Em entrevista, a psicóloga Elizabeth Monteiro fala sobre os homens que estão perdidos na função de pai e como eles podem se reencontrar

A criança que cresce com o pai ausente pode perder a autoestima e ter dificuldade de socialização
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A criança que cresce com o pai ausente pode perder a autoestima e ter dificuldade de socialização

Mudanças sociais mexeram com os papeis da mulher e do homem dentro de casa, o que deixou muitos pais perdidos em relação a como devem agir diante de seus filhos. Em seu mais recente livro, “Cadê o Pai dessa Criança?” (Summus Editorial), a psicóloga Elizabeth Monteiro aborda esse assunto com base em pesquisas e, principalmente, no que observa em seu consultório ao longo das últimas décadas.

“Eu estava indignada com a ausência dos pais nas consultas das crianças. Comecei a notar as mulheres sobrecarregadas, sozinhas na criação dos filhos, mesmo com o marido em casa”, diz Elizabeth. O livro atual é uma espécie de continuação de “A Culpa É da Mãe” (Summus Editorial), lançado em 2012. “Lá, usei um tom carinhoso para explicar para as mães que elas não precisam se cobrar tanto e o tempo todo. Agora, em ‘Cadê o Pai’, o tom é mais agressivo, porque reproduzo o tom das queixas que as mulheres fazem no consultório. Mas com um pouco de bom humor”, explica.

Em conversa com o Delas, a psicóloga fala sobre as razões que levaram os homens a ficarem tão perdidos, como eles podem reverter a situação, o que as crianças ganham tendo um pai presente e como a mulher deve se comportar diante disso.

iG: A senhora afirma, no livro, que os homens contemporâneos estão perdidos na função de pai. Quando e por que eles se perderam?
Elizabeth Monteiro: Esta é uma realidade recente, de uns 20 anos para cá. As famílias vêm passando por muitas mudanças desde a saída da mulher para o mercado de trabalho, nos anos 1970. Não é raro a mulher trabalhar mais e até ganhar mais que o marido, o que acaba com o papel masculino de provedor, de senhor da autoridade. Isso mexeu com a percepção dele em relação às suas funções, pois antes o pai quando muito jogava bola com um filho para sentir que estava cumprindo seu papel. Para completar, mais recentemente passamos a observar a formação de famílias monoparentais, homossexuais, mosaico. Alguns homens alegam que a família acabou, mas isso não é verdade. A família mudou e os homens se perderam porque não conseguiram acompanhar essa evolução.

Não existe pai perfeito, mas há aqueles dedicados, carinhosos, com plena noção de como devem agir com os filhos. São raros, mas existem

iG: Quais os perfis mais comuns de pais “perdidos”?
Elizabeth Monteiro: Gosto de abordar isso de forma bem humorada. O mais comum é o pai de fachada, que dá banho no bebê vendo TV ou ajuda a montar um quebra-cabeça enquanto acessa as redes sociais no smartphone. Também há o pai ogro, que compete com o filho para derrotar a criança, alegando que ela precisa aprender a perder. O pai workaholic é muito frequente, é aquele que foge da família por meio do trabalho. Tem o pai Rocky Balboa, que bate nos filhos. O pai tiranossauro, que ofende os filhos e a mulher. E o pai amigão, que quer tratar o filho como amigo. Pode parecer que ele é legal, mas não está sendo um bom pai.

iG: Por que não?
Elizabeth Monteiro: Porque o bom pai não precisa ser amigo de seus filhos pequenos. Ele deve ter uma postura amiga, mas não pode perder a autoridade. Enquanto são crianças, os filhos esperam que os pais determinem parâmetros, tenham autoridade, firmeza – o que não exclui a delicadeza. O bom pai é o que ensina. O filho precisa admirar o pai por todo esse conjunto de atitudes. A amizade entre pai e filhos é possível em uma outra fase, quando todos já são adultos.

