas de MMA. Ela foi a primeira. Ao ver que havia crianças treinando, matriculou a filha, Sarah, de sete anos, que foi a primeira menina da turma. “Ela estava um pouquinho acima do peso, precisava praticar algum esporte para emagrecer e, depois, manter a saúde”, afirma. Pouco depois foi a vez de seu marido, Carlos, também se matricular na modalidade.

O fato de Sarah inicialmente ser a única menina em uma turma masculina não fez diferença nenhuma. “O respeito é muito grande e vale para meninos e meninas, maiores e menores. Ela aprende os golpes, interage. As pessoas acham que é pancadaria, mas não é. É um treino normal, com muito movimento”, relata Silvia.

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Para a gerente de cobrança Kátia Martins, o MMA também foi uma solução para o filho perder peso. Gustavo, de oito anos, não estava mais atingindo resultados satisfatórios na natação e queria desistir completamente da prática de esportes. “Mas ele não pode, está com 1,31 m e pesa 44 kg. Levei-o para ver uma aula de MMA, ele gostou e entrou. Em quatro meses, engordou apenas dois quilos, o que é pouco para o padrão de aumento de peso dele”, comemora a mãe. Além disso, criou-se um vínculo extra entre ela e o filho: “Também treino, e ele às vezes vai ver minhas aulas para depois comentar algo sobre um golpe, um movimento. A gente começou a ter esses momentos de troca”.

Kátia, naturalmente, não concorda com quem critica o MMA pelas lesões sofridas pelos atletas profissionais. “Nunca tive essa preocupação. Quem vê as aulas entende que é uma prática esportiva como qualquer outra. É um treino, não uma luta como as que vemos na TV”, diz.

Carlos, Silvia e Sarah: toda a família é adepta da prática de MMA
Arquivo pessoal
Carlos, Silvia e Sarah: toda a família é adepta da prática de MMA

A visão dos médicos

Para a pediatra Wylma Hossaka, do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, a prática infantil do MMA não é tão inofensiva assim. “Não é uma modalidade boa, porque deixa a criança sujeita a lesões sérias e a traumatismos cranianos. Também causa estresse ligamentar, ou seja, não é recomendada ortopedicamente. O risco físico é muito grande”, afirma.

Ela destaca também que “diferentemente do judô ou do caratê, que têm toda uma filosofia da autodefesa, as artes marciais mais comuns no MMA, como o muay thai e o jiu-jitsu, estimulam o ataque, o combate pelo combate. São ferramentas para as quais uma criança não está preparada”.

O psicólogo Luís Antônio Monteiro Campos, coordenador pedagógico nacional do curso de psicologia da Universidade Estácio de Sá, concorda que, sozinha, uma criança não está apta a ser exposta ao MMA – é preciso mediação adulta. “Faltam-lhe os filtros para entender que o contato físico se limita à prática esportiva. Se não há o acompanhamento de um adulto, a situação é ruim, porque ela pode naturalizar essa violência dos golpes e imitá-la no convívio social, querer ‘treinar’ com o irmão ou o amigo mais novo”, explica.

Mas, uma vez que esse cuidado seja tomado pelos pais ou responsáveis, ele não considera a prática do MMA mais perigosa do que a de qualquer outro esporte. “Quando a criança está em desenvolvimento, qualquer esporte é importante para os aspectos físico e social, independentemente do nível de contato. Nesse sentido, não vejo diferença entre MMA, outras artes marciais e futebol”, diz, e reforça a questão da presença adulta com um exemplo: “Se ela assistir a uma corrida de Fórmula 1 e for bem orientada sobre o que está acontecendo, não vai pegar o carro dos pais e sair a 300 km/h pelas ruas”.

Wylma mantém-se firme na posição contrária ao MMA infantil. “Claro que garantir que a criança pratique um esporte é importante, mas vale o questionamento: não há outro que exponha seu filho menos a riscos de lesões, à violência? Que gaste calorias de uma forma mais saudável? Que tal investir em natação, judô, futebol, vôlei, bicicleta?”, sugere. “É uma discussão muito grande, e que deve ficar maior ainda daqui por diante”, finaliza.

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