Documentário “O Renascimento do Parto” traz à tona discussão sobre o alto índice de cesarianas no Brasil. No país, partos normais são minoria, contrariando orientações da OMS

É comum referir-se ao nascimento de um bebê como “um milagre da vida”. Mas alguns números relacionados a esse acontecimento no Brasil não são tão mágicos. No Sistema Único de Saúde (SUS), 36,8% dos partos realizados em 2011 foram cesáreas – o número é mais que o dobro da recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que considera adequado um país ter no máximo 15% de partos feitos por intervenção cirúrgica. Na rede privada, a realidade é bem mais alarmante: 80% dos bebês brasileiros nascidos em hospitais particulares chegam ao mundo por cesarianas. Além disso, de acordo com um levantamento feito pela Agência Nacional de Saúde Suplementar, 70% das gestantes querem, no início da gravidez, ter seus filhos por parto normal; ao chegar ao último trimestre, apenas 30% mantêm esse desejo.

Diante de dados como esses e com vivência de psicóloga e doula (profissional responsável pelo bem-estar físico e emocional da mulher em trabalho de parto), Érica de Paula conversou com o marido, o diretor audiovisual Eduardo Chauvet, sobre a possibilidade de fazerem uma produção sobre o assunto. Ela assumiria o papel de produtora e roteirista e ele, o de diretor. O resultado é “O Renascimento do Parto”, longa independente com estreias marcadas para os dias 9/8 (São Paulo, Campinas, Rio e Brasília), 16/8 (Curitiba, Porto Alegre e Florianópolis) e 23/8 (Belo Horizonte, João Pessoa e Salvador).

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“No começo, pensávamos em um programa de TV, mas o projeto foi crescendo. Não imaginávamos que viraria um filme que entraria em circuito”, diz Érica. Trabalhando com gestantes desde 2009, ela conta que percebia “um alto grau de desinformação por parte das mulheres, que deixavam nas mãos dos médicos as decisões sobre os partos e acabavam submetidas a cesarianas desnecessárias”. A produção mostra que existem outras opções para dar à luz e foca especialmente no parto humanizado – aquele que respeita a fisiologia da mãe e o tempo do bebê, sem impor posições ou medicamentos para indução do nascimento.

Envolver-se com o assunto não foi difícil para Chauvet, embora ele confesse que, de início, tenha achado o tema bastante denso. “Todos parimos ou fomos paridos, o que torna fácil se sentir tocado. À medida que o documentário ganhou forma, abracei a causa. Eu me tornei ativista do parto humanizado”, afirma.

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O plano do casal é lançar o longa em DVD até novembro e, depois, fazer uma continuação em dez episódios para a TV. “Será para aprofundarmos melhor alguns aspectos que não couberam na edição final do filme”, justifica ele. Érica complementa: “Queremos desmitificar o parto humanizado. É preciso alertar sobre a quantidade de cesáreas desnecessárias e deixar claro para as mulheres que elas podem ser as protagonistas de seus partos”.

Informação e conscientização são fatores fundamentais para que os números relacionados aos partos feitos no Brasil mudem
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Questão cultural

Informação e conscientização são fatores fundamentais para que os números relacionados aos partos feitos no Brasil mudem e o país consiga atender os parâmetros da OMS. Segundo o obstetra Sérgio Hecker Luz, diretor acadêmico do Programa de Atualização em Ginecologia e Obstetrícia (Proago), desenvolvido em parceria com a Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), a grande quantidade de cesáreas está relacionada a uma questão cultural enraizada em boa parte de todos os agentes envolvidos no nascimento de uma criança – da mãe e sua família ao médico e sua equipe.

“Dos anos 1960 em diante, os obstetras começaram a agendar os partos que teriam ligadura de trompas na sequência e notaram que era possível se programar nesses casos, não precisavam ficar horas e horas por conta de uma gestante, como acontece nos partos normais”, explica. A prática, ele diz, foi se estendendo a casos de partos simples até chegar ao ponto em que mães e médicos determinam dia e hora do nascimento do bebê de acordo com suas agendas, sem sequer esperar o início do trabalho de parto. “As pessoas estão cada vez menos tolerantes e mais controladoras.”

Foram muitas as mudanças ocorridas ao longo desse processo, e não é possível apontar um único responsável pelo quadro atual. A obstetriz e professora-assistente do curso de obstetrícia da USP Mariane Menezes detalha: “Por conta do alto número de procedimentos, a cesárea passou a ser vista como uma cirurgia simples, embora seja de médio a grande porte. Ao mesmo tempo, houve uma desnaturalização do corpo da mulher, que passou a não ser entendida mais como um ser capaz de parir. Some-se a isso a formação dos médicos, que hoje aprendem pouco sobre partos normais ou naturais na faculdade, e a parte financeira, já que um parto de 12 horas de duração paga pouco mais que uma cesárea resolvida em uma hora”.

Dinheiro

Envolver dinheiro na problemática é um tabu. Como imaginar que o médico a quem a mãe confia um dos momentos mais preciosos de sua vida pode pensar mais em cifras do que no bem-estar dos pacientes? Sérgio Luz reconhece que isso acontece, e lamenta. “O obstetra que entra nessa roda-viva de fazer cesáreas para ganhar mais não tem amor pela profissão e pelo ser humano. Infelizmente, chega a haver até uma pressão social em algumas rodas, e os médicos embarcam nisso. Estamos diante de um problema cultural generalizado que, com muitas ações entre a classe médica e a população, levará de 30 a 40 anos para mudar”, prevê.

Mariane é um pouco mais otimista e diminui esse prazo para no máximo dez anos. “O caminho do parto humanizado tem se aberto muito. Tenho visto gestantes de todas as classes sociais e crenças buscarem informações e mudarem a mentalidade. A cesárea por pedido vai perdendo espaço”, acredita. O custo ainda assusta um pouco: fazer um parto humanizado pode custar de R$ 3 mil a R$ 10 mil, dependendo do lugar e do tamanho da equipe envolvida. “As famílias se organizam, parcelam. É uma experiência única e para a vida toda”, defende.

Para tentar oferecer condições iguais para todas as mulheres, independentemente da renda, o governo federal lançou em 2011 a estratégia Rede Cegonha, que incentiva o parto normal humanizado na rede pública por meio de ações como o custeio dos Centros de Parto Normal. Inspirados em modelos utilizados na Holanda, França e Inglaterra, eles oferecem um ambiente mais livre para a mãe dar à luz com o auxílio de enfermeiros obstétricos e, se necessário, apoio médico. Atualmente, a Rede Cegonha está presente em quase cinco mil municípios em todos os Estados do país e já recebeu o investimento de mais de R$ 3,6 bilhões.

Quando a cesárea é necessária

O incentivo ao parto normal é prioridade no Brasil, mas há que se considerar que, em alguns casos, a cesárea é necessária e salva vidas. Sérgio Luz esclarece que as indicações médicas são, nas ocorrências mais comuns, se a mãe apresenta pré-eclâmpsia (hipertensão a partir do segundo ou terceiro trimestre da gestação) e alta miopia (mais de 30 graus em pelo menos uma das vistas – há o risco de descolamento da retina no parto normal) ou se o feto tem crescimento retardado intra-uterino. “São uma minoria. Quase toda mulher pode e deve tentar um parto por via vaginal”, finaliza.

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