Especialistas alertam que o acessório, também conhecido como “coleira” para criança, não pode substituir os limites de comportamento que devem ser estabelecidos pelos pais

Sempre que leva a filha ao shopping, a autônoma Brane Hellen Escajadillo, 22, recebe olhares curiosos. Isso porque a menina Melissa, de dois anos e meio, usa uma mochila com guia, também conhecida como “coleira”. Trata-se de uma bolsa que a criança coloca nas costas com uma corda, que é segurada pelo adulto.

Brane diz que decidiu usar o acessório por questão de segurança, para que a filha não se perca dela em lugares com muita gente. No entanto, ela se surpreendeu com a reação das pessoas na rua. “Elas paravam, olhavam atravessadas e sussuravam comentários, diziam que a criança parecia um cachorro. Mas minha filha estava feliz e segura. Por isso, esses comentários não me afetaram”, explica.

A mãe conta que, certa vez, uma senhora até a repreendeu na fila de uma loja, condenando o uso da mochila e questionando por que a mãe simplesmente não carregava a menina no colo ao invés de utilizar algo que mais parecia uma coleira. Brane se justificou dizendo que o shopping estava muito cheio e que a filha ficava mais livre para andar sem se perder. “Acho que, no fim, ela entendeu minha posição”, relata.

A psicóloga clínica Cecília Zylberstajn diz que os pais precisam ficar alertas com o uso deste tipo de mochila, pois podem prejudicar bastante a educação das crianças. “Muitos adultos transferem para o acessório os limites que eles mesmos deveriam dar aos filhos. Desta forma, deixam de ensiná-los a lidar com situações de risco e a se comportarem em público”, afirma.

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Nestes casos, o melhor mesmo é chamar a criança antes de sair e explicar que ela deve andar de mãos dados com os pais, não pode correr, nem sair andando sozinha. “A conversa ainda é melhor caminho. Impor limites dá trabalho, mas às vezes os pais querem achar métodos indiretos de fazer isso, e o resultado é muito ruim”, afirma a psicóloga Isabel da Silva Kahn Marin, especialista na área de família.

Brane usa o acessório para passear com a filha Melissa, de dois anos e meio
Edu Cesar
Brane usa o acessório para passear com a filha Melissa, de dois anos e meio

Tranquilidade no tumulto

Assim como no caso de Brane, muitas vezes, o uso da mochila com guia é feita mais por conta do receio dos pais de perderem seus filhos em lugares com muita gente do que propriamente pelo mau comportamento deles. É o caso, por exemplo, de grandes parques temáticos, como os da Walt Disney World, em Orlando, onde é comum encontrar crianças utilizando a “coleirinha”.

Para a psicóloga Cecília Zylberstajn, existem situações extremas, como uma mãe sozinha com três filhos, nas quais o uso pode ser tolerado. No entanto, ela diz que o melhor mesmo é ensinar as crianças a circular em público e explicar as consequências que a desobediência pode causar. “Se você usa a coleira e não orienta a criança, ela nunca vai aprender a entender os limites. Acho ruim quando este acessório substitui um treino educativo”, acredita a profissional.

Menos insegurança e mais elogio

Mas se mesmo com toda a orientação os pais ainda ficarem inseguros em levar os filhos a locais públicos, Cecília aconselha fazer saidinhas experimentais, em lugares menos cheios ou em dias que o shopping estiver mais vazio, por exemplo. “Medo que aconteça alguma coisa ruim todo mundo tem, mas temos de tomar cuidado para não colocar os filhos em uma ‘bolha’”, diz Cecília.

Para Isabel Marin, outra saída é procurar programas nos quais a criança possa ficar mais livre e solta, sem a necessidade de uma intervenção maior. Já se a intenção dos pais é fazer compras no shopping, pode ser que a melhor opção seja deixar a criança com alguém, assim os adultos ficam menos preocupados para resolverem suas pendências.

Em todo esse processo de colocar regras, a atitude firme dos pais é fundamental. No entanto, Cecília também orienta que o bom comportamento dos filhos deve ser elogiado sempre. Portanto, se eles agiram bem durante o passeio, diga o quanto aprovou a atitude e ficou contente. “A criança precisa de muito reconhecimento. Ela sente orgulho ao saber que fez algo certo e vai querer repetir a atitude depois. Isso vale mais que uma bronca e ensina muito melhor a estabelecer os limites”, afirma a especialista.

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