Pais veem em aparelhos com acesso à internet e a jogos, como smartphones e tablets, mais uma solução para acalmar as crianças; especialistas recomendam cuidado e atenção

A cena é tão comum que pouca gente questiona: em uma mesa de restaurante, enquanto os adultos conversam entre si, as crianças se distraem com smartphones ou tablets dos pais. Mesmo em casa, os pequenos têm usado cada vez mais esses aparelhos eletrônicos, sob a alegação adulta de que assim eles ficam mais quietinhos. Em pesquisa divulgada em outubro, o Instituto Ipsos detectou que de 25 a 30% das mães brasileiras entregam seus aparelhos aos filhos com idade entre zero e cinco anos com o objetivo de acalmá-los – a porcentagem varia de acordo com a idade da criança, sendo que a incidência é maior entre os dois e três anos e entre as classes A e B.

Segundo especialista, grande desafio dos pais é orientar os filhos a equilibrar o uso da tecnologia e a interação com outras pessoas
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Segundo especialista, grande desafio dos pais é orientar os filhos a equilibrar o uso da tecnologia e a interação com outras pessoas



“Já havíamos notado essa tendência em países como os Estados Unidos, e quisemos checar a realidade brasileira”, diz Diego Oliveira, diretor de contas da Ipsos MediaCT, sobre a substituição da chupeta por eletrônicos na função de acalmar os pequenos. “O que mais atrai as crianças são filmes curtos, joguinhos e músicas criados especialmente para o público infantil. Os pais aproveitam que elas estão distraídas para assistir aos seus programas na TV ou cuidar de outras tarefas da casa”, relata.

O uso de tais aparelhos, de acordo com a pesquisa, interfere nos hábitos de consumo do “mundo real”. “A criança que tem acesso a smartphones e tablets quer roupas, mochilas e brinquedos dos personagens que estrelam os aplicativos. Muitos dos mencionados por elas vieram da TV, como Ben10. Outros são onipresentes, como Barbie. E tem aqueles que ganharam força justamente por causa do acesso ilimitado à internet em dispositivos móveis, como a Galinha Pintadinha”, lista Oliveira.

A partir dos seis anos de idade, o uso do smartphone ou tablet da mãe diminui não porque as crianças cansam deles, mas porque ganham os seus próprios aparelhos. “O hábito é criado na primeira infância e se consolida na época da entrada no ensino fundamental”, esclarece.

A linguagem do mundo delas

Marina, de sete anos, e sua irmã Camila, de quatro, são crianças que já têm seu próprio tablet. A mãe das meninas, a advogada Sabrina Telo, conta que foi um processo familiar natural até cada uma ter um aparelho em suas mãozinhas: “Desde quando elas eram muito pequenas, deixávamos que elas brincassem com nossos smartphones. Então, quando eu tive meu primeiro tablet, passei a deixá-las brincar com ele também”.

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Partiu de seu marido, Luciano, a decisão de dar autonomia tecnológica às garotas. “Ele sempre diz que não devemos privá-las de terem acesso à tecnologia, à linguagem do mundo em que elas viverão”, afirma.

Sabrina percebe que Marina e Camila ficam mais concentradas no que estão lendo ou jogando no tablet, mas garante que não usa o aparelho para acalmar as crianças. “Aqui em casa, ele é mais uma ferramenta de entretenimento e pesquisa, fica ao lado dos livros, brinquedos, TV. O Monteiro Lobato que leio para elas está na versão digital nos tablets”, diz, ressaltando que a mais velha não abre mão de pular corda e a caçula, de brincar com bonecas.

“Tablets não atrapalham as atividades porque hora da lição é hora da lição e ponto. Isso é regra
Arquivo pessoal
“Tablets não atrapalham as atividades porque hora da lição é hora da lição e ponto. Isso é regra", afirma Sabrina, mãe de Marina e Camila

Acrescentar sim, substituir não

Contrária à utilização de smartphones e tablets para deixar os filhos mais quietos ou calmos, a psicóloga Andréa Jotta, do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (NPPI/PUC-SP), concorda que o preparo para a tecnologia é importante, mas ressalta que ela precisa ter um espaço bem definido no dia a dia das crianças. “A internet e os aparelhos eletrônicos não vêm para excluir comportamentos, mas para incluir. Ela vai fazer tudo o que sempre fez e ainda usar a tecnologia”, destaca.

Este é, na opinião da psicóloga, o grande desafio dos pais atualmente. “Eles precisam orientar os filhos a equilibrar o uso da tecnologia e a interação com os outros, com os compromissos. Não podem deixar as crianças limitadas àquela tela de smartphone ou tablet. As regras familiares têm que ser bem definidas e explicadas, para saberem que em alguns momentos precisarão ficar quietas, por exemplo, sem depender de um aparelho na mão”, detalha.

Sabrina age dessa maneira com Marina e Camila. “Os tablets não atrapalham as atividades delas porque hora da lição é hora da lição e ponto, deve ser respeitada. Isso é regra. E tem horas em que até ajudam, quando a Marina precisa fazer alguma pesquisa na internet para a escola”, diz. Ela considera problemático levar os aparelhos a lugares como restaurantes: “Daí não há interação com os pais, e acho que temos que conversar. Mas, sinceramente, não critico a família que usa o tablet como artifício para a paz. Há famílias e famílias”, pondera.

O psicólogo Alfredo dos Santos Rollo, especializado em psicanálise e psicoembriologia, não tem essa condescendência. “Se os pais não conseguem estabelecer uma comunicação entre eles e entre os filhos a ponto de ser necessário o uso de artifícios para acalmar uma criança, há que se questionar o que está errado”, argumenta.

Em um mundo ideal, ele considera que o melhor para as crianças seria exposição zero a qualquer tipo de eletrônico – incluindo a televisão – até os três anos de idade. Mas sabe que na vida real isso é impossível, já que “em todo lugar haverá uma tela, um estímulo”. E qual é a solução? “Os pais precisam mediar esse acesso, explicar o que está sendo mostrado. Se o filho vai usar um tablet, mesmo depois dos três anos, um adulto tem que monitorar e inclusive limitar esse uso. De dez a vinte minutos por vez está muito bom”, sugere.

Andréa alerta, ainda, que os pais não podem se esquivar desse monitoramento com argumentos como “as crianças nascem sabendo mexer em eletrônicos, sabem mais que a gente” e adverte: “Agindo dessa maneira, eles esquecem que são pais e que têm obrigação de conduzir os filhos, seja usando uma bola ou um smartphone”.

Ela prossegue, incluindo no rol de responsabilidades parentais o aconselhamento sobre como cada ocasião exige um comportamento diferente. “As crianças têm que entender que há momentos para usar um aparelho eletrônico e outros para esperar. Que as coisas não acontecem só do jeito que elas querem. Se não compreenderem isso muito bem, vai chegar uma hora em que serão obrigadas a esperar, seja em uma fila do banco ou em um processo seletivo, e não saberão como lidar com isso”, explica.

E se mesmo com toda a argumentação verbal a criança não adequar seus comportamentos, insistindo em ficar grudada em um smartphone ou tablet, os pais precisam ter pulso firme. “Não vai ter jeito, tem que tirar os aparelhos dela. Vai ter birra e choro, mas é isso”, recomenda Andréa. A partir daí, é necessário muito diálogo. “A reintegração do uso dos eletrônicos será feita aos poucos, à medida que ela demonstrar que entende e respeita limites. É duro, mas é o melhor para o desenvolvimento desse filho”, finaliza a psicóloga.

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