Especialistas expõem prós e contras de adequar os filhos cedo em uma rotina escolar. Entenda aspectos importantes para tomar a melhor decisão para sua família

Desde a publicação da lei nº 12.796, em abril de 2013, é obrigatória a matrícula das crianças brasileiras na educação básica a partir dos quatro anos de idade – antes, a idade mínima para ingresso na rede escolar era seis anos. Muitos pais antecipam-se bastante à legislação e, principalmente por necessidade, colocam seus filhos na escola a partir até dos quatro meses de vida, quando acaba a licença-maternidade e algumas mães precisam voltar ao trabalho. Nos três anos e oito meses de intervalo entre a obrigação e a legislação, existe um momento ideal para os pequenos começarem a frequentar uma instituição de ensino?

Existe um momento ideal para os pequenos começarem a frequentar uma instituição de ensino?
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Existe um momento ideal para os pequenos começarem a frequentar uma instituição de ensino?


A criança começa a lidar melhor com o coletivo a partir dos três anos. O modelo escolar não é coisa para bebês

Os especialistas ainda não chegaram a um consenso. Para Juliana Boff, coordenadora de ensino integral do Colégio Sion de Curitiba e mestre em educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), quando mais cedo o ingresso, mais benefícios para os alunos. “O ambiente escolar propicia uma ampliação dos círculos de relacionamento e situações que não são possíveis em casa. A criança aprende a esperar, a dividir, compreende que não pode fazer só o que quer, mas o que é necessário para a convivência em grupo”, enumera.

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Juliana considera que um bom momento para ir para a escola é por volta dois anos. “É quando a criança apresenta autonomia em termos de movimentação. Antes, ela pode precisar de uma estrutura de mobiliário e profissionais especializados que a família só encontrará em um berçário”, justifica.

Sistema imunológico

Do ponto de vista médico, dois anos é a idade mínima para se pensar em expor o filho a um ambiente escolar. “Uma criança saudável tem o sistema imunológico maduro, ou seja, as defesas prontas, com essa idade. As vacinas são tomadas até os seis meses, mas o corpo leva mais um ano e meio, em média, para produzir todas as respostas às doenças que elas impedem”, explica a pediatra Natasha Mascarenhas, diretora da clínica Super Healthy e pós-graduada em emergências pediátricas pelo Hospital Israelita Albert Einstein.

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Segundo ela, a criança que entra mais cedo que isso na escola fica muito suscetível a pegar vírus e bactérias dos coleguinhas e até doenças para as quais não está preparada, caso o colégio tenha turmas de alunos mais velhos. “Caso os pais tenham extrema necessidade de deixar o bebê em algum lugar, é melhor escolher um berçário em que todos sejam pequenos”, aconselha. “E se as infecções de repetição, como otite e faringite, começarem a se tornar frequentes e prolongadas, é bom procurar o parecer de um médico”.

Além disso, Natasha pede a atenção dos pais quanto à hiperestimulação que algumas escolas podem impor aos alunos. “Até os cinco anos, a criança não deve entrar em uma rotina de aulas e tarefas. Isso a sobrecarrega. Seu tempo deve ser respeitado”, alerta.

Necessidades individuais

A psicóloga e psicanalista Christine Bruder, diretora do centro de desenvolvimento infantil Primetime Child Development, concorda com a linha de pensamento da pediatra, mas é um pouco mais flexível quanto à idade. “A criança não deveria estar inserida em um contexto escolar, com aulas planejadas e rotinas padronizadas, até os três anos. Suas necessidades são muito individuais e devem ser atendidas com flexibilidade, adaptação, atenção dedicada dentro de pequenos grupos de convívio”, afirma.

Pais também podem criar em casa um ambiente adequado para o desenvolvimento infantil
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Pais também podem criar em casa um ambiente adequado para o desenvolvimento infantil


Isso é conseguido tanto em berçários especializados quando na própria casa. “Os pais podem criar um ambiente adequado para o desenvolvimento infantil, com materiais que estimulem os sentidos, como blocos e tintas atóxicas, com a possibilidade de ouvir músicas e histórias. A criança precisa ficar no chão, solucionar problemas. E o adulto que a supervisionar não deve fazer as coisas por ela. Deve enxergá-la como um ser inteligente, capaz”, orienta.

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É só dos três anos em diante, de acordo com Christine, que a criança passa a entender as dinâmicas de grupo. “A criança começa a lidar melhor com o coletivo a partir dessa idade. O modelo escolar não é coisa para bebês”, diz.

A educadora Juliana Boff, no entanto, defende a presença dos menores na escola. “A criança precisa de orientação para entender as noções de tempo e espaço, e isso deve acontecer em casa e na escola. Ela precisa de rotinas para compreender o funcionamento do mundo à sua volta. É importante saber que tem hora para brincar, para lanchar e para se arrumar para voltar para casa. Isso dá a ela segurança em si e em quem a cerca”, argumenta.

Visões de mães

Na hora de decidir a idade com que a criança irá para a escola, tudo é posto na balança pelos pais. A professora do ensino fundamental Cintia Borges optou por matricular Laura, sua única filha, aos dois anos e meio – hoje, a menina está com quatro e meio. “Eu notei que ela estava muito caseira, limitada. Procurei várias escolas e ficava com medo, porque muitas focam em apostilas que matam a infância. A criança pequena tem que aprender brincando”, acredita.

Ela encontrou um colégio com esse perfil e atualmente percebe “um desenvolvimento nítido” na garota. “Ela conta todas as atividades que faz, passou a cantar músicas diferentes, a se mostrar mais habilidosa com lápis e papel”.

Já a experiência da publicitária Renata Pimentel a fez se arrepender de ter colocado Mateus, hoje com seis anos, aos dois na escola. “Um dia, quando tinha três anos, ele saiu do quarto reclamando que não conseguia dormir. Eu e meu marido quisemos saber o que era, achamos que fosse um pesadelo, mas ele disse que estava preocupado porque não tinha acabado um desenho que a professora tinha pedido para o dia seguinte”, lembra.

“Aquilo me acendeu uma luz de alerta: como assim uma criança de três anos estava perdendo o sono por causa de uma tarefa? Tivemos que tirá-lo daquela escola e procurar uma que respeitasse a infância. Depois da mudança, ele nunca mais ficou estressado”, conta.

Por causa desse trauma, a caçula da família, Rute, só vai para a escola no ano que vem, quando completará quatro anos. “Fico triste por ter percebido isso com o sacrifício de um período da vida do Mateus, mas a primeira infância é muito curta e não deve ser desperdiçada com um quadro de horários de tarefas escolares. Espero estar fazendo certo agora”, afirma.

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