Filho praticante de esporte radical preocupa mãe: “É muito sofrimento”

Por Aretha Martins - enviada iG a Bahia* |

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“Ele já ficou em cadeira de rodas porque perdeu as unhas dos pés. Isso é vida para a mãe, que o tira da barriga inteiro?”, indaga Yonne. O filho dela é campeão de corrida de aventura

A artista plástica Yonne Rossini conversou com a reportagem do iG com um sorriso largo no rosto, mas sem esconder a tensão. Apesar de estar no bar do hotel em um fim de noite, o computador permanecia sempre por perto e os ombros estavam rígidos. O motivo? Naquele momento, o filho Marco Amselem, 28, estava em algum ponto desconhecido da disputa do Ecomotion/Pro, corrida de aventura que aconteceu este mês na Costa do Cacau, região sul da Bahia.

“É muito sofrimento porque nunca sabemos o que vai acontecer. Durante a prova, o corpo trabalha no limite o tempo inteiro e os participantes correm risco de vida. Eles chegam inteiramente estropiados”, resume a mãe. Além de Marco, que também é produtor de vídeo, Yonne tem outras duas filhas, uma empresária e outra jornalista.

Marco Amselem começou a praticar corrida de aventura durante a faculdade. Foto: Juliana Povoação/Columbia VidaraidO atleta entrou para a equipe Columbia neste ano e sua primeira prova com os novos companheiros foi o Ecomotion/Pro. Foto: Juliana Povoação/Columbia VidaraidMarco (primeiro à direita) ao lado da equipe Columbia, campeã do Ecomotion/Pro 2013. Foto: Juliana Povoação/Columbia VidaraidChegada do Ecomotion/Pro na praia de Comandaduta e vibração de Marco com o 1º lugar. Foto: Alexandre Cappi/EcomotionSorriso com o título logo na primeira prova com a nova equipe. Foto: Alexandre Cappi/EcomotionPremiação do Ecomotion/Pro 2013 ao lado da equipe Columbia Vidaraid. Foto: Alexandre Cappi/EcomotionParada para desmontar a bike durante corrida de aventura. Foto: Juliana Povoação/Columbia VidaraidLuz na cabeça para enxergar o percurso durante à noite na corrida de aventura. Foto: Juliana Povoação/Columbia VidaraidRaid the North, no Canadá, foi uma das corridas mais duras para Marcos, segundo seus pais. Foto: Reprodução/FacebookAlém de corrida de aventura, o filho de Yonne já participou de provas do Iron Man. Foto: Reprodução/FacebookCom pés inchados e sem unhas, Marco já teve que voltar para casa de cadeiras de rodas após corrida de aventura. Foto: Reprodução/FacebookYonne acompanha o filho em uma prova de triatlo em 2012. Foto: Reprodução/FacebookPara deixar Yonne ainda mais preocupada, Marco arrisca manobras no skate. Foto: Reprodução/FacebookMarco mora nos Estados Unidos desde 2010 e, além de estudar, trabalha com produção de vídeo. Foto: Reprodução/FacebookYonne e Alberto ao lado de Marco e Heitor, um dos netos de Yonne. Foto: Arquivo pessoal

A corrida de aventura é um esporte que reúne diversas modalidades, como trekking, canoagem e natação. Para a prova, os atletas recebem mapas e podem usar apenas bússolas para decidir qual o melhor caminho a percorrer por praia, rio, mangues ou matas inóspitas. Quando Marco, que era surfista, decidiu começar na corrida, Yonne nem sabia do que se tratava. “Quando ele me contou, eu não imaginava o risco. Quando entendi o esporte, fiquei muito preocupada. Não sei se sofria mais quando ele surfava ou agora. Mãe sempre se preocupa”, admite.

Já para Alberto Alves, pai de Marco, o olhar é outro. “A corrida de aventura, além do treino individual, envolve o treinamento da equipe, logística, planejamento e foco em resultado. Isso vale para qualquer atividade que faça na vida. Vejo a corrida como uma excelente escola para qualquer tipo de projeto”, analisa Alberto. “Prefiro isso a ele ser apenas um jogador de futebol. Claro que ganharia muito mais dinheiro, porque não se vive de corrida de aventura, mas acho que futebol poderia ser uma coisa assim, muito simples”, completa.

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Ligação do hospital

Nem a visão empreendedora de Alberto deixa a mãe mais relaxada. Ela já passou alguns sustos com o filho, como depois da Raid the North, tradicional corrida no Canadá. Foi a primeira prova longa de Marco e, de acordo com o casal, ele e a equipe não estavam muito preparados.

"Conversava com os pais dos companheiros de equipe um pouco pelo Facebook. Fiquei sabendo que ele desmaiou. Meu inglês era péssimo na época, mas comentaram na nossa página que o Marco tinha sofrido um acidente. Eu não entendia direito o que estavam postando e fui tentar traduzir. Quando entendi, fiquei desesperada e tentei me comunicar com os outros pais para saber o que tinha acontecido”, lembra Yonne.

Arquivo pessoal
Yonne com o filho Marco: 'Meu filho realmente ama o que faz. Então, só me resta rezar e torcer'

Marco não sofreu nada grave, mas teve que voltar de cadeiras de rodas para casa. “Ele perdeu as unhas dos pés, que estavam muito inchados e não cabiam em calçado nenhum. Você acha que isso é vida para uma mãe, que tira da barriga com tudo inteiro, que conta os dedinhos para ver se está tudo certo? E eu sabendo disso por rede social!”, continua.

Em outra prova, agora na Tasmânia, a mãe do atleta ligou para saber como ele estava e recebeu a resposta direto do hospital. “Perguntei se estava tudo bem e ele respondeu que sim, mas que estava fazendo exames porque achavam que estava com gangrena. Foi o pior susto que passei”, afirma Yonne. Alberto brinca com a situação. “O Marco é meio exagerado. Se tiver com uma manchinha já acha que é alguma doença", comenta.

Rezar e torcer

Com tanta preocupação, é melhor acompanhar o filho de longe ou de perto? Para o Ecomotion/Pro, Yonne e o marido saíram de São Paulo e seguiram para Bahia para ver o atleta. “Quando dá para estar perto, como aqui na Bahia, eu prefiro. Mas, mesmo de longe, eu acompanho a corrida toda pelo computador. E sofro com isso. Acordo no meio da noite para ver onde ele está na prova”, fala.

E se seguir um mapa e ver que o filho está perdido na mata com a equipe? Aí a opinião parece mudar um pouco. “Graças a Deus eu nem entendo muito. Acho que prefiro nem saber o que está acontecendo”, responde.

O sofrimento e a tensão de Yonne foram recompensados, pelo menos no Ecomotion/Pro. Marco e a equipe Columbia Vidaraid venceram a prova na Bahia e ela estava lá para recepcionar o filho na linha de chegada.

“Quando a equipe chegou, fiquei extremamente feliz, principalmente por ver que todos estavam bem. Na verdade, eles chegam meio fora da realidade, um pouco desconectados, mas tenho certeza que ele ficou muito feliz por estarmos lá”, relata a mãe do atleta. “O que me marcou muito foi a confirmação de que o Marco realmente ama o que faz. Então, só me resta rezar e torcer para que sempre ele e os companheiros de equipe se saiam bem e inteiros”, completa Yonne Rossini.

* A repórter viajou a convite da organização da competição

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