Pais têm papel importante na formação das preferências culturais dos filhos, mas não devem privar as crianças de um ou outro conteúdo apenas por acharem “chato” ou “pobre”

Para que a criança desenvolva um paladar diversificado, que lhe permita ter uma alimentação balanceada ao longo de toda a vida, a ação dos pais é fundamental. Estudos indicam e confirmam que os alimentos oferecidos até o terceiro aniversário determinam como serão as preferências permanentes do indivíduo por certos tipos de comida. Será que com a formação do gosto cultural acontece algo semelhante? Os pais conseguem interferir de modo que seus filhos gostem do gênero musical ou do estilo literário favorito dos adultos da casa?

De acordo com especialistas, sim. “É principalmente o meio que determina qualquer formação de conhecimento. O processo de aprendizagem depende quase integralmente do ambiente em que a criança está inserida. Então, é fato que os pais que tentam influenciar seus filhos a gostar de rock ou pagode ou de algum tipo de livro serão bem-sucedidos nesse esforço”, afirma a pedagoga e educadora musical Leila Sugahara, doutora em psicologia da educação.

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"Pais que tentam influenciar seus filhos a gostar de rock ou pagode ou de algum tipo de específico de livro serão bem-sucedidos nesse esforço”, afirma pedagoga

Além da influência do ambiente familiar, a educadora musical e fundadora da Alecrim Dourado Formação Musical  Vivian Agnolo Madalozzo ressalta ainda a influência que a felicidade gerada pela música nos pais tem na formação do gosto infantil: “Ao perceber que as pessoas ao seu redor ficam alegres com essas canções, a criança automaticamente gostará delas também. Para ela, música boa é aquela que dá prazer e pode ser associada a coisas boas, a bons sentimentos”.

Por isso, ambas rejeitam a ideia de um estilo musical ser valorizado pelos pais apenas porque alguém lhes disse que ele é bom para o desenvolvimento da criança. Essa “recomendação” normalmente é em prol da música clássica. “Isso vale desde a gestação. Se a grávida roqueira ouve suas bandas preferidas, seu corpo sente prazer e essas ‘ondas’ são transmitidas para o feto. Por outro lado, se ela se forçar a escutar sinfonias, sofrerá, e esse sentimento ruim será sentido pelo filho dentro da barriga”, explica Vivian. Leila complementa: “Pode ser a música mais completa do mundo, mas se não tiver a ver com o universo familiar, não terá o efeito esperado sobre a criança”.

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O mesmo vale para a literatura. Se os pais quiserem que suas crianças apreciem algum autor ou gênero específico, “precisarão plantar uma sementinha”, nas palavras da contadora de histórias e arte-educadora Ivy de Lima. “Os adultos devem dedicar ao menos dez minutos do dia para contar ou mediar a leitura de histórias com os filhos. Esta é a melhor chance que terão de ajudar a construir um gosto”, diz.

Repertório

A principal recomendação de Vivian para os pais é que apresentem o máximo possível de cantores e bandas aos pequenos, para aumentar o leque de opções que eles terão para definir suas preferências. Além disso, que não privem as crianças de nenhum tipo de material cultural que desperte o interesse, mesmo que alguns trabalhos musicais destinados às crianças sejam menos elaborados.

“A Galinha Pintadinha, por exemplo, é muito pobre para o público infantil em termos de construção. A música é feita em computador, sem músicos e sem instrumentos reais, resultando em um produto final mecânico. A dupla Patati Patatá também lança mão de muitos sons computadorizados, principalmente para substituir instrumentos mais difíceis, como os de sopro. A mescla de instrumentos reais com sons computadorizados empobrece as canções e prejudica a formação auditiva da criança, que perde a oportunidade de conhecer a música pura”, afirma.

Especialista recomenda que os adultos dediquem ao menos dez minutos do dia para contar ou mediar a leitura de histórias com os filhos
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Especialista recomenda que os adultos dediquem ao menos dez minutos do dia para contar ou mediar a leitura de histórias com os filhos

Ainda assim, ela reforça que esconder a existência ou proibir músicas desse tipo não é uma estratégia benéfica. “É importante conhecer de tudo e ter repertório para saber do que gosta”, defende. Leila concorda e acrescenta: “A preocupação com a educação auditiva infantil é muito relevante também. Se a criança ouvir só um tipo de música, chegará uma hora em que ela não conseguirá mais, fisicamente, assimilar os outros estilos, por falta de capacidade de fazer as conexões cerebrais necessárias”.

De igual maneira, os livros disponibilizados para os filhos devem ser de todos os tipos, independentemente das histórias que sejam lidas pelos pais. “A partir dos nove meses, os bebês já podem manusear livros de plástico, de pano, com texturas, de papel grosso, gibis. Tudo deve ficar em prateleiras baixas, para que o acesso seja fácil”, sugere Ivy. Para ela, não existe literatura boa ou ruim nessa etapa: o que importa é desenvolver o gosto pela leitura.

Com todos esses recursos, por volta dos oito anos de idade as crianças já começam a mostrar qual gosto musical e literário escolheram para elas. “Não precisa ter medo de a Galinha Pintadinha tornar seu filho menos exigente, desde que ele realmente conheça outras produções”, garante Vivian. “E, se ele frequentar rodas de contação de história, por exemplo, terá uma curiosidade constante e crescente sobre novos livros e autores, o que lapidará seu gosto”, continua Ivy.

Adolescentes

Tudo muito lindo, só que quando chega a adolescência os pais podem ter a impressão de que todo o esforço foi em vão. “Nessa fase, é a turma que influencia no que é acrescentado ao repertório. A influência do meio social é maior do que a da família e mesmo que a da TV”, conta Leila. Ivy exemplifica: “Se todos começam a ler ‘Diário de um Banana’ [série de livros sobre o garoto Greg Heffley, ed. Vergara & Riba], seu filho lerá o ‘Diário de um Banana’. Quando as meninas aparecerem com livros da [autora] Thalita Rebouças, sua filha vai querer ler também. Pertencer ao grupo é essencial na adolescência”.

Mas a tal “sementinha” sempre estará lá, garante Leila. “Ninguém deixa de gostar do que fez parte da sua criação só por estar na puberdade. Existe a possibilidade de haver uma negação, que passará quando seu filho chegar mais perto da idade adulta. Quando amadurecer, ele buscará um retorno às influências da infância e da pré-adolescência, vai querer de volta o que lhe é afetivamente importante. O trabalho dos pais vale a pena, sim”, finaliza.

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