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iG: Existe alguma diferença entre as funções do pai e da mãe na criação dos filhos?
Elizabeth Monteiro: Não, de maneira alguma. O bebê nasce em simbiose com a mãe, o vínculo é formado desde a barriga, mas com o pai é diferente, o homem aprende aos poucos a ser pai. Mas, no fim, os dois devem ser presentes e criar o filho com amor, respeito. Quem vai à reunião da escola, leva ao médico, acompanha as sessões com o psicólogo, faz a lição de casa junto? Quase sempre é a mãe. A mãe está pronta para resolver qualquer coisa. Isso tem que ser mudado. Os homens precisam ter consciência da importância da presença do pai na vida de suas crianças.

iG: E qual é a importância do pai no processo de desenvolvimento da criança?
Elizabeth Monteiro: A principal é a construção da autoestima do filho ou da filha, que será um adulto mais seguro, bem sucedido e mesmo amoroso caso o pai seja presente e atuante. A criança que cresce com o pai ausente pode perder a autoestima, ter a estrutura neurológica prejudicada, desenvolver doenças psíquicas, ter dificuldade de sociabilização.

iG: O fato de os pais serem separados prejudica o relacionamento entre pai e filho?
Elizabeth Monteiro: O pai separado também pode ser um bom pai, até melhor do que quando era casado. A separação em si não é danosa à criança. Em alguns casos é melhor o casal viver separado, porque sob o mesmo teto as brigas entre marido e mulher podem afastar os filhos. O ideal é a criança ser criada por pai e mãe amorosos, mesmo que cada um esteja em um lugar. O perigo da separação é o homem ou a mulher começar a destruir a imagem do outro para a criança. Existem pessoas que, quando se separam, ficam muito cruéis, lutam pela guarda dos filhos só para magoar o ex. O importante é que os dois lembrem que, mesmo separados, continuam sendo pai e mãe, com obrigações e responsabilidades. Nada justifica ser um mau pai.

Em livro, Elizabeth Monteiro mostra como homens podem se reencontrar na função de pai
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Em livro, Elizabeth Monteiro mostra como homens podem se reencontrar na função de pai

iG: E no caso de crianças que não tenham mais pai porque ele morreu? Como fica a questão da figura masculina no desenvolvimento delas?
Elizabeth Monteiro: Elas buscarão essa referência em outros homens. Normalmente é um avô, um tio, alguém próximo que esteja presente e atuante em seu desenvolvimento. É melhor do que crescer com um pai vivo ausente, porque a criança buscará a referência masculina nesses homens e a projetará em um pai idealizado, que não existe – porque, se existisse, não estaria ausente.

iG: Como o pai “perdido” pode se reencontrar em seu papel? Existe um limite de tempo para ele tomar essa atitude?
Elizabeth Monteiro: Sempre é tempo de se reencontrar e se reaproximar do filho. Caso ele note que está perdido, precisa primeiro se rever por dentro e reavaliar suas atitudes, reviver sua história, seus medos, suas feridas que não foram cicatrizadas. Também é importante não criar um “personagem de pai”. O filho tem que conhecer e aceitar o pai como ele é, e vice-versa. O melhor modo de se aproximar, em seguida, é conversando, escutando, entendendo. Só assim ele conseguirá orientar e exercer sua autoridade de pai. Isso é ser parceiro, ter uma postura amiga.

iG: A mãe deve interferir no reencontro do pai “perdido” com suas funções?
Elizabeth Monteiro: É mais recomendável que não, porque esse é um processo muito particular. Tem homens que não aceitam críticas e passam a se distanciar das funções de pai de propósito caso a mulher fale alguma coisa. Ela pode dar um toque, mas se não der resultado, não deve insistir. E mesmo que o homem perceba por si e busque a reconexão com o filho, é melhor que ela fique de lado e permita que o pai encontre o ritmo e o modo de fazê-lo.

iG: Diante de tudo isso, existem bons pais por aí?
Elizabeth Monteiro: Existem sim! Acho que vale lembrar para as mulheres que não existe pai perfeito, mas há aqueles dedicados, carinhosos, com plena noção de como devem agir com os filhos. São raros, mas existem.

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